Por Sara Esther Crispe
Jamais esquecerei sobre como me senti quando minha professora de estudos de gêneros alegou que não há absolutamente nenhuma diferença entre homens e mulheres. Olhei em volta, chocada com a declaração, e me perguntando se mais alguém sentia o mesmo.
Durante a maior parte do semestre, tínhamos na cabeça que todas as distinções entre aqueles de raças diferentes, locais geográficos ou habitats realmente não tinham importância, e que era meramente a sociedade que tentava dizer que havia diferenças reais.
Talvez ela estivesse certa, pensávamos todos. Talvez tenhamos apenas aceitado as definições da sociedade e o desejo de separar. Talvez fosse racista alegar, que, falando de forma geral, homens negros eram mais altos que os homens asiáticos. É sexista sentir que os homens eram fisicamente mais fortes que as mulheres.
Mas então, um dia, quando eu não podia mais resistir, tive de fazer uma pergunta. Se éramos realmente o mesmo – ou seja, praticamente o exato mesmo – então por que mulheres nasceram com um útero e a capacidade de carregar e ter um filho, e os homens não? E se as diferenças físicas eram tão claramente inegáveis e aparentes, então como poderia ser tão estranho assumir que, talvez, essas diferenças físicas fossem emocionais, psicológicas ou espirituais também?
Não tenho certeza se a minha pergunta fez algo além de enfurecer meu professor, que não podia acreditar que eu ainda era tão ignorante a ponto de atribuir qualquer coisa mais às diferenças físicas do que à fisicalidade. Mas para mim, aquela pergunta era um ponto de virada na minha vida. Se eu tivesse habilidades e capacidades que o sexo masculino não tivesse, então eu consideraria imperativo descobrir o poder daquelas partes para mim, por que eu fora dotada com elas e o que significam. Embora a ideia de meu professor sobre uma mulher poderosa fosse uma que mal pudesse ser distinguida de um homem, eu queria celebrar as diferenças inerentes nos sexos, em vez de diminuí-las. E não apenas eu queria desvendar os mistérios do que significa ser uma mulher porém, mais importante, o que significa ser uma mulher judia.
E então minha jornada começou…
O que significa ser uma mulher judia? O que significa ser mulher no Judaísmo? Comecei minha pesquisa com a primeira mulher na Torá. O nome é Chava em hebraico, traduzida como “Eva” em português. Chava é mencionada como “a mãe de toda a vida”. Aprendemos que ela foi criada – após a criação do primeiro homem, Adam – no sexto dia da criação, imediatamente precedendo o Shabat. E a mulher foi criada, somos ensinados, com o propósito de ser uma eizer kenegdo, o que pode ser traduzido em uma de duas maneiras – ou “uma ajudante para ele” ou “uma ajudante contra ele.”

Os comentaristas explicam que num relacionamento há algumas vezes em que alguém é mais útil quando apóia e fica ao lado do cônjuge, e há vezes em que a ajuda que é necessária requer ir contra os desejos e posições do cônjuge. A meta é saber quando cada ação é apropriada.
Poderia parecer, então, que uma mulher foi criada com o único propósito de ajudar um homem. Alguém poderia perguntar: “Ser uma mulher judia é definido somente em termos de seu relacionamento com outro?” E falando praticamente, como isso seria realizado? As respostas óbvias seriam: sendo casada e tendo filhos. Porém encontramos algo fascinante. Na halachá (Lei da Torá), uma mulher não é obrigada a fazer nada. Ela não tem nenhuma exigência legal. Mas o homem tem. Ele é exigido a casar e ter filhos. É claro que ele não pode fazer isto sem uma mulher como esposa e mãe de seus filhos, mas ela não é obrigada a fazê-lo. A única maneira que ele pode cumprir suas responsabilidades, então, é se uma mulher estiver disposta a ajudá-lo a cumprir esses papéis.
Segundo a Torá, e especificamente a filosofia chassídica e cabalística, os seres humanos foram criados em duas categorias, homem e mulher. Porém quando as características são definidas, eles mais comumente se referem aos traços masculino e feminino, em oposição a declarações sobre homens e mulheres. Por que isso é importante? Porque tanto homens quanto mulheres têm traços masculinos e femininos. Geralmente falando, um homem é predominantemente masculino, e uma mulher predominantemente feminina. Falando de forma geral. Sempre há exceções, e isso por que nem toda mulher irá desejar naturalmente aquilo que é considerado uma propriedade feminina, nem um homem uma propriedade masculina.
As diferenças entre o masculino e o feminino são grandes. São vastas. E essas diferenças afetam a maneira pela qual homens e mulheres pensam, sentem, falam e agem. As diferenças são psicológicas, emocionais, físicas, espirituais e intelectuais. E, embora possamos ser uma combinação de traços masculinos e femininos, ao final do dia somos ou um homem ou uma mulher. E nossas diferenças não são para provocar distância entre nós, mas para nos aproximar, equilibrar a ambos e juntá-los quando se tornam pontos de celebração, não de separação.

Diferenças: O Intelecto e as emoções

A maior diferença entre homem e mulher – ou, mais adequadamente, entre o masculino e o feminino – pode ser vista nas duas primeiras qualidades intelectuais de um ser humano. A filosofia chassídica ensina que há três propriedades intelectuais juntamente com sete propriedades emocionais. A primeira das propriedades é chochmá, traduzida como “sabedoria”, que é um princípio masculino.
Chochmá é comparada a um facho de visão interior. Fisicamente falando, é comparada à semente de um homem. É o início de toda a vida, a fundação. Sem ela, nada jamais conseguirá vir à existência. E apesar disso, como semente, é invisível a olho nu. Não tem forma, nem significado. Ainda não. Tem potencial, um incrível potencial, mas não pode se desenvolver, crescer ou se formar por si mesma.
A propriedade seguinte, biná, é a propriedade feminina. Biná, traduzida como “entendimento”, é o desejo de apegar-se à sabedoria e dar-lhe significado. Biná é o processo de formação, o vínculo, o desenvolvimento. Num exemplo físico, biná é a gravidez. Literalmente abriga a semente e então, como a semente está dentro dela, a faz crescer, desenvolver e formar-se, até que esteja pronta para nascer e existir por si mesma.
A palavra para lar em hebraico, bayit, é um yud entre as letras que formam a palavra bat, filha. O conceito é que o yud, a menor de todas as letras hebraicas, representa a semente (somos até ensinados que parece uma gota de semente em seu formato) e mesmo assim é abrigada dentro da bat, a filha. É por isso que há uma declaração adicional que diz “Beito zu ishto”, o lar de um homem é sua mulher. Não é que o lar dele é sua mulher ou que sua mulher represente o lar, mas seu lar literal é abrigado dentro de sua mulher, num nível espiritual e emocional. Uma mulher não precisa estar dentro do lar. Uma mulher é o lar.
É a qualidade da biná que deseja receber o potencial da semente e cultivá-la em algo tangível e significativo. Embora não seja obrigada a fazê-lo, deseja fazê-lo. É uma situação onde cada um depende do outro para criar uma realidade. A semente não pode se tornar algo por si mesma. Da mesma forma, sem a semente, a biná não pode criar nada, pois não tem os potenciais com os quais trabalhar.
Espiritualmente, uma mulher também tem a propriedade masculina de chochmá, assim como um homem tem a propriedade feminina da biná. Na verdade, ou no âmbito mais físico, uma mulher não pode produzir semente, e um homem não pode abrigar nem dar à luz um bebê. Mas, embora o físico seja de muitas maneiras o mais baixo e mais exterior dos níveis, mesmo assim é o mundo no qual vivemos, e o mais tangível para nós. A criação física de um bebê é a mais profunda representação do amor e do vínculo entre um homem e uma mulher. Este filho é a culminação da chochmá do homem e da biná da mulher. É o melhor de ambos os mundos, e a representação do futuro, a realidade do potencial de sua mãe e de seu pai.
Fisicamente, os órgãos reprodutores de uma mulher são internos, ao passo que de um homem são externos. Esta habilidade de interiorizar e desenvolver dentro é, mais uma vez, entendida como algo muito mais que apenas físico. Uma das indicações mais claras disso é a diferença entre as obrigações haláchicas (legais) de homens e mulheres.
Na maior parte, um homem precisa cumprir todas as mitsvot ligadas ao tempo, e seus mandamentos também são grandemente externos e físicos. Por exemplo, um homem é exigido a colocar tsitsit, a veste com franjas que representa os 613 mandamentos através de suas franjas e seus nós. Além disso, embora tenha começado como um costume, um homem usa uma kipá, cobertura da cabeça, para lembrá-lo sempre que D'us está cima. E outro exemplo básico é que um homem reza três vezes ao dia num quorum de dez homens. Todos esses são mandamentos físicos e externos. Na essência, todos esses significam que há outros que podem ser testemunhas de se um homem está ou não cumprindo suas obrigações.
Os mandamentos de uma mulher, no entanto, são privados e internos. Na maioria dos casos, são feitos em casa; em alguns casos, apenas ela sabe se está ou não fazendo-os. Um exemplo disso é manter uma cozinha casher na casa. Ela possui a confiança de seu marido, família e por todos aqueles que comem em sua casa. Mesmo se alguém fosse examinar seus produtos para conferir se todos têm um símbolo casher, ninguém além dela sabe como ela cozinha, e se está mantendo adequadamente os padrões da cashrut.Em última análise, deve-se confiar na sua palavra.
Talvez o exemplo mais forte disso seja a respeito das leis da pureza familiar, que envolve as vezes em que um casal não pode ter qualquer intimidade física. Essa separação começa a partir do momento em que a mulher vê o fluxo de sangue uterino e informa verbalmente o marido sobre isso. É uma situação na qual nem o marido está consciente dessa realidade, e deve depender totalmente da palavra dela. Essas leis, que são consideradas o alicerce do casamento, dos filhos e do lar, são totalmente confiadas a ela. Sua palavra cria uma nova realidade, e somente ela e seu Criador sabem se aquilo que ela está dizendo é verdade.
Portanto, ao contrário do masculino, que é o lado do nosso ser que é externo, que pode ser visto por outros e não é privado, o feminino é o total oposto – completamente interno, não envolvendo mais ninguém e confiado somente ao indivíduo.
Como as propriedades masculinas são externas e vistas pelos outros, o homem está numa necessidade maior de retificação. Ao contrário da mulher, ele não tem aquele mesmo tempo e oportunidade para reflexão, interiorização e contemplação. Este é o processo feminino de biná o bein, “entre”, daquilo que está na mente e que emerge através da ação. Esse é o estágio de gravidez, o intervalo entre a concepção e o nascimento. E esta é a hora para desenvolvimento e retificação.
Por este motivo, somos ensinados que assim como a mulher precisa do homem para a concepção, também o homem precisa da mulher para a gravidez, o desenvolvimento. Esta não é meramente uma realidade física, mas também espiritual.
É por isso que é declarado que um modelo de uma mulher é aquela que osah retzon ba’alah uma frase hebraica que possui diferentes camadas de tradução. A primeira é: “ela faz a vontade do marido”. Mas em hebraico o verbo ossá também pode ser traduzido como “fazer” ou “realizar”. Assim, a frase também pode ser entendida que a mulher é quem “faz (i.e., determina) a vontade do marido.” Mas nenhuma dessas possibilidades são muito saudáveis num relacionamento. Se um parceiro é exigido a fazer a vontade do outro, sem nenhuma escolha envolvida, então isso não é um relacionamento; é uma ditadura. Da mesma forma, se um faz a vontade do outro, implica que não há senso de comunicação ou equilíbrio entre os dois, pois um está decidindo pelo outro. A principal diferença entre esses dois é meramente que é um comandando o outro – seja o homem para a mulher ou a mulher para o homem – ambos são problemáticos.
Isso nos leva de volta ao círculo total do início da nossa discussão, o significado de eizer kenegdo. Uma mulher é uma ajudante para ele, ou o oposto a ele? Quando traduzimos ossá como “fazer” ou “realizar”, ela é oposta a ele.
Os ensinamentos chassídicos explicam um lindo significado para esta frase. O comentarista talmúdico Rashi mostra que o termo ossá quando usado na Torá, tem outro significado, e este é “retificar”. A retificação é na verdade o equilíbrio, o ponto no meio, a biná daquilo que significa “fazer” e o que significa “realizar”. O verdadeiro significado desta expressão, então, é que quando uma mulher está usando o potencial da maneira correta, ela é capaz de se conectar com seu marido e ajudar a retificá-lo. Através da sua habilidade para desenvolver, ela pode pegar as ideias dele, seus talentos, seu potencial, e interiorizá-los, ficando impregnada com eles, até que estejam prontos para nascer de maneira pública, externa. E é assim que ela é uma eizer kenegdo adequada, uma companheira, colaboradora dele.
E isso nos leva de volta a um dos primeiros pontos abordados: a mulher é definida em termos de seu relacionamento com um homem? E assim, a resposta é tanto sim como não. Se cada ser humano é uma composição tanto de traços masculinos como femininos, então dentro cada um e de todos de nós deve haver o entendimento de como essas duas qualidades tão extremamente diferentes podem coexistir e se complementar.Se nosso lado masculino tem uma obrigação de “casar” e”ter filhos”, embora nosso lado feminino não tenha, reconhecemos que os dois devem trabalhar juntos.
Isso nos ensina que a verdadeira forma de nos definir, e chegar a entender e revelar nosso potencial, é através do foco no outro.
Às vezes isso é um “outro” dentro de nós mesmos; às vezes é o “outro” fora de nós. Pois toda mulher, solteira ou casada, com ou sem filhos, é capaz de dar fruto, é capaz de ser eizer kenegdo. Como isso é realizado? Quando usamos nossos talentos dados por D'us para criar, ser criativos, através de quaisquer meios que pudermos – nossa arte, escrita, poesia, nossa canção, nossa dança, nossas palavras – isso é cumprir o mandamento de “seja frutífero e multiplicai”; isso é criar e trazer mais luz a este mundo.
Quando estamos num casamento, quando podemos nos conectar fisicamente com outro, esta é nossa chance de cumprir esta lei, a primeira lei dada na Torá, de uma forma física. Mas não é cumprida apenas quando temos filhos, pois infelizmente, nem toda mulher é fisicamente capaz de fazer isso. Mas no Zohar somos ensinados que sempre que marido e mulher são amorosamente íntimos, almas são criadas. Às vezes aquelas almas vêm num corpo físico, outras vezes permanecem espirituais, mas são criadas.
E toda vez que criamos, um processo de dar e receber deve ocorrer. Uma parte de nós deve ser capaz de abrir mão, para liberar, para dar ao outro, e uma parte deve ser capaz de abrir-se, para receber, aceitar e nutrir aquilo que foi dado.
Quando nossa preocupação não sobre aquilo que somos obrigados a fazer, mas como podemos ajudar o outro a cumprir suas obrigações, é quando brilhamos e revelamos nosso verdadeiro poder. Mas devemos começar olhando para dentro, entendendo e ajudando a nós mesmos, reconhecendo nossas forças e nossas fraquezas, revelando dentro e para aqueles ao nosso redor.
E quando reconhecemos que somos capazes de dar e receber, e que ambos são papéis ativos, então podemos nos alegrar nas qualidades e atributos que são unicamente nossos como mulheres, e começar a celebrar quem somos, conectando e construindo, em vez de competindo, com quem não somos.

Resultado de imagem para sara esther crispeSara Esther Crispe, escritora, palestrante inspirada e mãe de quatro filhos, é editora de TheJewishWoman.org
É também editora da seção Vida e Sociedade de Chabad.org. Para contratar Sara Esther para uma palestra, clique aqui.
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