Medalha pela resistência ao nazi-fascismo

 MEDALHA PELA RESISTÊNCIA AO NAZI-FASCISMO

Professor da Uenf que sobreviveu a vários campos de concentração recebe medalha do presidente da Rússia


Sessenta anos após o fim da 2.ª Guerra Mundial, o russo Guerold Sergueevitch Bobrovnitchii é um conceituado cientista da Universidade Estadual do Norte Fluminense, em Campos (RJ), onde desenvolveu, com sua equipe, a tecnologia brasileira de síntese de diamantes artificiais. Mas aos dez anos, Guerold era uma criança ainda analfabeta recém-liberta dos campos de concentração alemães, onde a mãe morreu e o pai desapareceu. Por este ato de bravura imposto pela brutalidade nazi-fascista, Guerold foi condecorado pelo presidente da Federação Russa, Vladimir Putin.  

— Sua geração está ligada à resistência e à sobrevivência na luta mais dura de todos os tempos e povos. Em memória das pessoas que resistiram durante essa guerra, estou lhe desejando, de todo o meu coração, felicidade e saúde — escreve o presidente russo, na correspondência de entrega da medalha ao pesquisador da Uenf.

Na mente de Guerold, a lembrança dos horrores do nazi-fascismo remonta a seus cinco anos de idade, quando a cidade de Odessa, onde morava sua família, era bombardeada quase diariamente. Guerold se recorda de um tempo em que a cidade ficou sem qualquer instância formal de comando.

Ao bombardeio alemão seguiram-se saques efetuados por aliados romenos. Depois entraram as tropas alemães, começando o terror anti-semita. Guerold, que não é judeu, lembra ter presenciado o enforcamento de vários deles.

Em outono de 1943, quando as tropas soviéticas começavam a avançar, a polícia secreta nazista decidiu transferir parte do bairro onde morava Guerold para um campo de concentração na Alemanha, levando todos moradores. Além de Guerold, foram transferidos seus pais e a irmã Angelina, de apenas três anos.

— Foi uma viagem terrível, realizada em vagões destinados ao transporte de gado. Durante o percurso sentia cheiro de gente morta. Até hoje fico tenso quando sinto esse cheiro — conta Guerold.

Ele tinha cerca de oito anos quando foi levado para o primeiro campo de concentração, do qual não guarda qualquer lembrança. Mas do último, perto da cidade de Neuberg, Guerold se lembra alguma coisa. Era um local cheio de mulheres e crianças — separados à força de seus maridos e pais —, onde, ao que tudo indicava, eram realizados experimentos médicos com crianças. Sempre que sua mãe intuía o perigo, Guerold e irmã se escondiam para escapar dos guardas.

— Minha mãe morreu lá. O que eu me lembro para sempre era doença e fome, doença e fome, doença e fome...


GUEROLD VIU O HISTÓRICO BOMBARDEIO DE DRESDEN
 
Uma das situações mais dramáticas daquele período ocorreu enquanto os prisioneiros eram transferidos, andando a pé, de um campo para outro, perto da cidade alemã de Dresden. De repente soou um "barulho estranho" e apareceu enorme quantidade de bombardeiros voando muito baixo e em sentidos opostos. Depois se viu muito fogo e fumaça no horizonte.

— Passamos perto de Dresden e só vimos ruínas e fumaça. Lá não existia indústria militar. Nunca entendi por que os americanos destruíram aquela cidade.

A libertação ocorreu com a chegada das tropas soviéticas. Depois de dois anos de prisão, o menino Guerold ainda enfrentou seis meses no hospital militar do Exército Soviético. A irmã Angelina, que tinha cinco anos ao ser liberta, também teve que passar por tratamento médico.

DE MENINO ESTIGMATIZADO A CIENTISTA DE PRESTÍGIO


Guerold foi criado pela avó materna. Criança magra e barriguda, teve que enfrentar o preconceito e a gozação de colegas ao dar seus primeiros passos na escola intensiva onde começou os estudos.

Sempre com excelente desempenho, Guerold terminou a sétima série em 1950 e concluiu o curso técnico em Eletromecânica em 1955. Graças às ótimas notas obtidas, foi recomendado para a Universidade Técnica, em 1955, onde fez o curso de Construção de Máquinas e o mestrado em Mecânica.

Guerold veio para o Brasil em 1994, a fim de trabalhar no Laboratório de Materiais Avançados da Uenf. Nove anos depois, em 2003, Guerold e sua equipe anunciaram o domínio da tecnologia nacional de produção de diamantes sintéticos. O menino analfabeto e barrigudo perseguido pelos colegas russos se transformou num cientista de prestígio internacional.


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