Leniências equivocada

"Eduardo e Marta estavam felizes com a visita de Ricardo, um amigo de infância que havia se mudado havia muito tempo para outra cidade. Ricardo, recém-casado, apresentaria para eles sua esposa. A alegria do reencontro foi enorme. Sentaram-se na sala para conversar e colocar os assuntos em dia, e deram muitas risadas ao relembrar a época de escola. Alguns minutos depois, Marta pediu licença para ir ao quarto do bebê e checar se estava tudo bem. Após alguns instantes ela chamou Eduardo, pedindo para que ele a ajudasse com o bebê. Eduardo pediu licença aos convidados e subiu para ajudá-la. Porém, a verdade é que Marta não precisava de nenhuma ajuda. Assim que Eduardo entrou no quarto do bebê, Marta fechou a porta e começou a falar:

- Querido, que estúpido foi o Ricardo de escolher tão mal sua esposa. Que mulher mais tonta, não parece ser muito inteligente. Na época de escola ele só namorava meninas bonitas, como ele foi escolher uma esposa assim tão feia? E você viu as roupas dela, que péssima combinação? Meu D'us, e que maquiagem horrorosa! Não consigo entender onde o Ricardo estava com a cabeça para escolher alguém assim!

A conversa ainda durou mais alguns minutos, com Marta "descarregando" uma série de defeitos que havia encontrado na esposa de Ricardo. Quando eles desceram, se depararam com um incômodo silêncio. Ninguém falava nada, Ricardo olhava para baixo, nem levantava os olhos. O silêncio era tanto que Eduardo e Marta puderam escutar o ruído de estática emitido pelo aparelho que monitorava o quarto do bebê, e que estava ligado sobre a mesa durante todo aquele tempo..."

Da mesma maneira, tudo o que falamos mal em relação aos outros é escutado por D'us. Como um pai que ama seus filhos, D'us é extremamente rigoroso quando uma pessoa denigre seu companheiro, causando sofrimento, tristeza e dor. Se queremos que D'us esteja sempre perto de nós, devemos cuidar da nossa fala.

"Eduardo e Marta estavam felizes com a visita de Ricardo, um amigo de infância que havia se mudado havia muito tempo para outra cidade. Ricardo, recém-casado, apresentaria para eles sua esposa. A alegria do reencontro foi enorme. Sentaram-se na sala para conversar e colocar os assuntos em dia, e deram muitas risadas ao relembrar a época de escola. Alguns minutos depois, Marta pediu licença para ir ao quarto do bebê e checar se estava tudo bem. Após alguns instantes ela chamou Eduardo, pedindo para que ele a ajudasse com o bebê. Eduardo pediu licença aos convidados e subiu para ajudá-la. Porém, a verdade é que Marta não precisava de nenhuma ajuda. Assim que Eduardo entrou no quarto do bebê, Marta fechou a porta e começou a falar:

- Querido, que estúpido foi o Ricardo de escolher tão mal sua esposa. Que mulher mais tonta, não parece ser muito inteligente. Na época de escola ele só namorava meninas bonitas, como ele foi escolher uma esposa assim tão feia? E você viu as roupas dela, que péssima combinação? Meu D'us, e que maquiagem horrorosa! Não consigo entender onde o Ricardo estava com a cabeça para escolher alguém assim!

A conversa ainda durou mais alguns minutos, com Marta "descarregando" uma série de defeitos que havia encontrado na esposa de Ricardo. Quando eles desceram, se depararam com um incômodo silêncio. Ninguém falava nada, Ricardo olhava para baixo, nem levantava os olhos. O silêncio era tanto que Eduardo e Marta puderam escutar o ruído de estática emitido pelo aparelho que monitorava o quarto do bebê, e que estava ligado sobre a mesa durante todo aquele tempo..."

Da mesma maneira, tudo o que falamos mal em relação aos outros é escutado por D'us. Como um pai que ama seus filhos, D'us é extremamente rigoroso quando uma pessoa denigre seu companheiro, causando sofrimento, tristeza e dor. Se queremos que D'us esteja sempre perto de nós, devemos cuidar da nossa fala.Na próxima segunda feira de noite (31 de julho) começa Tishá Be Av (dia 9 do mês de Av), o dia mais triste do ano, no qual relembramos a destruição dos nossos dois Templos Sagrados e outras tragédias que ocorreram durante a história do povo judeu justamente neste dia. Infelizmente estamos tanto tempo sem o nosso Templo que já nem sentimos sua falta, pois não conseguimos entender a gigantesca perda que sua destruição causou ao mundo.

Nossos sábios ensinam que o Primeiro Templo foi destruído como consequência do povo judeu ter cometido as três piores transgressões: Idolatria, Relações Ilícitas e Assassinato. 70 anos depois da destruição e do exílio do povo judeu para a babilônia o Templo foi reconstruído, nos dias de Mordechai e da rainha Esther. O Segundo Templo foi destruído cerca de 400 anos depois, por causa do ódio gratuito e do Lashon Hará (maledicência, causar danos físicos, morais ou psicológicos a outra pessoa através do mau uso da fala) e, até hoje, mais de 2000 anos depois, ainda não foi reconstruído. Se o Primeiro Templo foi reconstruído tão rápido, isto significa que a causa da destruição do Segundo Templo foi ainda mais grave do que a causa da destruição do Primeiro Templo. Mas como podemos entender isso? Sabemos que é preferível entregar a própria vida a transgredir Idolatria, Relações Ilícitas e Assassinato. Então em que sentido o ódio gratuito e o Lashon Hará podem ser mais graves do que estas três terríveis transgressões?

A resposta está na Parashá desta semana, Devarim (literalmente "Palavras"), que inicia uma extensa recapitulação feita por Moshé Rabeinu em seu discurso de despedida antes de sua morte, para relembrar aos judeus os principais eventos que ocorreram nos 40 anos em que eles permaneceram no deserto. Moshé aproveitou para trazer importantes ensinamentos ao povo, para que os judeus pudessem aprender com os acertos e, principalmente, com os erros cometidos. Por exemplo, Moshé ensinou o povo sobre a importância de sermos honestos nos julgamentos, como está escrito: "Não tenha medo de nenhum homem, pois o julgamento pertence a D'us" (Devarim 1:17). Moshé estava instruindo os juízes a não desviarem um julgamento por se sentirem intimidados por pessoas poderosas. Mas o que significam as palavras finais do versículo, "pois o julgamento pertence a D'us"?

Nas nossas Mitzvót do cotidiano há aquelas que são predominantemente "Bein Adam LaMakom" (entre a pessoa e D'us), como a nossa Tefilá, enquanto outras são predominantemente "Bein Adam LeHaveiró" (entre a pessoa e seu companheiro), como a proibição de roubar. O ser humano tem a tendência de ser mais rigoroso em relação ao seu relacionamento com D'us, mas acaba sendo leniente em relação ao seu relacionamento com o próximo. Por exemplo, quando alguém tem uma dúvida em relação à Kashrut de certo alimento, normalmente se aconselha com um rabino para saber se é permitido comer ao não. Porém, quando a dúvida é em relação à obrigatoriedade do pagamento do imposto de renda, normalmente a pessoa toma a decisão sozinha e, como tem interesses envolvidos, frequentemente tropeça nesta área. Muitas vezes a pessoa é leniente e acaba cometendo transgressões na área de "Bein Adam LeHaveiró" por pensar que é menos grave, por estar apenas transgredindo em relação ao seu companheiro e não com D'us. É por isso que o versículo termina com as palavras "pois o julgamento pertence a D'us", nos ensinando que toda transgressão "Bein Adam Lehaveiró" também envolve uma transgressão com D'us.

Esta diferença de rigorosidade entre as Mitzvót "Bein Adam LaMakom" e "Bein Adam Lehaveiró" é ressaltada em um interessante ensinamento do Talmud (Baba Batra 165a): "Diz o Rav Yehuda em nome de Rav: 'A maioria das pessoas tropeça na transgressão de roubo, poucas tropeçam na transgressão de relações ilícitas e todas tropeçam na transgressão de "Avac Lashon Hará" (literalmente "pó da maledicência", quando a pessoa não fala explicitamente algo ruim em relação ao seu companheiro, mas deixa a entender nas entrelinhas que há algo errado com ele). Nos chama a atenção a diferença entre relações ilícitas, que poucas pessoas cometem, e o roubo, que a maioria acaba tropeçando.

Quando o Talmud diz "a maioria tropeça em roubo", não quer dizer que a maioria das pessoas pratica roubos e furtos na rua, tirando carteiras recheadas de dinheiro das bolsas de velhinhas desatentas ou furtando objetos de lojas. O Talmud está se referindo a formas de roubo muitos mais sutis, nos quais as pessoas justificam para si mesmas que o que elas estão fazendo é permitido. Por exemplo, quando a pessoa pede algo emprestado e se esquece de devolver ou quando utiliza objetos de outra pessoa sem permissão. Obviamente que nestes dois casos a pessoa não tem a intenção de roubar propositalmente o objeto ou o uso dele. A pessoa sempre racionaliza suas atitudes e procura justificativas para suas transgressões, do tipo "certamente se o dono do objeto estivesse aqui ele me emprestaria". Porém, de acordo com a Torá, isto é roubo, uma negligência que deriva da falta de respeito pela propriedade alheia.

Estamos nos 9 dias do mês de Av, uma época de intenso luto pela destruição dos nossos Templos Sagrados. O ocultamento de D'us é uma das consequências da destruição do Templo. De acordo com os nossos sábios, um dos motivos deste ocultamento Divino estar sendo tão longo é justamente a falta de cuidado nos assuntos monetários. Na Parashá Ki Tetse, a Torá nos comanda sermos completamente honestos nos nossos pesos e medidas. Logo em seguida a Torá fala sobre a nossa luta eterna contra o povo de Amalek. Qual é a conexão entre estes dois assuntos tão diferentes?

O povo judeu representa no mundo a presença de D'us, a Providência Divina em tudo o que ocorre. Já Amalek representa no mundo o acaso, a ausência do Criador. De acordo com o Rav Naftali Tzvi Yehuda Berlin zt"l (Rússia, 1816 - Polônia, 1893), mais conhecido como Netziv, ser desonesto não é um problema apenas entre a pessoa e seu companheiro, também é um problema com D'us, pois arruína as fundações da Emuná (fé). Alguém que confia com toda a sua força que D'us providenciará seu sustento, certamente sabe que não precisa ir contra as leis da Torá para adquirir dinheiro. Portanto, a pessoa que se comporta de forma desonesta para conseguir seu sustento demonstra que não confia que D'us cuida dele com Supervisão Particular. Então D'us se comporta com esta pessoa "Midá Kenegued Midá" (medida por medida), como se Ele dissesse: "Já que você se comporta como se Eu não estivesse por perto, então Eu realmente não estarei por perto para protegê-lo". E sem a proteção Divina, o povo judeu se torna uma presa fácil para os seus inimigos.

Se esta leniência ocorre em relação ao roubo, mais ainda em relação à terrível transgressão do Lashon Hará, conforme afirma o Talmud: "todos tropeçam na transgressão de 'Avac Lashon Hará'". A linguagem "todos" obviamente se aplica apenas às pessoas que não estão constantemente cuidando de sua fala e estudando as leis de "Shmirat HaLashon". Porém, o Talmud está confirmando o quanto o Lashon Hará parece algo leve aos nossos olhos. Estamos acostumados a falar mal dos outros e um dos principais motivos é que sempre temos justificativas para o nosso ato. É comum escutarmos as pessoas dizendo "Isto não é Lashon Hará" ou "Sobre esta pessoa existe permissão de falar Lashon Hará". Porém, isto é apenas enganação do nosso Yetzer Hará, que nos faz procurar justificativas para cometermos uma das transgressões mais graves da Torá sem nenhum tipo de consciência pesada.

Com este entendimento podemos responder a pergunta sobre a destruição dos dois Templos Sagrados. O primeiro Templo foi destruído por causa de transgressões muito "externas", isto é, que são dificilmente justificáveis. A pessoa pode até cometer a terrível transgressão de relações ilícitas por causa de um desejo incontrolável, porém ela tem claridade que cometeu um ato abominável. Alguém pode matar seu companheiro em um momento de fúria e descontrole, porém carregará para o resto da vida um terrível peso na consciência. Normalmente as pessoas que fazem alguma das três piores transgressões se arrependem de seu ato abominável e consertam seu comportamento. É por isso que a destruição do Templo Sagrado durou apenas 70 anos.

Já o Segundo Templo foi destruído por causa do ódio gratuito e Lashon Hará, transgressões mais "internas", que não nos deixam de consciência pesada. Por isso, as pessoas não se arrependem de seu erro e o repetem milhares de vezes na vida. Apesar de querermos nos convencer de que falar Lashon Hará não é tão grave, nossos sábios ensinam que cada palavra de Lashon Hará é uma transgressão por si só. Alguém que não se cuida, portanto, pode cometer na vida milhares e milhares de transgressões. Além disso, nossos sábios afirmam que o Lashon Hará se assemelha a um assassinato, no qual três morrem: aquele que fala, aquele que escuta e sobre quem está sendo dito coisas negativas. Não parece ser algo que podemos ser lenientes na vida.

O primeiro passo para consertar os nossos erros é entender a gravidade deles. E a única maneira de entender melhor as leis é estudando os ensinamentos dos nossos sábios, tanto as Halachót (leis) quando o Mussar, o estudo que nos ensina a nos tornarmos pessoas melhores. Somente assim poderemos ter a esperança de que o próximo Tishá Be Av não será um dia de luto, e sim um dia de muita alegria pela reconstrução do nosso Templo Sagrado.


SHABAT SHALOM   


Rav Efraim Birbojm
Coisas Judaicas

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