As Forças de Defesa de Israel (IDF) estão fornecendo ajuda militar a grupos rebeldes nas Colinas do Golan,
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Safed-  Israel

De acordo com relatório, as Forças de Defesa de Israel estão em contato direto com os rebeldes, e a ajuda inclui dinheiro, alimentos e medicamentos.

As Forças de Defesa de Israel (IDF) estão fornecendo ajuda militar a grupos rebeldes nas Colinas do Golan, no lado sírio da fronteira israelense. A informação está em um relatório assinado pelo secretário-geral da ONU, o português António Guterres, e é detalhada em uma reportagem do jornal The Wall Street Journal (WSJ).

O objetivo é evitar que grupos hostis a Israel, como a milícia xiita libanesa Hezbollah e o Estado Islâmico, ocupem a região. Durante a inauguração de um centro de tratamento de câncer em Safed, perto da fronteira com a Síria, na segunda-feira 19, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu negou o caráter militar da ajuda, afirmando que se trata apenas de assistência humanitária.

De acordo com o relatório da ONU, publicado no dia 8, a IDF está em contato direto com os rebeldes, e a ajuda inclui dinheiro, alimentos, combustível e medicamentos. O relatório se baseia em informações dos militares da Força Observadora de Desengajamento das Nações Unidas (UNDOF), estacionada na fronteira.

Em sua reportagem publicada no dia 18, o WSJ afirma que a IDF criou uma unidade e tem um orçamento específicos para essa operação, e que o grupo mais beneficiado é o Fursan al-Joulan (Cavaleiros do Golan), que possui cerca de 400 combatentes. O grupo, que não é filiado ao Exército Sírio Livre e por isso não conta com ajuda das potências ocidentais, recebe cerca de 5.000 dólares por mês.
“Israel ficou do nosso lado de uma forma heróica”, declarou o porta-voz do grupo, Moatasem al-Golani, ao jornal. “Não teríamos sobrevivido sem a assistência de Israel.”

O WSJ afirma ter ouvido “meia dúzia de rebeldes e três pessoas familiarizadas com o pensamento de Israel”. E que as relações secretas de Israel com os rebeldes sírios começaram em 2013.

A UNDOF monitora o cessar-fogo entre Israel e a Síria no Golan, ocupado pelos israelenses na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e faz relatórios periódicos. Nos últimos sete meses, os capacetes azuis constataram uma escalada nos contatos entre Israel e os rebeldes sírios. Pela primeira vez a ONU expressou preocupação de que essa parceria cause uma escalada do conflito na região e coloque em risco a segurança de seus observadores.

Nos últimos sete meses, eles testemunharam 33 encontros, dos quais 16 na primeira metade de maio. Em comparação, entre 30 de agosto e 6 de novembro, tinham sido vistos apenas dois encontros.
Eles ocorrem perto de uma das bases da IDF na fronteira e seguem sempre o mesmo padrão: rebeldes, alguns deles armados, chegam acompanhados de mulas de carga, e são cumprimentados pelos soldados israelenses. “Em alguns casos, foram transferidas pessoas e suprimentos em ambas as direções. Em todas as ocasiões, os indivíduos e as mulas retornaram para o lado Bravo”, detalha o relatório, referindo-se à Síria.

Nesses seis anos de guerra civil na Síria, Israel só tem atacado alvos no país vizinho para retaliar contra disparos que atingem seu território ou para destruir carregamentos de armas e suprimentos do Irã para o Hezbollah e matar comandantes da milícia xiita.
Entre julho e agosto de 2006, Israel realizou uma campanha de bombardeios no Líbano, com o objetivo de destruir a infra-estrutura do Hezbollah, que respondia com disparos de foguetes Katyusha e artilharia. Com ajuda do Irã, o grupo reconstruiu essa infra-estrutura, mas não entrou mais em confronto direto com Israel. Hoje se concentra em defender o regime sírio (apoiado pelo Irã e pela Rússia) na luta contra rebeldes seculares e sunitas radicais.

As últimas quatro edições dos relatórios da UNDOF afirmam também que a IDF tem mantido no Golan uma ou duas baterias do sistema antimísseis Domo de Ferro, artilharia pesada de 155 mm e lança-foguetes, em violação aos termos do cessar-fogo.
Netanyahu garantiu que Israel não intervém na guerra civil síria, mas apenas ajuda os necessitados. “Não nos envolvemos no que está acontecendo lá, nessa terrível realidade, mas damos assistência humanitária a crianças, jovens e mulheres”, justificou o primeiro-ministro israelense. “Vejo pessoas aqui que antes nos viam como inimigos, e eles entendem melhor do que nunca que o Estado de Israel é um modelo moral para o mundo. O tratamento é caro, e continuaremos a investir.”
Os contatos de fato começaram como ajuda humanitária. Reportagem publicada no dia 8 de dezembro de 2015 pela edição online do tabloide inglês Daily Mail descreveu uma operação de resgate de um combatente sírio gravemente ferido, no meio da noite, por comandos israelenses em um veículo blindado, que o levaram para um hospital militar no Golan.

Segundo a reportagem, esses resgates ocorriam quase todas as noites.

Um oficial do Exército israelense reconheceu que a missão era parte de uma estratégia de segurança, para “manter a fronteira norte quieta e nossos soldados a salvo”, usando o tratamento médico como “apólice de seguro”.
“Se os sírios quiserem que nossa ajuda continue, eles sabem que têm de impedir qualquer um de atacar nossos soldados e civis”, declarou o tenente-coronel Itzik Malka, comandante da unidade médica da Brigada do Golan. “Eles estão desesperados por nossa assistência médica. Não têm médicos, nem sequer um veterinário.” O oficial contou que uma vez atenderam um homem que tinha sido suturado por um companheiro com linha e agulha de costura.

No Centro Médico Ziv, em Safed, o assistente social Issa Peres, um árabe cristão de cidadania israelense, disse que muitos funcionários estavam contrariados de ter de atender os rebeldes sírios. “Muitos dos sírios me ofenderam, disseram que vão me matar, que vão lutar contra a comunidade cristã, e que quando estiverem a salvo, lutarão contra Israel”, contou Peres. “Eles destruiram igrejas e comunidades cristãs na Síria. Tenho que cuidar deles, é meu trabalho, mas não acho certo.”
Os pacientes ouvidos pela reportagem louvaram Israel. “Não vou lutar contra Israel no futuro”, disse Ahmed, de 23 anos. “Israel cuida dos feridos melhor que os árabes. Os árabes são cães. Antes de vir aqui, eu não diria isso. Mas muitos feridos vieram se tratar em Israel e me contaram. Eu me sinto seguro aqui. Mas quando sarar, vou voltar (para a Síria) para lutar.”

Mohamed, de 20 anos, cuja perna foi atingida pelo disparo de uma metralhadora artilhada, declarou: “Obrigado a Israel por me deixar entrar. O açougueiro (Bashar) Assad é meu inimigo. Israel, não. Quem o trata não é seu inimigo.” Ele também disse que voltaria ao combate na Síria.

“Eu não confio neles”, rebateu o assistente social Issa Peres. “Eles cresceram acreditando que Israel é o inimigo deles, o demônio. Você não muda a opinião deles tratando-os por duas semanas.”

Ironicamente, o médico encarregado dos pacientes sírios em Safed, Alexander Lerner, nasceu na Rússia — como muitos imigrantes hoje em Israel —, que apoia o regime Assad. “Estamos tentando construir a paz com nossos vizinhos e conquistar seus corações e mentes”, explicou Lerner. “Israel já salvou as vidas de 2.000 sírios. Esperamos que isso mude as posições deles, no futuro sejam mais amistosos com Israel e não lutem conosco.”

A verdade é que Israel não tem feito esse tipo de atendimento apenas para os rebeldes sírios. Em outubro, um hospital de Tel-Aviv atendeu um cunhado do presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas. No ano passado, a filha do líder do Hamas, Ismail Haniyeh, também recebeu tratamento em Israel.
A lógica ocidental tem certa dificuldade de assimilar isso, mas alianças táticas entre antigos ou futuros inimigos fazem parte da cultura do Oriente Médio. Na guerra civil libanesa (1975-90), as alianças entre as diversas milícias cristãs, sunitas, xiitas, palestinas e drusas eram tão móveis e enganosas quanto as dunas do deserto.

O general e ex-presidente Michel Aoun, líder cristão maronita, fugiu espetacularmente em um tanque das tropas sírias que ocupavam Beirute em 1990, refugiando-se na embaixada da França. Quinze anos depois, com a retirada síria do Líbano, tornou-se aliado de Assad.

O repórter de EXAME Hoje entrevistou Aoun nesses dois momentos diferentes de sua carreira. Em março de 1993, já exilado em Paris, ele contou que estava “organizando a resistência libanesa contra a ocupação síria”. Já em maio de 2011, de volta a Beirute, o general contou que no seu último jantar com Bashar Assad em Damasco, em 9 de fevereiro, na festa de São Marão (patrono dos maronitas), o ditador sírio lhe havia falado de seus planos de reformas democráticas na Síria.

No Curdistão iraquiano na época de Saddam Hussein, os dois arqui-inimigos líderes curdos, Jalal Talabani e Mustafa Barzani, alternavam-se em suas alianças com o ditador do Iraque e os aiatolás do Irã. Com a queda de Saddam e a autonomia do Curdistão, os dois grupos, que haviam travado uma sangrenta guerra civil nos anos 90, chegaram a um acordo sobre a repartição do poder na província rica em petróleo.

O próprio Estado Islâmico foi formado por militantes que estavam presos na Síria, e que foram soltos pela ditadura para se agrupar no norte e servir de prova da versão de Assad de que estava enfrentando grupos terroristas, não ativistas pela democracia. Tanto assim que, nos primeiros anos, o EI não entrava em choque com as forças leais a Assad, mas se concentrava em lutar contra os inimigos do regime.

A estratégia deu tão certo que imobilizou e desmoralizou os Estados Unidos de Barack Obama, que não cumpriu a ameaça de punir a Síria caso usasse armas químicas contra sua população. Obama temeu derrubar Assad e ver emergir no seu lugar um grupo radical sunita, como ocorrera no Egito e na Líbia.

Israel tem aprendido a navegar por esses mares revoltos, mantendo boas relações, ainda que secreta ou discretamente, com países como a Arábia Saudita e a Jordânia. A Turquia passou de parceira comercial a inimiga em 2010, quando apoiou a tentativa de rompimento do bloqueio da Faixa de Gaza por uma flotilha que levava 10 mil toneladas de ajuda aos palestinos. A flotilha acabou abordada pela Marinha israelense, resultando em nove mortes. Os dois países estão se reaproximando novamente.

Desde a Guerra do Yom Kippur (1973), apesar da retórica virulenta de Hafez Assad (pai de Bashar, que governou entre 1970 e 2000) e de seu apoio a grupos radicais palestinos e libaneses, a fronteira do Golan não deu dor de cabeça aos israelenses. E eles querem que continue assim.
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