A leitura da Torá desta semana relata a história e a derrota de Côrach e seus seguidores em sua rebelião contra Moshê. A Parashá conclui com os presentes aos sacerdotes.
Coisas Judaicas

By Chana Weisberg

Sue é uma pessoa idealista que procurava um caminho para uma vida significativa. A Sua procura a levou a várias comunidades diferentes por todo o mundo onde ela testemunhou muitos e variados estilos de vida, religiões, costumes e culturas. Ela concluiu que os estilos de vida que ela viu podiam ser divididos em dois paradigmas básicos e contrastantes.
Por um lado, havia indivíduos sagrados que viviam vidas isoladas totalmente desprovidas de qualquer gratificação mundana. Por outro lado, havia indivíduos materialistas que buscavam o prazer e cuja única ocupação era a busca de uma luxúria após a outra.
Sue imaginou se haveria talvez um terceiro paradigma – um que combinasse o sucesso físico com o material, o sagrado com o mundano...
A leitura da Torá desta semana relata a história e a derrota de Côrach e seus seguidores em sua rebelião contra Moshê. A Parashá conclui  com os presentes aos sacerdotes.
Côrach filho de Izhar, o filho de Kehath, o filho de Levi, levou [a si mesmo para um lado] junto com Datan e Aviram, os filhos de Eliab, e On o filho de Peleth, descendentes de Reuven.
Eles enfrentaram Moshê junto com 250 homens dos filhos de Israel, líderes da congregação, representantes da assembleia, homens de reputação. Eles se reuniram contra Moshê e Aharão e disseram a eles: “Vocês tomaram muito sobre vocês, pois toda a congregação é sagrada, e D'us está em seu meio. Portanto, por que vocês se elevam acima da congregação de D'us?”. (Bamidbar 16:1-3)
A base para a queixa de Côrach foi que toda a nação é sagrada e, portanto, não havia necessidade para que Moshê servisse como líder e Aharão como Cohen Gadol.
A Parashá de Côrach segue o episódio dos Espiões da semana passada. O erro dos Espiões foi sua convicção de que, para atingirmos a santidade, nós devemos nos remover da esfera material e focalizar exclusivamente no espiritual. É por isto que eles não queriam entrar na Terra de Israel: porque, assim ao fazê-lo, significaria viver uma existência natural, consumida por necessidades materiais. Eles viram a realidade material como profana e viram somente o mundo espiritual como um caminho para a Divindade.
Os Espiões erraram em que, mesmo – e especialmente – dentro da esfera física, nós devemos encontrar o sagrado. D'us quer que nós usemos a realidade física e a elevemos – em vez de nos afastarmos dela. As mulheres daquela geração não pecaram no erro dos Espiões porque elas estavam intuitivamente sintonizadas a este papel do uso da realidade física como um meio para criar mais santidade em nosso mundo.
Côrach e seus seguidores aprenderam a lição dos Espiões ao extremo oposto. Côrach questionou se haveria algo de mundano sobre o mundano. A queixa de Côrach era a de que “nós somos todos sagrados” – todos nós, através de nossas atividades cotidianas regulares, estamos a serviço de D'us. Por que então existe a necessidade da hierarquia de sacerdotes e um Cohen Gadol?
Por que as horas diárias que um judeu devota ao estudo da Torá ou à reza seriam mais elevadas, sagradas ou próximas de D'us do que o resto de seu dia?
Côrach estava correto em arguir que todos são sagrados e que a realidade física tem o potencial de ser elevada para propósitos Divinos. A santificação da vida material pelo homem é o objetivo final da Criação já que “D'us desejou uma moradia nos mundos inferiores”.
Côrach falhou, entretanto, em não perceber que, enquanto a santidade existe em potencial, ela deve ser constantemente direcionada e elevada para que ela seja sagrada na prática. Inerentemente, existe bondade em todas as pessoas e em todas as partes da Criação, mas, somente quando vivermos uma vida material a serviço de um objetivo espiritual e mais elevado, teremos tornado real esta bondade.
O papel das mulheres em nosso mundo é o de trabalhar primariamente com a realidade física como parte de seu serviço Divino. Para ter sucesso, ela deve entender que somente quando nós seguimos uma “hierarquia” da esfera material sendo subserviente ao espiritual, nós teremos confirmado que nossos objetivos são verdadeiros e nós somos capazes de perceber o elevado potencial do material.
Somente dedicando o melhor de nossos recursos e energias materiais para a espiritualidade, nós mostramos que isto é que é importante para nós – e que nós não estamos meramente visando a realidade física em prol de nossas próprias gratificações ou indulgências pessoais.
Sem estas prioridades e hierarquia claramente em seus lugares, é fácil errar em assumir que nós estamos usando a realidade física para um propósito Divino, quando, na verdade, nós a estamos usando para avançar nossos próprios objetivos e ambições egoístas e narcisistas.
Não é surpresa, então, que duas mulheres tivessem um papel predominante na revolta de Côrach . Suas diferentes abordagens em lidar com a realidade material, entretanto, levou a duas consequências opostas – uma trazendo total destruição à sua casa enquanto a outra se tornando uma salvadora literal para sua família.
O Midrash1 relata que Côrach conversava com frequência com sua esposa sobre sua inveja dos cargos de Moshê e Aharão.
Um dia, ao voltar do estudo para casa, sua esposa perguntou:
“Qual a lei que Moshê lhe ensinou hoje?”
Côrach respondeu: “Ele nos ensinou as leis do tsitsit, o uso de franjas trançadas, das quais uma é techeilet.”
A esposa de Côrach perguntou: “O que é techelet?”
Côrach respondeu: “Moshê disse: ‘Prenda cordões às suas vestes, das quais uma deve ser de lã azul, tingida com o sangue da criatura chilazon.’”
A isto, a esposa de Côrach respondeu: “Por que você tem apenas um cordão techeilet preso à sua roupa? Eu posso fazer para você uma vestimenta que seja totalmente techelet.”
Os fios do tsitsit devem conter um fio azul (techeilet) para lembrar o céu e, assim, nos recordar constantemente em dirigirmos todos os nossos esforços Àquele acima de nós2.
A esposa de Côrach o estava instigando ao perguntar: “se uma vestimenta é totalmente azul, ela ainda precisaria de tsitsit com techeilet?” Ela estava querendo dizer que a congregação é toda sagrada e a realidade física é toda sagrada – tudo é techeilet; portanto, por quê este único fio de techeilet – os cargos de Moshê e Aharão e a hierarquia do espiritual acima do material que eles representavam – era necessário? A esposa de Côrach estava arguindo que, se tudo e todos são implicitamente sagrados e todos e tudo podem ser usados para objetivos Divinos, então não haveria a necessidade daquele fio “sagrado” representativo.
Ela falhou em ver que o resultado final de uma vida controlada pela constante lembrança de dirigirmos nossas vontades e necessidades para um propósito Divino é uma vida na qual as vontades e necessidades materiais se tornam o objetivo final. Eventualmente, os propósitos e ambições pessoais perdem o controle e levam à ruína pessoal e, como as ambições descontroladas de Côrach, resultam em sua destruição.
Côrach reuniu toda a congregação contra eles na entrada da Tenda da Reunião e a Glória do Senhor apareceu perante toda a congregação. A terra abaixo deles abriu sua boca e os engoliu e às suas casas, e todos os homens que estavam com Côrach e todas as suas propriedades. Eles e tudo o que possuíam desceram vivos à sepultura; a terra os cobriu, e eles se perderam para a congregação. (Bamidbar 16:19, 32-33)
O Midrash3 relata que outro seguidor de Côrach , On ben Pelet, também foi guiado por sua esposa, mas para uma conclusão muito diferente.
On, vizinho da família de Côrach , foi atraído para a rebelião. Quando ele voltou para casa e contou à sua esposa que tomaria parte da revolta, ela perguntou: “O que você ganhará com isto? Seu cargo continuará o mesmo, seja Aharão ou Côrach a assumir como Cohen Gadol”.
On cedeu à lógica de suas palavras, mas explicou que ele não podia se desligar de Côrach já que tinha jurado participar de sua rebelião na manhã seguinte. Para salvar seu marido, a esposa de On preparou uma forte bebida para colocá-lo para dormir e, então, descobriu seu cabelo e sentou na entrada da tenda. Quando Côrach enviou mensageiros para chamar On, eles viraram as costas para a visão indecente da esposa de On [mulheres judias casadas cobrem seus cabelos por recato].
Quando a morte atingiu Côrach e seus seguidores, a cama de On começou a se mover. A esposa de On a agarrou e rezou a D'us pelo perdão a seu marido. Depois que On foi poupado, sua esposa o reprimiu: “Agora, vá se desculpar com Moshê!” Quando On se recusou por causa de sua vergonha, sua esposa se aproximou de Moshê, chorando e implorando pelo seu perdão. Moshê, então, foi pessoalmente à tenda de On e o encorajou dizendo: “Venha para fora! Que o Todo-Poderoso te perdoe!”.
Pelo resto de sua vida, On ficou enlutado e expiou por seu pecado, agradecido pelo milagre de ser poupado devido à sabedoria de sua esposa4.
A esposa de On convenceu seu marido a não se juntar a Côrach explicando a ele que ele não era um Cohen Gadol e nunca se tornaria um. Ela entendeu que, apesar de nossas melhores intenções em usar a realidade física para um serviço mais elevado, nós precisamos da hierarquia do Cohen Gadol para nos lembrarmos de nossas prioridades. Somente quando entendemos que o melhor de nossa existência material deve ser oferecido a D'us, nós seremos capazes de usar e elevar de forma adequada nossas benções materiais.
Esta é a conexão da rebelião de Côrach aos presentes dos sacerdotes registrados ao final de nossa Parashá.
D'us disse a Aharão: Veja! Eu te dei o cargo de Minhas oferendas de presente.
A escolha do óleo e a escolha do vinho e do grão, os primeiros dos quais eles dão a D'us, para ti Eu os dei.
Os primeiros frutos de tudo que cresce em sua terra que eles trarão para D'us serão teus...
Qualquer coisa dedicada em Israel será teu.
Todo primeiro do ventre de qualquer criatura que eles apresentarem para D'us, seja do homem ou da besta, será teu. (Bamidbar 18:8-15)
BY CHANA WEISBERG
Os presentes dados aos sacerdotes nos lembram de termos consciência constante de nossas propriedades. Somente produzindo a “escolha do óleo, vinho e grão” e a “primeira fruta e criatura primogênitas” – o primeiro e melhor de nosso tempo, energia e recursos e as coisas mais preciosas para nós – para assuntos espirituais, poderemos assegurar que nossos motivos não são egoístas como os de Côrach ao avançar com ambições pessoais. Somente usando o melhor de nossas bênçãos materiais como “oferendas de presente” a D'us, teremos assegurado que nós estamos alinhados com a vontade de D'us em fazer de nosso mundo material uma moradia para D'us.

NOTAS
1.
Midrash Hagadol, Bamidbar 18:1.
2.
Talmud, Sotá 17a e Menachot 43b.
3.
Midrash Hagadol, Bamidbar 16:32.
4.
O nome de On reflete isto. On significa luto, já que ele estava em um estado de luto. Ben Pelet significa “um filho” (ben) ou “homem que foi salvo da destruição por um milagre” (pelach).


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