Hebréia, a musa sefaradi de Castro Alves

Castro Alves (1847 – 1871)
Castro Alves, um dos mais talentosos poetas brasileiros, nasceu na Bahia em 1847 e se engajou desde muito cedo na campanha pelo fim da escravidão negra em nosso país.

Aos 19 anos, em Salvador, apaixonou-se perdidamente por uma jovem de rara beleza que residia em uma casa localizada bem em frente à sua, na Rua do Sodré. 

Ao que tudo indica, teria sido um amor platônico e o poeta saberia apenas que sua musa inspiradora era filha de Isaac Amzalak, membro de tradicional família judaica de origem marroquina.

Em homenagem à sua amada o jovem Castro Alves compôs um de seus mais belos poemas, a que denominou Hebréia.

HEBRÉIA

Pombad’esperança sobre um mar d’escolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrelavésper do pastor errante!
Ramo de murta a recendercheirosa! …
Tu és, ófilha de Israel, formosa…
Tu és, ó linda, sedutoraHebréia…
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!
Por quedescoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?
Sonhas acaso, quando o sol declina,
A terra santa do Oriente imenso?
E as caravanas no deserto extenso?
E os pegureiros da palmeira à sombra?! …
Sim, forabelonarelvosa alfombra,
Junto da fonte, onde Raquel gemera,
Viver contigo qualJacó vivera
Guiando escravoteu feliz rebanho…
Depoisnaságuas de cheirosobanho
Como Susana a estremecer de frio
Fitar-te, ó flor do babilônio rio,
Fitar-te a medo no salgueiro oculto…
Vempois! … Contigo no eserto inculto,
Fugindoàs iras de Saulembora,
Davieufora, se Micol tu foras,
Vibrando na harpa do profeta o canto…
Nãovês? … Do seio me goteja o pranto
Qual da torrente do Cédron deserto! …
Como lutara o patriarca incerto
Lutei, meuanjo, mas caí vencido.
Eu sou o lótus para o chão pendido.
Vem ser o orvalho oriental, brilhante! …
Ai! guia o passoaoviajor perdido,
Estrelavésper do pastor errante! …

A MORTE PRESSENTIDA

Pouco tempo depois de ter composto essa belíssima poesia Castro Alves viria a falecer, vítima de tuberculose pulmonar, em uma época que não havia tratamento eficaz para combater a doença.

Apesar de ter morrido bastante jovem, com apenas 24 anos, conseguiu produzir uma das mais expressivas obras poéticas em língua portuguesa, onde se destacam Navio Negreiro (que serviu de bandeira para a causa abolicionista), Hebréia (uma ode ao amor) e Mocidade e Morte (em que pressentia a chegada do fim nos pungentes versos: Eu sei que vou morrer. Dentro em meu peito um mal terrível me devora a vida…)

QUEM TERIA SIDO HEBRÉIA?

O casal de pesquisadores Egon e Frieda Wolf se apaixonou pela história e procurou identificar a musa do grande poeta por intermédio da trajetória dos Amzalak rumo ao sul do país. Descobriu que nacidade de TrêsCorações, Minas Gerais, existiam descendentes dessafamília e pediuao Geofísico LuizBenyosef, que possuíaparentesresidindo no TriânguloMineiro, para ajudá-los a elucidar essa importante questão.

BENYOSEF

Para Luiz Benyosef, pesquisador do Ministério de Ciências e Tecnologia que havia desenvolvido um sensor eletrônico para pesquisar reservas subterrâneas de minerais, acostumado, portanto, a procurar agulha em palheiro, a tarefa não parecia assim tão difícil. Entrouemcontatocom o ramo dos Amzalak que residiaemTrêsCorações e que guardava, commuitocarinho, antigas fotos de família. Contemplouuma das imagens, amarelecida pelo tempo e foi logo perguntando, assimmeio de supetão: – Qualdessaspessoas era a musa de Castro Alves?

Todos apontaram para o rosto de uma bela jovem e, em uníssono, responderam: – Essa era a paixão secreta do poeta! Estavam se referindo a uma das três filhas de Isaac Amzalak, de nome Mari Roberta Amzalak, a musa de Castro Alves.


Nelson Menda

Fonte: Revista El Djudió, editada pelo Centro Hebraico Riograndense
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