Entrevista com  Stav Shaffir"A nossa experiência em Israel é o statu quo do terror"

Em Lisboa para o Web Summit, Stav Shaffir falou ao DN sobre o esforço para impor a transparência no Parlamento israelense.

Aos 32 anos, Stav Shaffir, a mais jovem deputada do Knesset, defende uma solução de dois Estados para acabar com o conflito com os palestinos e garante que a esquerda podia vencer as eleições de 2019 se se apresentasse unida às urnas.

Quando decidiu entrar na política, muita gente lhe disse para não o fazer. Está arrependida?

Definitivamente não. A minha percepção da política era muito negativa. Achava que tinha muita corrupção. Descobri que estava enganada - a política tem ainda mais corrupção do que se pode imaginar de fora. Mas também aprendi que é possível mudar isso. E só é preciso uma mão-cheia de pessoas dispostas a não agir de acordo com as regras dos políticos e a criar novas regras para servir o público. Aprendi isso em cada luta que tive no Parlamento.

Fez parte da Comissão das Finanças do Knesset. Foi expulsa várias vezes. Foi difícil por ser jovem, por ser mulher, ou só porque dizia o que achava?

Sou a deputada mais jovem do Parlamento. E a segunda pessoa mais nova na comissão devia ter mais 20 anos do que eu. Quando cheguei, decidi que nos primeiros meses ia ficar sentada e aprender, antes de começar a falar. Mas depois trouxeram o orçamento do Estado. E o que descobri é que havia um sistema em que o Knesset votava um orçamento, mas havia um orçamento secreto, que passava pela comissão das Finanças. Os políticos habituaram-se a ficar calados. Em troca podiam ficar com algum dinheiro. Percebi que tínhamos de expor este sistema. Sempre que recebíamos um pormenor do orçamento, publicava-o online. Punha-o na minha página do Facebook. Pedi ao público para me ajudar. Tinha centenas de voluntários a investigar o orçamento. Isso ajudou-me a encontrar cada vez mais "erros", chamemos-lhe assim, que explicam o desaparecimento de centenas de milhões de shekels. Hoje o sistema é completamente diferente. Há transparência. O orçamento está aberto ao público. Quando fui reeleita, há dois anos, percebi que a luta contra a corrupção deve aplicar-se a todos os ministérios. Então pedi ao Parlamento para criar uma comissão para isso. E hoje presido a comissão da transparência.

Em 2011 liderou o movimento social que levou milhões às ruas. Seis anos depois, como estão as coisas?

Quando cheguei ao Parlamento queria lutar por melhor habitação, rendas mais baixas, um sistema de saúde melhor, melhor educação. Mas percebi que tudo estava parado porque o sistema estava viciado. Era controlado por interesses que não pelo interesse público. Hoje o Parlamento israelense é líder na transparência. Quando levei esta ideia à OCDE, encontrei-me com muitos deputados e construímos uma comissão com membros de 19 países. Europeus, latino-americanos. Portugal também faz parte. Na última sessão, o representante português falou do orçamento participativo. Espero que se torne uma tendência.

As eleições estão marcadas para 2019. Quando olhamos para as sondagens, o Likud do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu está à frente. O Labor e o novo líder, Avi Gabbay, vão dar a volta?

Temos um novo líder que está a trazer muita esperança às pessoas. O problema com o campo progressista não é que esteja em minoria. Mas Israel tem dez partidos no Parlamento. Quando olhamos para os números, a esquerda e a direita estão empatadas - com 40 e tal lugares cada. A razão pela qual não vencemos as eleições é por concorrermos com cinco ou seis partidos diferentes. Em vez de irmos juntos.

A esquerda devia unir-se mais, então?

Todas as eleições há um novo partido que se apresenta como de centro. Têm ideias progressistas mas não se querem definir de acordo com uma ideologia. É uma forma populista de ganhar eleitores. Funciona uma vez. Nas eleições seguintes entram em declínio. Os cidadãos gostariam que agíssemos de forma responsável e fôssemos juntos a votos. Não pode ser uma questão de ego. Há decisões que o nosso país tem de tomar. Uma é lutar contra a corrupção. Outra, crucial, é encontrar uma solução de dois Estados.

Estudou em Londres num programa que fomentava o diálogo entre israelenses e palestinos. Essa experiência moldou a forma como vê as coisas?

Uma semana depois de terminar os dois anos de serviço militar, recebi a bolsa para ir estudar com um grupo de israelenses e palestinos. Mas não havia ali dois grupos, havia 12 grupos a tentar entender-se. Não é preciso um programa de reconciliação para entendermos o medo inerente que as pessoas têm umas das outras. Nós israelenses que nascemos na primeira intifada, éramos adolescentes e soldados durante a segunda intifada. Vivemos os atentados suicidas e perdemos amigos. Este género de trauma gera desconfiança. Mesmo assim, em Israel, 60% querem uma solução de dois Estados. Apesar de a maioria achar que é impossível. A ideia de sionismo é que temos de tornar o impossível possível. Há 70 e tal anos, ninguém acreditava que Israel podia existir. Mas os nossos avós, vieram de todos os cantos do mundo - eu tenho avós do Iraque, da Lituânia, da Polónia, da Roménia -, chegaram e fizeram acontecer o impossível. Hoje temos um exército muito forte, uma sociedade forte, com pessoas que querem viver em Israel, criar os filhos em Israel. Não podemos olhar para os desafios e dizer: "oh, não vamos conseguir!" É quase antissionista.

Netanyahu, do lado israelense, e Abbas, do lado palestino, fazem mais parte do problema do que da solução?

Há uma falta de vontade em ambas as lideranças. Há muitas palavras mas não há ação suficiente.

Teremos de esperar por novos líderes para ter esperança de alcançar a paz?

É mais fácil para estes líderes achar que o statu quo é melhor. Eu não acredito no statu quo. A nossa experiência é o statu quo do terror. O medo não é um statu quo com que se sonhe. Quando vou ao estrangeiro e luto contra as iniciativas de boicote a Israel, digo que não estão a promover uma solução de dois Estados, pelo contrário. Estão a distanciar Israel do mundo. A comunidade internacional não entende os nossos receios, os nossos traumas, as nossas necessidades de segurança. Temos de criar mais cooperação com os nossos aliados. Também no Médio Oriente, com os países moderados da região. Temos de encontrar aliados para pôr pressão na liderança palestiniana, para que aceite assinar um acordo. Já tiveram oportunidades no passado, que falharam. Temos de fortalecer as ligações com os nossos aliados para que deem os incentivos econômicos e de segurança que precisamos para um acordo estável. As pessoas estão cansadas de negociações falhadas. Sempre que uma negociação falha, faz as pessoas, de ambos os lados, acreditar que não há solução, não há um parceiro. Não podemos cair nessa armadilha.

Fonte: DT Mundo

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