Cidade israelense abriga 220 famílias brasileirasPor Marcus M. Gilban, jornalista, direto de Israel (JTA)
A pequena e pacata Ra’anana nas redondezas de Tel Aviv pode não ter as paisagens e as praias espetaculares do Rio, ou mesmo a vida noturna e o agito da megalópole São Paulo. No entanto, a cidade, que parece adormecer quase por completo no Shabat, tornou-se rapidamente a maior comunidade brasileira no Estado Judeu. E mais: atualmente com cerca de 220 famílias do nosso país, a cidade de cerca de 80 mil habitantes segue como a primeira escolha de boa parte dos 1.800 brasileiros que têm “pasta aberta” na Agência Judaica, ou seja, deram início ao seu processo de aliá.
Das sinagogas aos pátios escolares, a presença dos brasileiros é sentida em toda Ra’anana. “Escuta-se português em todos os cantos aqui”, afirma Oshra Sharvit, diretora do ulpan da cidade, o curso de hebraico subsidiado pelo Governo onde novos imigrantes têm a opção de aprender hebraico gratuitamente durante cinco meses. O ulpan de Ra’anana é considerado um dos melhores do país. Sharvit estima que 25% dos estudantes do ulpan local sejam brasileiros.

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“Ra’anana foi rotulada ‘cidade escolhida’ pelos brasileiros”, explica Sandro Maghidman, um dos organizadores da Kehilá Yalla Chaverim (Comunidade Vamos Amigos). Trata-se de um grupo criado no Facebook já com mais de 400 membros, um ponto de encontro virtual para os brasileiros que vivem em Ra’anana e cidades vizinhas. Nele, divulgam-se notícias, trocam-se experiências, agendam-se eventos e anunciam-se serviços por e para brasileiros, de passeadores de cachorro até quituteiras de coxinhas.
“O grande grupo de moradores brasileiros, tanto “vatikim” [veteranos] como “chadashim” [novos], desempenha um papel fundamental para facilitar a integração dos recém-chegados”, completou Maghidman durante um piquenique em 20 de outubro no Parque de Ra’anana para celebrar o aniversário de um ano do grupo. “Viver em Ra’anana é um privilégio”, orgulha-se. Ironicamente, Maghidman, que chegou em 2012, vive oficialmente em Kfar Saba, exatamente na divisa com Ra’anana.
Em 2016, a imigração brasileira para Israel atingiu o recorde de 700 pessoas, 250% acima da média anual de cerca de 200 imigrantes desde a fundação do Estado judeu em 1948. Com isso, o Brasil tornou-se o sexto país a mais enviar olim logo atrás de Rússia, Ucrânia, França, Estados Unidos e Reino Unido. Em 2018, esperam-se 900 imigrantes brasileiros, de acordo com a Agência Judaica.
A violência urbana é a razão mais comum citada pelos brasileiros que fazem aliá. Seu país de origem tem uma das maiores taxas de homicídios no mundo – mais de 60.000 assassinatos por ano, ou quase 30 por cada 100.000 habitantes, de acordo com o Instituto Igarapé, que analisa os índices de violência em todo o país. Em contraste, Ra’anana é considerada uma das cidades mais seguras de Israel.
“Aqui eu ando na rua sem olhar para trás e usando fones de ouvido”, conta Denise Faldini, que se mudou para Ra’anana em 2016 com seu marido e filhos de 5 e 9 anos. “Meus filhos aprenderam aqui que, sim, as janelas do carro podem ser abertas “.
“Voltar para o Brasil não é uma opção para mim”, acrescentou Denise, que tomou remédios durante dois anos depois que sofreu um sequestro relâmpago em seu carro blindado em São Paulo, e forçada a sacar o seu próprio resgate de um caixa eletrônico. “Eu não quero morrer por causa de um telefone celular e deixar meus filhos órfãos, nem enterrá-los pelo mesmo motivo. A vida não Brasil simplesmente não tem valor”.
Michel Abadi preside uma rede de 120 voluntários espalhados por Israel, que apoiam os brasileiros antes, durante e depois que eles emigram. O empresário chegou a Ra’anana com sua esposa e três filhos em 2003. Seus pais e vários primos trilharam o mesmo caminho alguns anos depois. Seu quarto filho já nasceu em Israel.
“É um conjunto de fatores: situação política, violência na rua, economia, qualidade dos serviços públicos, maior transparência da informação sobre a realidade israelense entre os judeus brasileiros, ou até mesmo um efeito bola de neve: quanto mais brasileiros vêm, mais brasileiros eles atraem”, explica.
Os olim chadashim brasileiros vêm encontrando aparo em determinadas instituições, como a escola TALI, cuja sigla em hebraico significa “Estudos Judaicos Avançados”. Ao contrário da maioria das escolas israelenses, a TALI enfatiza os valores e as tradições judaicas dentro de espírito pluralista, semelhante à filosofia da maioria das escolas judaicas brasileiras. O formato não é comum em Israel, onde as escolas separam-se em seculares e religiosas, sem um “meio-termo”.
Em 2016, havia três crianças brasileiras em toda a escola de quase 500 alunos. Este ano, há sete brasileirinhos somente no 1º ano do Ensino Fundamental, além de outros vários espalhadas pelas demais séries. “Queríamos uma escola que oferecesse um pouco mais de religião, mas que não fosse religiosa, assim como um currículo de inglês forte”, conta Lea Naftal Kaczemorska, cujos dois filhos frequentam a escola, escolhida a dedo antes mesmo da aliá.
A sinagoga Or Israel é outro exemplo da crescente comunidade brasileira na cidade. De orientação ortodoxa, o pequeno espaço inaugurado em janeiro deste ano congrega cerca de 60 famílias, sob a batuta do rabino Ivo Zilberman, brasileiro que faz suas prédicas em português.
“É muito mais do que um ponto de encontro para brasileiros rezarem. Há também o lado social e comunitário, onde cada membro se sente parte de uma grande família”, afirma Martin Teitelbaum, que atua como gabai da sinagoga, auxiliando a leitura da Torá.
O mercado imobiliário em Ra’anana está sempre aquecido. A cidade é extremamente central, a cerca de 14 quilômetros de Tel Aviv e localizada entre Hertzlia e Kfar Saba. Juntas, as três têm a maior concentração de indústrias de hi-tech do país, espinha dorsal da economia.
Ra’anana é a cidade israelense com maior proporção de “anglos” do país, ou seja, aqueles imigrantes provenientes de países de língua inglesa. Eles são 20% da população. Fundada em 1922 por imigrantes nova-iorquinos, Ra’anana de certa forma responde em parte ao “sonho americano” de muitos brasileiros que, por não poder emigrar para os Estados Unidos, chegam a Israel e encontram Ra’anana, com seu estilo de vida cosmopolita e internacional.
Mas talvez Nehama Efrati, gerente do departamento de absorção no município, seja quem melhor resuma o interesse dos brasileiros na cidade: “A aliá brasileira combina com Ra’anana com perfeição. Aqui eles têm as duas coisas: mantêm sua cultura e se integram. Nós respeitamos ambas as facetas desta identidade. Não queremos ter apenas as cores azul e branca, queremos todas as cores. Em termos gerais, toda Israel oferece uma ótima qualidade de vida. Mas Ra’anana tem um plus”. Para ler a versão original desta reportagem, acesse aqui.
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