Quem foi o fundador da Chassidut? 

O que havia nele e em seus ensinamentos que atraía – e continua a atrair – tanto os grandes eruditos de Torá quanto as pessoas menos instruídas do nosso povo? 

Um dos maiores lideres espirituais da história: O Rabi Yisrael Ben Eliezer

O Nascimento do Chassidismo

A 18 de Elul de 5458 (1698), nasceu o fundador do Chassidismo, Rabi Israel Báal Shem Tov, conhecido como “Besht”, na pequena cidade de Akop nos Cárpatos na Polônia.

Seu nascimento ocorreu exatamente cinqüenta anos após os pogroms Chmielnicki que tinham dizimado as comunidades judaicas na Ucrânia, Podolia, Volhinia e Polônia. Comunidades inteiras foram varridas e os judeus remanescentes mergulharam no desespero. Os efeitos desse grande desastre ainda se faziam sentir quando o Báal Shem Tov nasceu, e uma grande parte de sua vida foi dedicada a aliviar esta sensação de desespero.

Segundo a tradição, a missão principal na qual o Báal Shem Tov e seus companheiros – os tsadikim secretos – se empenha¬vam era encorajar o povo judeu e fortalecer seus corações. Os anos 5408-09 (1648) as¬sistiram a terríveis decretos contra os judeus. Dezenas de milhares pereceram; seu dinheiro e propriedades se perderam.

Depois destas tragédias, a população judaica começou a se concentrar nas grandes cidades e vilas, pois tinham medo de morar em pequenas aldeias. A maioria destes judeus estava desempregada e sua pobreza era acompanhada por uma profunda depressão do espírito devido a seu amargo exílio.

Os conselhos regionais judaicos despachavam pregadores iti¬ne¬ran¬tes que viajavam de cidade em cidade, de vila em vila, reprimindo os judeus com seu estilo de .pregação. Recitavam palavras de mussar temperadas com parábolas. Em sua maioria, causavam medo aos ouvintes, dizendo que D’us os punia por suas más ações. Suas palavras deprimiam ainda mais o espírito dos judeus.

No entanto, seria errado supor que o Chassidismo foi projetado somente como uma espécie de remédio espiritual, necessário quando alguém está doente, mas sem valor para a pessoa sadia. Um ensinamento importante do Báal Shem Tov foi que o Chassidismo era vital para o bem-estar espiritual de todo judeu.

Isso é importante para a compreensão da vida e ensinamentos do Báal Shem Tov, porque diz-se com freqüência que o Chassidismo a princípio visava a atingir as massas oprimidas e ignorantes. Embora o Besht e seus seguidores empregassem grande parte de sua energia para ajudar os judeus pobres e analfabetos, esta não era a característica principal do Chassidismo, pois o movimento também levou uma nova visão e profundidade ao mundo de Torá e mitsvot praticadas pelos eruditos.

Os ensinamentos nos quais o Chassidismo se baseia eram conhecidos anteriormente por uns poucos e seletos, mas chegara a hora de serem transmitidos aos judeus como um todo. A missão do Báal Shem Tov foi começar esta obra e estabelecer as raízes do Chassidismo, a partir das quais ele cresceria e se desenvolveria para se tornar parte intrínseca da vida judaica.

O Chassidismo não foi concebido como uma simples adição de lixo a esta vida, mas como um apoio necessário sem o qual o caráter essencial e a base da existência judaica não poderiam mais sobreviver.

Aos cinco anos o Báal Shem Tov ficou órfão. Seu pai, um homem piedoso e devoto, deixou-lhe este legado: “Meu filho, não tenha medo de ninguém exceto de D’us. Ame cada judeu com todo seu coração e sua alma.”

O pequeno órfão se tornou o guardião da comunidade e recebeu a educação costumeira dos meninos judeus daquela época. Gostava de passar seu tempo livre nas belas cercanias naturais de sua aldeia, onde sua alma sensível podia apreciar a majestade da Criação.

Os Místicos Ocultos

Aos 14 anos o Báal Shem Tov juntou-se a um grupo de Nistarim – místicos ocultos, seguidores de Rabi Adam Báal Shem de Ropshitz. Sua missão era vagarem de aldeia em aldeia, falando com rabinos, eruditos, trabalhadores pobres e ricos homens de negócios, encorajando-os e dando-lhes esperança onde antes havia só pessimismo.

Quatro anos depois, por sugestão do Besht, os Nistarim assumiram responsabilidade pela educação religiosa daquelas comunidades. Organizaram escolas apropriadas e forneceram professores religiosos e qualificados para elas, prestando uma atenção especial às necessidades dos pobres.

O Báal Shem Tov e seus companheiros partiram em sua missão – tranqüilizar os judeus, animar seus espíritos deprimidos e eliminar temores e ansiedades. Persuadiram os judeus a viver em pequenas aldeias e colônias agrícolas e se dedicar ao trabalho manual. Realizaram estas tarefas de maneira esplendidamente organizada (de acordo com os padrões da época). Se propuseram a curar os corpos do povo judeu e só depois poderiam curar seus espíritos e almas.

Depois da morte de Rabi Adam Báal Shem, o Báal Shem Tov foi eleito para atuar como líder dos Nistarim. Após sua eleição, o Besht organizou a fundação de escolas religiosas para estudos básicos (Chedarim) e avançados de Talmud (yeshivot) para os meninos maiores das comunidades judaicas.

Com o aparato educacional religioso assim firmemente estabelecido, o caminho estava preparado para servir a D’us e cumprir o mandamento de amar o próximo judeu (Ahavat Yisrael). Como segundo objetivo, os Nistarim concentraram sua atenção em tirar as massas da ignorância e elevá-las às alturas da Torá.

Durante este período em sua vida o Besht herdou diversos manuscritos que tinham pertencido a Rabi Adam Báal Shem. Estes manuscritos revelavam muitos segredos cabalistas e instruções que ele estudou avidamente.

Sabemos que em 5500 (1740) o Báal Shem Tov estava cercado por discípulos e sábios poderosos que travavam batalhas sobre a Torá. Além de seus discípulos e colegas, havia sábios do mundo todo que eram, abertamente, seus discípulos. Também trabalhavam de maneira altamente organizada e enérgica, cada um em sua tarefa indicada, no local designado pelo Báal Shem Tov. Naqueles dias, uma viagem de Medjibur a Shklov ou Vilna demorava semanas. Não obstante, havia comunicação constante, por meio de viajantes que iam a vinha. E o mais surpreendente, nenhuma pessoa fora deste ciclo sabia disto.

Em quinze anos, e importante organização do Báal Shem Tov, seu programa Divino de ahavat Yisrael e sua messirut nêfesh, dedicada à campanha de seus santos discípulos, deu frutos. Os ensinamentos do Báal Shem Tov se espalharam no mundo.

Durante algum tempo, o Besht permaneceu em Brody, onde se casou com a irmã de um erudito famoso, Rabi Abraham Gershon Kutover. Um filho, Rabi Zvi, e uma filha, Adel, nasceram para o casal.

Nos dez anos a partir de 5484 (1724), o Besht levou uma vida reclusa, dedicando-se ao estudo intensivo de Torá. Está registrado que durante este período o Báal Shem Tov recebeu instruções de Achiya de Shilo, o antigo profeta da época do Rei David, que aparecia regularmente para o Besht e lhe ensinava os segredos da Torá.

A Fundação do Chassidismo

Em 5494 (1734), aos trinta e seis anos, o Besht mudou-se para a cidade de Mezibush. Ali ele se estabeleceu e começou a ensinar publicamente as doutrinas da Chassidut.

Deve-se lembrar que, naquela época, somente a erudição de Torá era considerada o caminho do Judaísmo, e os analfabetos ou com pouca instrução eram considerados como judeus “de segunda classe”.

O Báal Shem Tov ensinou que o Judaísmo e a Torá são propriedade de todos os judeus; que todo judeu, independentemente da origem, educação ou posses, é perfeitamente capaz de servir a D’us; e que Ahavat Yisrael deve abranger a disposição de se sacrificar em prol de outro judeu.

Ele insistia que a devoção é vital para a vida plena do judeu; que o potencial religioso da prece é incalculável. A prece, no entanto, não é pedir a D’us que conceda um pedido, embora este seja um dos objetivos da prece, mas aproximar-se – o sentimento de união com D’us; o estado da alma em que o homem abre mão da consciência de sua existência separada e se une ao eterno ser de D’us. Este estado produz um tipo de júbilo indescritível – simchá – que é um ingrediente necessário à verdadeira adoração a D’us. A alegria no cumprimento de um mandamento e calor e afeição no trato com os outros é a característica primordial do Chassidismo.

Muitas pessoas foram a Mezibush para se tornar ardentes seguidores do Besht. Dentre os milhares de discípulos estavam alguns dos mais estimados e eruditos rabinos e eruditos talmúdicos da época. Um dos mais notáveis, Rabi DovBer de Mezeritch, tornou-se sucessor do Besht e professor do celebrado Rabi Shneur Zalman de Liadi.

Estes eruditos e rabinos famosos ajudaram a divulgar os ensinamentos do Besht em suas comunidades, portanto em pouco tempo o novo Movimento Chassídico espalhou-se em toda a Polônia e nas províncias vizinhas.

Oposição

Alguns rabinos que não estavam familiarizados com os ensinamentos do Báal Shem Tov suspeitaram que ali havia um outro falso movimento “messiânico”1, e começaram a levantar oposição. Estas suspeitas não poderiam ter sido mais infundadas, pois o Báal Shem Tov e seus seguidores estavam, na verdade, entre os antagonistas mais ativos de tais movimentos.

A primeira oposição declarada contra o Besht e seu movimento começou em 5515 (1755), cerca de vinte anos depois que o Besht começara sua obra pública. Porém a oposição não pôde deter a corrente do Movimento Chassídico, que estava ganhando cada vez mais adeptos, tanto entre as massas quanto entre os eruditos e rabinos.

Assim, nos anos finais de sua vida, o Besht testemunhou o início de um conflito que mais tarde, dividiu o povo judeu em dois campos, os Chassidim e os Mitnagdim.

Porém ele também pôde visualizar a vitória de seus ensinamentos e sua aceitação pelo povo judeu em toda parte. Quando isso ocorrer, ensinava o Báal Shem Tov, o terreno estaria preparado para a vinda de Mashiach.

Legado

Rabi Israel Báal Shem Tov faleceu no primeiro dia de Shavuot (6 de Sivan), aos sessenta e dois anos. Não deixou obras escritas, mas seus ensinamentos e doutrinas foram registrados por seus discípulos e publicados em suas obras e coletâneas especiais.

Como sistema de pensamento e como filosofia da vida judaica, os ensinamentos do Báal Shem Tov estão contidos na extensa literatura Chabad, especialmente nas obras de Rabi Shneur Zalman, o fundador do Movimento Chabad-Lubavitch.

A influência de Rabi Israel Báal Shem Tov continuou com grande impulso mesmo depois de sua morte.

Em pouco tempo, a brecha entre os Chassidim e os Misnagdim começou a fechar, e os Chassidim não eram mais suspeitos de idéias hereges. Em vez disso, eram reconhecidos como os piedosos representantes do Judaísmo tradicional. Em 50 anos, metade da população judaica da Europa Oriental pertencia ao Movimento Chassídico.

Atualmente, mais de 200 anos após a morte do Báal Shem Tov, o Movimento Chassídico, em todas as suas coloridas ramificações, constitui uma das maiores, se não a maior, vigorosa, dinâmica e criativa força do Judaísmo Ortodoxo.

NOTAS
1. Entre 1660 e 1676, um certo Sabbatai Zvi alegou ser o Messias, e reuniu um grupo de seguidores. Sabbati Zvi converteu-se ao Islã em 1666, mas nem este fato nem sua morte em 1676 abalaram a devoção de seus seguidores. Na segunda metade do século dezoito, Jacob Frank encontrou na Europa Oriental suficientes seguidores do pseudo-Messias do século anterior para seguir em frente alegando ser sua reencarnação, e fundou uma seita que seria um Cristianismo híbrido depois da disputa de Kameniec (20 de junho, 1757).

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