6 anos após assassinar Vitor Gurman, Gabriella Guerrero Pereira continua impune
Vitor Gurman - Coisas Judaicas
Após 6 anos, acusada de atropelar e matar Vitor Gurman recorre para não ir a júri.

Alcoolizada e em alta velocidade, Gabriela Pereira matou o administrador em julho de 2011. Nutricionista responde em liberdade por homicídio doloso, o que revolta a família da vítima.

Seis anos depois de dirigir alcoolizada e em alta velocidade a Range Rover do namorado, subir a calçada de uma rua e ainda atropelar e matar o administrador Vitor Gurman, a nutricionista Gabriella Guerrero Pereira, de 29 anos, decidiu recorrer à Justiça de São Paulo para não ser levada a júri popular. A demora pelo julgamento revolta a família da vítima, que cobra uma punição enquanto tenta educar e conscientizar os futuros motoristas sobre os riscos de beber e guiar.
6 anos após assassinar Vitor Gurman, Gabriella Guerrero Pereira continua impune
A assassina Gabriella Guerrero Pereira 

Vitor tinha 24 anos quando foi atingido pelo veículo guiado por Gabriella. Era madrugada de 23 de julho de 2011. A nutricionista decidiu conduzir o carro de luxo do então namorado, Roberto de Souza Lima, porque este teria bebido mais do que ela. A mulher alegou ter tomado só um drink.

Enquanto isso, Vitor voltava a pé para casa, no mesmo bairro, após ter ido jantar com amigos. Quando bebia, o administrador deixava o automóvel na garagem. Naquele dia, ele tinha tomado vinho.

No ano anterior, em 2010, havia perdido um colega da faculdade de administração, morto após bater o carro. Isso o marcou a ponto dele falar dessa tragédia na formatura da turma, alertando sobre os riscos de se beber e dirigir.
Segundo os parentes, mesmo aficionado por carros e provas de enduro, Vitor era prudente. Por esses motivos, preferiu voltar caminhando pela Rua Natingui, Vila Madalena, bairro bôemio da Zona Oeste da capital paulista.
6 anos após assassinar Vitor Gurman, Gabriella Guerrero Pereira continua impune
Gabriella e seu advogado

Câmeras de segurança gravaram os últimos instantes de vida do administrador. As cenas mostram ele atravessando a faixa de pedestres. Segundos depois, logo atrás, surge a Range Rover, que transitava com velocidade acima da máxima permitida para a via, que é de 30 km/h, segundo placas de sinalização espalhadas pela via.

De acordo com o Ministério Público (MP), responsável por acusar Gabriella por assassinato, laudos oficiais demonstraram que a nutricionista conduzia o carro sob efeito de álcool entre 62 km/h e 92 km/h, o que numa velocidade estimada dá algo em torno de 57 km/h.

As imagens não gravaram o momento do atropelamento. Quando amanheceu, ainda dava para ver a Range Rover tombada depois de ter capotado. Vitor foi socorrido e internado num hospital com traumatismo craniano. Resistiu por cinco dias até os médicos constatarem a morte cerebral dele.

Seu sorriso deixou a casa da família e passou a estampar o muro de uma residência que fica na rua onde o rapaz morreu atropelado. O parabrisa que se desprendeu da Range Rover com o impacto serviu como símbolo de protesto. Amigos de Vitor o pegaram e colocaram abaixo do poste que sinalizava 30 km/h. No vidro, picharam: '30 km/h?'

Homicídio doloso

Levando em consideração os fatos e circunstâncias descritos acima, a primeira instância da Justiça decidiu, em outubro do ano passado, que Gabriella seja julgada por homicídio com dolo eventual ou dolo direto, no qual se assume o risco de matar. Segundo juristas, esse tipo de homicídio também é considerado doloso.

Crimes dolosos contra a vida são julgados por um conselho de sentença, formado por sete jurados. Eles que decidem se o réu é culpado ou inocente e se deve ser condenado ou absolvido. O juiz, nesse quadro, aplica somente a sentença e determina a pena.

A data desse julgamento, no entanto, ainda não foi marcada.

Um dos motivos é o fato de Gabriella não querer ir a júri popular. A defesa dela entende que a cliente não teve a intenção de matar Vitor e, por isso, tem de ser julgada por homicídio culposo de trânsito (sem intenção). Nessa hipótese, o julgamento seria feito por um juiz, e não pela sociedade.

Outra diferença: a pena para o homicídio doloso, no caso de Gabriella, poderia ser de 6 a 20 anos de prisão. No culposo de trânsito, o tempo de punição seria menor numa condenação: de 2 a 4 anos de reclusão.

Os advogados da nutricionista, que responde em liberdade, entraram com um recurso na segunda instância da Justiça e aguardam uma resposta. O pedido ainda não foi julgado pelos desembargadores do Tribunal de Justiça (TJ).
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Nilton Gurman, tio de Vitor, que morreu atropelado em 2011 em São Paulo (Foto: Marcelo Brandt / G1)



Revolta e educação

Da data do crime até agora, Gabriella chegou a ter a carteira de motorista suspensa, mas depois a recuperou. Ou seja, ela pode continuar dirigindo sem restrições. É por esse e outros motivos que a família de Vitor se diz revoltada com a lentidão da Justiça.

“Beber e dirigir, correr, falar ao celular, não respeitar norma de trânsito e matar não é acidente. É crime. E como crime deve ser punido”, disse Nilton. “então a gente espera uma punição justa. A Dona Gabriela Guerreiro Pereira, ela tá com a vida dela normal. Há seis anos ela age como se nada tivesse acontecido. Há seis anos que a família padece todo dia pela falta de seu ente querido.”
6 anos após assassinar Vitor Gurman, Gabriella Guerrero Pereira continua impune

“Assim que o Vitor foi assassinado, os amigos dele criaram o Viva Vitão. A gente tinha um trabalho que a gente buscava conscientizar as pessoas da sua responsabilidade enquanto cidadão ao portar o veículo que na verdade é uma arma", disse Nilton ao G1.

Ele também dá palestras em escolas públicas para sensibilizar e educar futuros motoristas. Quando fala a empresas, cobra por isso. O dinheiro, porém, vai para as ações de conscientização no trânsito que organiza com outras pessoas que perderam familiares, vítimas de atropelamentos.

“A gente faz um trabalho de palestra em escolas junto a pré motoristas e adolescentes. A gente até... Eu falo isso em palestras, a gente acredita que vai haver uma mudança muito grande”, comentou o tio de Vitor. Os pais do administrador, que são separados, não foram localizados pela reportagem.

Acusação

No caso de Gabriella, ela só correria o risco de perder a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) numa eventual condenação na esfera criminal, segundo disse Alexandre Venturini, advogado contratado pelos Gurman para atuar como assistente da acusação no processo judicial contra a motorista.

“A suspensão do direito de dirigir ocorreria na aplicação da pena”, disse Alexandre, que lamenta que a defesa da nutricionista tenha entrado com diversos recursos na Justiça para, segundo ele, retardar o julgamento dela. “Esse tempo de seis anos sem ela ser julgada impressiona”.

O G1 não localizou a promotora Mildred Gonzalez, representante do Ministério Público e responsável por acusar Gabriella pelo assassinato de Vitor, para comentar o assunto.


6 anos após assassinar Vitor Gurman, Gabriella Guerrero Pereira continua impune
Nome do filme 'Luto em Luta' e rosto de Vitor Gurman foram pintados em muro de imóvel próximo à rua onde administrador foi atropelado e morto em 2011 (Foto: Marcelo Brandt/G1)

Defesa

Procurado nesta semana, o advogado da nutricionista, José Luís de Oliveira Lima, divulgou nota para reforçar a posição de que entende que sua cliente tem de ser julgada por homicídio culposo e não doloso.

"Durante todo o processo, após as oitivas das testemunhas de acusação e defesa, bem como da juntada dos laudos periciais, ficou claro que o caso deve ser desclassificado para homicídio culposo", escreveu José Luís. "Gabriela jamais teve a intenção de praticar crime algum".

Em entrevista a um jornal em 2011, Gabriella chegou a dizer que "perdeu o controle" do veículo.

Na esfera cível, o TJ manteve em setembro de 2016 a decisão de primeira instância que condenou Gabriela e o então namorado dela, Roberto de Souza Lima, dono da Range Rover, a pagarem indenizações por danos morais, no valor total de R$ 610 mil, à família de Vitor.

À época dessa condenação, a defesa de Gabriella informou que iria recorrer. O advogado de Roberto também havia dito que iria entrar com recurso contra a decisão.
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