O general nazista Reinhard Heydrich era conhecido como a “Besta Loira” de Hitler
A morte do “Açougueiro de Praga”
O general nazista Reinhard Heydrich era conhecido como a “Besta Loira” de Hitler

Em HHhH, premiado romance de estreia do francês Laurent Binet, o autor consegue discutir os limites da ficção histórica e, ao mesmo tempo, contar uma trama eletrizante
Depois das primeiras 50 páginas de HHhH, livro que deu ao jovem escritor francês Laurent Binet o Goncourt de melhor romance de estreia em 2010 , não há como o leitor não ficar intrigado. O próprio narrador parece não ter muita certeza do que está a escrever. Há anos, ele vem pesquisando a respeito do assassinato, em 1942, do general alemão Reinhard Heydrich, um dos cabeças da SS, organização paramilitar encarregada das maiories atrocidades cometidas pelo Nazismo antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Chega, no entanto, a um impasse.

O autor, que Binet jamais revela se é alguém inventado ou um alter ego dele mesmo, antes tem a proposta de escrever um romance de ficção histórica. Mas, à medida em que avança com seu projeto, ele percebe que seria desonesto inventar descrições de cenas, diálogos que não ouviu, atribuindo a personagens verídicos reflexões e sentimentos que o narrador pode apenas supor, uma vez que ele não dispõe de fontes que os sustente e comprove.
Diante desse dilema criativo, o escritor chega a uma conclusão: ficcionalizar, em certa medida, é inevitável, mas ele tem como dever se vigiar, puxar os freios de sua imaginação, na esperança de que, mesmo tendo de recorrer a uma verdade pressuposta, ele consiga manter a integrigade da fabulosa trama real na qual se baseia.

Esse nó criativo, passado o estranhamento de ter acesso às costuras e ao processo de construção do romance, acaba, de certa maneira, dando mais vida às tortuosas histórias de Heydrich e de seus assassinos: o personagem do escritor acaba também nos aproximando de uma história ocorrida há 70 anos. Temos a oportunidade de acompanhá-lo em suas muitas viagens de pesquisa a Praga, onde o atentado ocorreu, compartilhamos suas reações frente à descoberta de documentos, livros e filmes que tratam do mesmo tema. E, ao eviscerar esse processo exaustivo de busca e escolha de fontes, Binet nos deixa com a sensação de que o fato gerador de seu romance continua muito vivo e poderoso.

“Besta loira”

Grande parte da força do livro vem do empenho do autor (Binet ou não) na construção do personagem Heydrich, desde sua infância, quando foi hostilizado na escola por acreditarem que ele tinha sangue judeu.

O livro conta sobre sua breve carreira na Marinha alemã, da qual saiu expulso, fala a respeito de seu casamento com uma jovem simpatizante da ideologia nazista, oriunda da pequena aristocracia do país, e descreve como ele ascendeu, meteoricamente, nos quadros da SS, tornando-se o braço direito do cabeça da organização, Heinrich Himmler.

Um burocrata nato, Heydrich tinha obsessão por documentos – e era, entre os integrantes do círculo mais próximo de Hitler, o protótipo do nazista ariano: loiro, alto, cruel, obediente e, sobretudo, eficiente. Não à toa também era chamado de a “Besta Loira de Hitler”.

Quando tinha apenas 37 anos, Heydrich saiu, em setembro de 1941, de certa forma, da sombra de seu chefe na SS – o título do livro, HHhH, se refere a outro de seus apelidos Himmlers Hirn heisst Heydrich , “o cérebro de Himmler se chama Heydrich”, em português. Ele assumiu o cargo de protetor dos territórios da Boêmia e Morávia, na antiga Checoslováquia, onde em pouco tempo ficou conhecido como o “Açougueiro de Praga”, por conta da crueldade com que oprimiu a população da região.

Violência

Em seu currículo, Heydrich tinha acumulados feitos infames, como a organização da chamada Noite dos Cristais, nome popularmente dado aos atos de violência que ocorreram em 9 de novembro de 1938 na Alemanha e na Áustria, quando foram destruídas sinagogas, lojas e residências de judeus residentes nos dois países. Também havia coordenado a formação dos esquadrões de extermínio, responsáveis pelas mortes de centenas de milhares de pessoas em países da Europa Central e do Leste em 1939. E, em janeiro de 1942, já como o “rei alemão” de Praga, liderou a Conferência de Wansee, ocorrida em um palacete à beira do lago Wann, a sudoeste Berlim, na qual apresentou o seu projeto de “Solução Final”, para o extermínio sistemático dos judeus do continente europeu.

Binet também apresenta, em detalhes e em paralelo, os rocambolescos caminhos percorridos pelo eslovaco Jozef Gabcik e pelo checo Jan Kubis, paraquedistas de 20 e poucos anos, escolhidos para levar a cabo a Operação Antipoide, cujo objetivo era matar Heydrich.

Hoje considerados heróis nacionais, Gabcik e Kubis cumpriram sua missão: em 27 de maio de 1942, conseguiram parar a Mercedes-Benz que transportava Heydrich. A arma do primeiro falhou, mas uma granada lançada pelo segundo feriu gravemente o alemão, que morreu uma semana mais tarde em um hospital de Praga. Nenhum dos dois paraquedistas tampouco sobreviveria à perseguição do alemães em resposta ao atentado. Binet, o romancista relutante, conta tudo de forma eletrizante. GGGG
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