D'us não exige aquilo que não podemos fazer, portanto quando Ele exige que melhoremos nosso comportamento e vençamos nossas fraquezas e anseios, Ele também nos possibilita fazê-lo
Correnteza Interior
*Por Lazer Gurkow
Ele era guloso por carne e bebia álcool em excesso. Desobedecia os pais o tempo todo, zombando de suas súplicas e de suas tentativas de discipliná-lo. Em vez disso, ele tentava dominar os pais. Exigia que eles pagassem pelos seus hábitos excessivos, e quando eles não o faziam, simplesmente ele roubava aquilo que precisava.
Apresentando-se perante o Beit Din, eles declararam que o filho era um glutão e bêbado que se recusava a obedecer aos pais. A Torá instruiu o Beit Din, Tribunal rabínico, a condenar o rapaz à morte.1
Embora essa lei esteja registrada na Torá, este incidente, segundo uma opinião expressa no Talmud, jamais ocorreu em toda a história judaica. É pura hipótese. Foi escrito na Torá – explica o Talmud – somente que devemos “estudar e receber recompensa.”2 Porém sabemos que toda palavra da Torá tem relevância prática para nós e deve ser instrutiva no nosso serviço diário a D'us. Este incidente, também, apesar de sua natureza puramente hipotética, deve também conter uma lição para nós. Caso contrário não teria sido incluído na Torá.

Um Povo Cabeçudo

Segundo os místicos, essa passagem refere-se coletivamente a nós, o povo judeu.3
Desde o instante do nascimento, somos constantemente lembrados que compartilhamos um relacionamento especial com D'us. Aprendemos que nossa nação é instruída para trabalhar na grandeza espiritual, que cada um de nós é destinado a uma vida de santidade, e que somos dotados com uma sublime centelha do Divino, e uma alma sagrada que é soprada em nós. Sabemos que pela virtude de nossa alma, estamos conectados em milênios de história judaica. Percebemos que compartilhamos as lições de Moshê e Avraham. Entendemos que nosso destino está interligado com aqueles dos gigantes espirituais que nos precederam.
Reconhecemos que os sacrifícios e conquistas deles pavimentaram o nosso caminho, e que eles nos observam com interesse para ver se seguiremos seus passos e se perpetuaremos seu legado. Sabemos que se o fizermos, nossas vidas fugazes deixarão uma marca indelével para a eternidade. Sabemos disso, porém com frequência ignoramos. Optamos por uma vida de prazer e facilidades, em vez de comprometimento e sacrifício. Escolhemos o conforto acima da piedade, a terra acima do céu, o corpo acima da alma. Colocamos nossas necessidades acima daquelas de nossos ancestrais, nossos interesses antes dos de D'us. Pelo preço do prazer temporal, jogamos fora a felicidade eterna e evitamos nosso encontro com o destino. Assim como o filho cabeçudo que se rebaixa com seus modos glutões e permite que o corpo domine sua alma, assim também, investimos nos prazeres corporais e permitimos que nossa alma seja dominada pelos desejos do corpo.4
Assim como o filho cabeçudo, nos recusamos a ser guiados pelo nosso Pai celestial. Ele oferece instruções, e em troca oferecemos conselhos. Em vez de aprendermos o verdadeiro significado da vida com o Mestre de todo o significado, oferecemos sugestões a D'us sobre como Ele deveria melhor conduzir Seus assuntos. Acreditamos realmente que sabemos mais.

O Conflito Interior

Sabemos qual é o nosso lugar, porém carecemos da força para ir lá. Sabemos o que desejamos, porém não temos a coragem de atingi-lo. Se a verdade for dita, entramos em conflito. Por um lado, nossos elementos mais básicos nos impelem à gratificação instantânea e buscas vãs, que despem a vida de todo o seu significado. Por outro lado, nossa centelha Divina anseia por algo mais profundo, procura algo mais elevado, aspira a uma vida mais significativa. Quando estudamos a história do filho cabeçudo, a suposta abstração que jamais chegou a existir, percebemos que nos tornamos, de fato, aquele filho proverbial. Como nos retiramos desses dilema interminável? Seguimos os passos na Torá para o filho cabeçudo.

A Solução Divina

Ficamos perante D'us e testemunhamos que nossos filhos se recusam a nos obedecer. Quem são estes filhos? O Talmud refere-se às ações do homem como seus filhos. Os filhos são os descendentes dos pais e nossas ações são os descendentes de nossos corações e mentes. Tentamos corrigir nosso comportamento, porém nossas paixões e anseios nos traem. Eles não obedecem nossa instrução e não escutam a nossa voz.
D'us então sentencia nossos filhos, nossas ações errantes, à proverbial morte nos instruindo a colocar um fim neste comportamento. O leitor vai notar que Ele não ordena que nossas paixões cessem, somente nossas ações. Isso porque as paixões em si não são proibidas, somente sucumbirmos a ela é.
A experiência da vida como uma guerra entre dois impulsos é normal. É a maneira que D'us pretendia. No entanto, vencer nesse conflito exige um esforço sobre-humano, um ato que somente é possível pela graça de D'us. Esta pode ser a razão para a Torá nos falar sobre o filho teimoso. A Torá ensina que para vencer a tentação dos prazeres temporais devemos buscar uma bênção do Divino, uma infusão de força espiritual. Devemos aparecer perante D'us e reconhecer que não podemos conseguir isso sozinhos, que nossas ações perderam o sentido.
D'us não exige aquilo que não podemos fazer, portanto quando Ele exige que melhoremos nosso comportamento e vençamos nossas fraquezas e anseios, Ele também nos possibilita fazê-lo. A ordem em si é habilitante. A exigência em si é uma bênção, uma bênção que tem o poder de nos tirar de um dilema que poderia ser interminável e sem esperança.

Uma Poderosa Recompensa

Isso pode explicar o dito rabínico de que a porção puramente hipotética da Torá sobre o filho cabeçudo foi escrita somente para que pudéssemos “estudá-la e receber a recompensa”. Essa porção da Torá nos ordena melhorar, na verdade nos possibilita melhorar. Quando estudamos essa porção, somos recompensados com o Divino poder, que é de fato uma recompensa que vale a pena.5

NOTAS
1.
Devarim 21:18. Veja também comentário de Abarbanel (Don Yitschak Abarbanel, Espanha, 1437-1508).
2.
Talmud Sanhedrin 71 b.
3.
Zohar III, 187 b.
4.
Segundo Ikarim (3:15), D'us permitiu a Nôach comer carne a fim de demonstrar a superioridade do homem sobre os animais (R. Yosef Albo, Espanha, 1380-1444). No entanto, quando o homem desce a um nível animalesco, a gula pela carne pode resultar em crueldade e desejo pelo materialismo. Veja Abarbanel sobre Devarim 12:20.
5.
Veja comentário de Be’er Mayim Chayim sobre Devarim 21:18 (Rabi Chaim Tirar de Chernowitz, 1760-1817). O aspecto da recompensa é explicado também no comentário do Mahrasha sobre Sanhedrin 71 a (Rabi Shmuel Eliezer Edels, Posen, 1555-1631). Veja também comentário de Kli Yakar sobre Devarim 21:18 (Rabi Ephraim Shlomo


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