Premiado  cineasta libanês é acusado de traição
Ziad Doueiri
Beirute, Líbano – Era para ser um regresso glorioso.
Depois de ser aclamado no exterior pelos filmes anteriores, o diretor libanês Ziad Doueiri achou que voltaria a Beirute para comemorar a estreia de seu novo trabalho, "The Insult".
Em vez disso, foi detido no aeroporto e levado a um tribunal militar no dia seguinte para responder pela acusação de traição. Seu crime: ter rodado o longa anterior em Israel, que o governo libanês considera Estado inimigo e proíbe seus cidadãos de visitar.
Por que ele foi detido justo dessa vez ninguém sabe, já que retornara à terra natal mais de uma dezena de vezes nos cinco anos desde que o filme em questão foi lançado. O governo, aliás, até escolhera sua nova obra para representar o país no Oscar.
Premiado  cineasta libanês é acusado de traição
Ziad Doueiri
Foi liberado sem acusação formal horas depois de ser interrogado, mas o que ficou conhecido como "o caso Ziad Doueiri" gerou debates acirrados sobre lei, política, liberdade artística e a relação hostil do Líbano com o vizinho do sul.
Os críticos o acusam de "normalizar o inimigo" para elevar o próprio perfil internacionalmente; já o cineasta explica que filmou em Israel para contar a história de maneira mais fiel e confessa que a retaliação o surpreendeu.
"Não me importo nem um pouco de ser atacado por minha ideologia ou pelo cinema que faço. Podem criticar o filme como quiserem, mas acusar alguém de traição é coisa muito grave", desabafou ele em entrevista concedida após sua libertação.
Ao longo de toda a sua carreira, Doueiri, 53 anos, fez filmes sobre as complexidades da identidade do Oriente Médio e histórias pessoais moldadas pelos conflitos da região.
O primeiro, "West Beirut", acompanha três adolescentes – dois garotos muçulmanos, uma menina cristã – quando a guerra civil libanesa foi deflagrada, em 1975; "The Insult" mostra a escalada de um conflito de rua entre um cristão e um palestino que acaba resultando no efeito do legado da guerra civil. Está programado para estrear nos EUA em janeiro.
Doueiri, um homem energético de fala rápida, que mantém os cachos do cabelo grisalho caídos sobre as orelhas e os olhos, diz que sua própria vida o ensinou que o histórico de cada um molda a percepção da realidade. Muçulmano secular, ele estudou na Califórnia, foi casado com uma cristã e hoje vive em Paris e acredita que lidar com essas complexidades só melhora os personagens.
"Dramaticamente falando, para o cinema é muito melhor lidar com uma gama de nuances. Até Darth Vader tem um lado bom, do contrário não seria interessante", explica.
E admite saber do risco de ir a Israel – que, segundo suas palavras, o governo libanês considera "a encarnação geográfica de Darth Vader".
De fato, a história fez com que muitos libaneses tomassem ódio do Estado judeu.
Sua criação, em 1948, levou hordas de refugiados palestinos a cruzar a fronteira, para campos de refugiados que acabaram se tornando assentamentos permanentes. Israel também ocupou o sul do Líbano durante quase duas décadas, apoiou facções da guerra civil libanesa e travou uma guerra de 34 dias com o Hezbollah, em 2006, que matou centenas de pessoas.
A animosidade levou à criação de leis que proíbem os libaneses de viajar para Israel e se associar com os cidadãos de lá, embora as autoridades geralmente finjam ignorar quando aqueles que têm dupla cidadania atravessam a fronteira para visitas rápidas e discretas. (Doueiri entrou em Israel com o passaporte norte-americano.)
Essa desautorização de qualquer engajamento com Israel geralmente afeta o aspecto cultural libanês.
O governo interditou filmes israelenses, como "Valsa com Bashir", de 2008, uma animação autobiográfica sobre a invasão do Líbano por Israel em 1982. Este ano, foi a vez de "Mulher Maravilha" porque a protagonista, Gal Gadot, servira o exército israelense.
Sob esse prisma, muitos libaneses viram a viagem de um dos cineastas nacionais mais proeminentes ao país vizinho como um passo longe demais, já que envolvia também o pagamento de atores e técnicos de lá.
"Nós estamos em guerra com Israel; em uma situação dessas, você simplesmente não pode lidar com eles como se fosse um país vizinho comum. Por isso, quando um cineasta e suposto intelectual diz que foi 'em paz', eu pergunto que paz? Paz de quem?", questiona Pierre Abi-Saab, editor-chefe do jornal al-Akhbar, que foi quem gerou as críticas a Doueiri.
O diretor viajou para fazer "The Attack", que conta a história de um cirurgião israelense árabe cuja esposa se torna uma mulher-bomba e que acaba tendo que lutar para entender o que aconteceu.
Embora tenha sido rodado em Israel, a agência de censura libanesa aprovou sua exibição em 2012; porém, depois do lobby de ativistas anti-Israel, a Liga Árabe decidiu pedir a seus 22 membros que o boicotassem. A maioria concordou, incluindo o Líbano.
Doueiri, também foi atacado.
"Começaram a me chamar de Ziad, o sionista, Ziad, o israelense. No Líbano, e no mundo árabe em geral, se você tem uma pecha como essa associada ao seu nome, não há jeito de tirar e você acaba ferrado um tempão."
Apesar disso, ele voltou ao Lìbano várias vezes e ali passou a maior parte de 2016, para rodar "The Insult", com a ajuda da polícia, das Forças Armadas e da justiça – e não teve problema legal algum.
Entretanto, conforme foi se aproximando a data de estreia do filme, seus inimigos resolveram se manifestar.
Abi-Saab, o editor do jornal, escreveu um artigo em que sugeria que Doueiri deveria se desculpar pelo "crime moral, político e nacional" de trabalhar com Israel. "E se não o fizer, o filme não deve ser exibido no Líbano e Doueiri, considerado criminoso pelas autoridades", completa o texto.
Em entrevista, Abi-Saab disse considerar o diretor talentoso, mas que é visceralmente contra qualquer engajamento com Israel e viu o filme como uma iniciativa de normalizar as relações com aquela nação e de fazer o povo libanês deixá-la de ver como inimiga.
"Infelizmente esse papo ingênuo e romântico de 'entender o outro' e 'fazer as pazes' não pega. Você não pode fazer as pazes com alguém que lhe colocou a faca no pescoço. É impossível."
Doueiri nunca se desculpou e o juiz que o convocou engavetou o caso, citando o estatuto de limitações e dizendo que o filme não tinha difamado o Líbano nem a causa palestina.
Disse também que nunca foi sua intenção fazer um filme pró ou anti-Israel, mas sim contar uma história humana complicada.
Ele nasceu em Beirute, filho de pais muçulmanos seculares. Sua adolescência foi dominada pela guerra civil, que durou até 1990. Sua família, esquerdista, apoiava os palestinos, ou seja, ele odiava os israelenses e seus aliados, os libaneses cristãos.
"Para mim, cristão bom era cristão morto", conta.
Em 1983, mudou-se para os EUA para estudar cinema na Univerisdade Estadual de San Diego, onde conheceu judeus e libaneses cristãos em situações que não teriam acontecido se estivesse em seu país.
Também trabalhou como cinegrafista em alguns filmes norte-americanos, incluindo "Cães de Aluguel" e "Pulp Fiction", de Quentin Tarantino.
Depois de rodar "West Beirut", em 1998, Doueiri se apaixonou por uma libanesa cristã, Joelle Touma. Os dois, saídos de comunidades que se odiavam durante a guerra, entraram em um relacionamento que em si era um exercício de aprendizado da perspectiva alheia.
"Fomos criados de lados opostos da guerra; tanto ele quanto eu vivemos o que tínhamos que viver e fomos forçados a olhar a situação do ponto de vista do outro", explica Touma.
Começaram a escrever roteiros juntos, se casaram, tiveram uma filha e hoje estão divorciados, embora continuem trabalhando juntos. "Às vezes, na mesma tela de computador", revela Touma.
Seus históricos diferentes são a base de "The Insult", drama de tribunal político que analisa o sofrimento passado dos palestinos e cristãos no Líbano e as cicatrizes presentes até hoje.
"O roteiro foi escrito durante o processo de divórcio, o que provavelmente contribuiu para as brigas nas cenas na corte", admite Touma.
Doueiri espera que o filme, além de se pagar e render lucros, estimule os libaneses a olhar para a própria história e se abrir mais, revelando suas dores, como caminho para a reconciliação.
"Seria legal se as pessoas pensassem um pouco no que gostariam de dizer, mas não têm coragem", conclui.
Por Ben Hubbard
Coisas Judaicas

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