Mais do que um olhar sobre a sua obra, o que o documentário “Spielberg” – resultado de 14 entrevistas ao cineasta – revela é que a obra do realizador resulta do olhar sobre si mesmo.

um dos mais conhecidos e respeitados realizadores do mundo; um dos mais influentes na história do próprio cinema. E um dos mais ricos. Produtor, argumentista, criador emérito de uma arte que não lhe dispensa aplauso ou reconhecimento. Chama-se e o seu apelido titula um notável documentário que carece de visionamento

“A minha religião era o subúrbio”. Dito assim, pode até parecer um “statement” cuspido por um “rapper” ainda e sempre inconformado; ou o espírito de missão de um ativista pejado de altruísmo na sua ação em prol dos desfavorecidos; ou (se quisermos continuar na senda da fantasia) o título de umas quaisquer memórias de um homem de fé distribuída ao domicílio de periferia. Mas quando a fantasia se afasta e dá lugar à realidade, a frase mais não é que a singela constatação de um facto entre os muitos que fizeram a vida de Steven Spielberg.

Esta, teve a sua estreia a 18 de dezembro de 1946 na cidade de Cincinnati, no Estado norte-americano do Ohio. Filho de pais descendentes de judeus ucranianos, Spielberg foi educado no seio de uma família de sólida classe média que, não sendo propriamente disfuncional, não era de igual modo particularmente conservadora, pese embora seguidora da tradição judaica. O pai, engenheiro eletrotécnico, estava muitas vezes fora em compromissos profissionais; a mãe, pianista e restauradora, tinha um perfil ligeiramente “avant-garde” para a época, a tal ponto que o mais célebre dos seus quatro filhos (e o único varão, já agora) a descreveu como... “Peter Pan”.

Esta e outras histórias são contadas na primeira pessoa que é “Spielberg”, um apetecível documentário dirigido com a eficácia decorrente da experiência: Susan Lacy, a autora, leva 3 décadas na nobre arte da biografia televisiva ao serviço da PBS, sendo que o recém-estreado documentário marca a sua estreia na bem mais poderosa HBO.

Lacy tem no seu currículo o impressionante número de 28 Emmys conquistados a que se juntam 11 Peabodys, todos graças à extraordinária série que inaugurou em 1986 na PBS: “American Masters”. Foi também esta filha de um casal de emigrantes alemães, nascida em Baltimore, que esteve na génese de outras duas séries memoráveis: “Great Performances”, ligada ao mundo das artes, e “American Playhouse”, consagrada à dramaturgia. A própria autora admite que o seu objetivo é criar uma espécie de biblioteca visual da cultura americana do século XX.

Foi, assim, neste âmbito, que nasceu “Spielberg” – resultado de 14 entrevistas ao realizador por entre as mais de 100 que contribuíram e deram forma às duas horas e meia do documentário. Nele se revela o jovem embaraçado com a sua condição judaica, o mesmo que sentia desconforto quando o avô lhe chamava “Shmuel”, o seu nome hebraico. O mesmo desconforto manifestado, ao longo do tempo, pela separação dos pais: não por acaso, “Encontros Imediatos do 3º Grau” (1982), “Indiana Jones e a Última Cruzada” (1989) ou “Apanha-me Se Puderes” (2002) são exemplos bem ilustrativos do foco atribuído à questão da paternidade. Já o memorável “A Lista de Schindler” (1993) surge como uma espécie de reposição do equilíbrio com a reminiscência da sua herança judaica.

Mais do que um olhar sobre a sua obra, o que o documentário revela é que a obra de Spielberg resulta do olhar sobre si mesmo. Um olhar que começou a desenhar-se desde muito cedo, quando aos 13 anos executou a sua primeira curta-metragem e foi premiado com a segunda, quando tinha apenas 16 anos. A personalidade e a obra foram crescendo até ao surgimento de “The Sugarland Express” (1974), estreia cinematográfica de Steven Spielberg depois de importante passagem pela televisão. O filme não foi bem recebido pela crítica, mas o facto é que o jovem realizador se fez notado.

Sobre Spielberg enquanto jovem, o trabalho de Susan Lacy é revelador através dos depoimentos de quem com ele conviveu nesses primeiros tempos; são unânimes em reconhecer o mérito e o entusiasmo do jovem “cromo”, ao mesmo tempo que pressentiram o caminho que ia seguir e que acreditavam ser diferente dos demais; o que não admira, porque os demais eram, entre outros, Martin Scorcese, Brian De Palma e Francis Ford Coppola...

De qualquer forma, o que é facto é que Steven Spielberg é o recordista de títulos na lista dos 100 filmes mais importantes do cinema, elaborada pelo American Film Institute. É ainda figura destacada nas recitas de bilheteira, no reconhecimento do público que, paradoxalmente, às vezes o prejudica perante certa classe intelectual que olha com sobranceria o sucesso permanente na sétima arte. Com uma curiosa exceção: sabia que o sucesso de “Os Salteadores da Arca Perdida” se deveu ao insucesso de...?

Para saber mais e saber melhor a que sabe o cinema de Steven Spielberg, o melhor mesmo é ver esta biografia em registo acadêmico, (no melhor sentido), aprazível e indispensável para os amantes do cinema, seja ou não incondicionais de Spielberg, o homem que pensou desistir do sonho da realização ao ver “Lawrence da Arábia”...
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