Richard Spencer na quinta-feira em Gainesville.  AFP
Fracasso do neonazista vaidoso


Agitador racista Richard Spencer é silenciado pelos estudantes em Gainesville
Nada dá mais prazer ao agitador racista Richard Spencer do que um palco. 

Na quinta-feira colocou suas melhores roupas de orador vaidoso – calça e paletó cinzas, camisa branca; um ultradireitista trajado como dançarino de charleston – e subiu ao palco ansioso para exibir seu verbo fácil e sua reciclagem para o século XXI de doutrinas que sustentaram racismo e limpeza étnica no século XX.

Mas fracassou. Estudantes universitário antirracistas que tomaram os assentos do auditório da Universidade da Flórida em Gainesville não o deixaram falar. A cada série de frases que tentava dizer era respondido por uma chuva de vaias que o cortava. Ficou por duas horas porfiando, utilizando por vezes um pretenso tom de irônica superioridade e em outras ficando irritado e escandaloso, e bateu sem cessar contra o muro de repúdio dos jovens ativistas. “Vocês estão impedindo a liberdade de expressão de um dissidente intelectual”, chegou a dizer Spencer, apologista do supremacismo branco.

Na sexta-feira a polícia de Gainesville informou a prisão de três supostos simpatizantes de Spencer por dispararem um tiro de um carro ao final do evento. Ninguém se feriu.

Kimberly Brown, de 27 anos, nesta quinta-feira em Gainesville.
 
Seus seguidores foram em número muito menor do que o esperado. Poucas dezenas. Na primeira linha, em um espaço reservado para eles pela polícia, alguns jovens fãs de Spencer uniformizados com camisa banca e penteados de corte parecido ao agitador. 

Algumas vezes se levantaram de suas cadeiras para aplaudi-lo, mas na hora eram abafados pelas vozes do público opositor. “Vá para casa Spencer!” foi o mais leve que se ouviu. Na parte das perguntas o barulho continuou. Às vezes era possível escutar frases do ultradireitista como “Nós brancos criamos os EUA” e “Os brancos são meu povo e o acho bonito”. Um ouvinte lhe disse: “Suas ideias são como as de Hitler”.
– Não –respondeu Spencer.
– Vá à merda! – gritou Janet Akerson da plateia, uma mulher de cabelo grisalho.
Spencer há anos cultiva seu perfil como figura midiática da extrema direita. Ganhou fama após a vitória presidencial de Donald Trump em 2016 ao gritar em um salão de eventos ao final de um discurso “Hail Trump!” e realizar a saudação nazista em meio ao público. De 39 anos e formado em literatura inglesa e música, é um retórico hábil e nega ser um neonazista e um supremacista branco, ao mesmo tempo em que flerta com a lembrança da escalada hitleriana e defende a necessidade nos EUA de um “etno-Estado em que nosso povo e nossas famílias possam voltar a viver em segurança”.

Cunhou o conceito alt-right (direita alternativa) que agrupa os novos extremismos reacionários que ganharam força com a chegada à presidência de Trump com seus discursos xenófobos e sua clara preferência pela América branca. O mandatário teve como principal estrategista até agosto Stephen Bannon, outro dos mais notáveis propagandistas ligados ao movimento alt-right. O ponto crítico desse fenômeno ocorreu em agosto com os violentos incidentes em Charlottesville (Virgínia) nos quais uma manifestante morreu atropelada por um ultradireitista.

Naquela ocasião os racistas pretendiam se manifestar contra a retirada de uma estátua do general confederado Robert E. Lee e um dos líderes da horda extremista – que levou símbolos nazistas e da Ku Klux Klan – era Spencer, que foi preso, saindo na imprensa sua imagem agarrado por policiais gritando indignado com um visual idêntico ao de seu admirado cantor Morrissey: penteado com uma calculada franja e elegantes óculos de sol negros. Richard Spencer, abastado filho de um oftalmologista e de uma herdeira de uma plantação de algodão do sul dos EUA – hoje propriedade de seu filho e avaliada em milhões de dólares –, foi definido pelo Southern Poverty Law Center, um grupo de referência em observação dos discurso de ódio, como “a versão de terno e gravata do velho supremacista branco, uma espécie de racista profissional de calça social”.

O medo de um novo episódio como o ocorrido em Virgínia fez com que, na segunda-feira, o governador da Flórida, o republicano Rick Scott, declarasse estado de emergência no condado de Alachua (Flórida Central), cuja cidade principal é Gainesville (130.000 habitantes), um polo universitário de inclinação liberal – contrário, portanto, às ideias de Spencer e seu grupo, mas que, por isso mesmo, deu-lhes permissão para realizar o polêmico pronunciamento. Organizações estudantis e vozes da sociedade civil repreenderam a universidade por sua tolerância. A ordem de Scott incrementou os poderes de intervenção policial em caso de distúrbio e colocou soldados da Guarda Nacional à disposição da Prefeitura.

“Perdemos a cultura branca”

Spencer pagou 10.500 dólares (32.550 reais) por duas horas de uso do teatro. E a universidade, cujo presidente Kent Fuchs expressou sua “repugnância” ante as ideias do visitante, decidiu permitir o evento em respeito ao direito à livre opinião assegurado pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA.

Na quinta-feira, embora tenha perdido a batalha desde o momento em que pisou no palco, Spencer se manteve ali, caminhando de um lado para o outro como um ator, num pugilismo verbal estéril, com um gestual afetado e exagerado, ridículo quando imitava os críticos que estavam no fórum como se tivessem um comportamento infantil. Nos corredores, policiais armados vigiavam a situação. E também nos anfiteatros. Com os punhos para cima, os opositores não desistiam em seu empenho de impedir que as palavras de Spencer chegassem claras aos ouvidos dos poucos que tinham ido lá para escutá-lo.

Michael Pitts, empresário de 27 anos, disse que compareceu para ter uma ideia melhor do que Spencer defende. “Não sei direito qual é o pensamento dele: uns dizem que é um nazista absoluto; outros, que deseja que nós, brancos, tenhamos orgulho do que somos.” Pitts afirmou que não era racista, mas acreditava que “existe extremismo contra os brancos nos EUA”.

As imediações e o interior do teatro foram blindados pelas forças de segurança. Dois helicópteros sobrevoaram o lugar. Um avião cruzou o céu com uma faixa que dizia: “O amor vence o ódio!” Centenas de manifestantes contrários a Spencer ocuparam as ruas vizinhas com cartazes. “Não há lugar para o ódio na América”, disse Cynthia Rivera, 26, integrante do movimento de extrema-esquerda Antifa. “Estamos dando um palco a uma voz que não representa os valores da universidade”, protestou Percey Peralta, 44, um peruano que faz doutorado em ecologia.

Kimberly Brown, 27, do movimento Black Lives Matter (as vidas negras importam) qualificou Spencer como “um monte de lixo” e, embora reconheça que a lei “protege seu direito à liberdade de expressão”, disse que gostaria “não o deixassem falar em nenhum lugar do país”. Brown, afro-americana, exibia grandes brincos com a forma da África.

Dentro do teatro, dois amigos da Flórida, os estudantes Nick e Jeremiah, ambos brancos de 19 anos, explicavam, sem informar o nome completo, por que se interessavam por Spencer: “Ele entende a falta de afeto em relação aos brancos”, disse Nick. “Não nos sentimos em casa em nosso próprio país.” Jeremiah se disse frustrado “por termos perdido a cultura branca”.

 – E o que é a cultura branca?

Meditou alguns segundos. Respondeu:

– Bem, não sei o que é a cultura branca, é justamente esse o nosso problema!

Deixou claro que considerava Spencer “um racista” e que não se sente “confortável” com esse aspecto, central, de seu discurso. Nick concordou com o colega: “A destruição da cultura branca não é culpa dos negros nem dos latinos; é nossa culpa.” Entre os presentes havia de tudo, e a maioria contrários a Spencer: brancos, latinos, negros, asiáticos e até mesmo um judeu ortodoxo – outra comunidade rechaçada pelo filonazista Spencer.

“A única coisa que ele deseja é voltar aos tempos do racismo. Ter reservados para si os primeiros assentos do ônibus”, disse a afro-americana Raynelle Chapman.

Na quinta, Richard B. Spencer só foi um provocador frustrado em cima de um palco. Um exemplo teatral da posição marginal, embora perigosa, da supremacia branca hoje nos EUA.

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