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24/05/2017

Joseph Goebbels: Uma Biografia



Autor vasculhou o diário do ministro da propaganda nazista,
um dos principais nomes da Segunda Guerra Mundial

Biógrafo expõe o 'método Goebbels' de manipulação de massas.

Para escrever "Joseph Goebbels: Uma Biografia", Peter Longerich vasculhou o diário do ministro da propaganda nazista, um dos principais nomes da Segunda Guerra Mundial.

O diário, descoberto na década 1990, apresenta os pensamentos e os métodos do homem que tinha como objetivo ser o guia de um aparato de propaganda fundamental para a harmonia entre o povo e seu Führer.
Peter Longerich vasculhou o diário do ministro da propaganda nazista, um dos principais nomes da Segunda Guerra Mundial

Autor vasculhou o diário do ministro da propaganda nazista, um dos principais nomes da Segunda Guerra Mundial.

"O traço narcísico de sua personalidade, sua forte compulsão por reconhecimento e aprovação por parte dos outros, tinha outras causas", escreve Longerich.

"A psicanálise entende que o distúrbio narcisista de personalidade tem raízes em aberrações ocorridas entre o segundo e o quarto ano de vida".
O biógrafo, um dos maiores especialistas do mundo em Terceiro Reich e Holocausto, descreve Goebbels como um maníaco-depressivo e escritor fracassado que manipulou as massas e moldou a opinião pública.

Além do diário, que também serviu como base para a biografia "Hitler", de Ian Kershaw, o autor se fundamenta em gravações de discursos e fontes históricas.

Professor de história alemã na Royal Holloway University de Londres e fundador do centro de pesquisa sobre o Holocausto da mesma instituição, Peter Longerich também é autor de "Heinrich Himmler: uma Biografia".
Abaixo, leia um trecho de "Joseph Goebbels: uma Biografia".
*
1. "Da mocidade, da mocidade, sempre soa em mim uma canção"
Joseph Goebbels sobre sua infância e juventude

"Não aguento mais a agonia. Preciso pôr no papel a amargura do coração. Else me dá um caderno comum. Em 17 de outubro, inicio meu diário."

Em 1923, Goebbels toma essa decisão - à qual se manterá fiel até as últimas semanas de vida: o diário seria o seu companheiro permanente.

A agonia e a amargura que o maltratavam no outono de 1923 tinham causas diversas: com efeito, nessa época, o dr. Joseph Goebbels era um escritor fracassado de quase 27 anos, acabara de ser despedido de um emprego que detestava num banco de Colônia e agora, totalmente sem recursos, voltara a morar com os pais em Rheydt, no baixo Reno. Namorava Else, uma jovem professora primária, mas a relação era problemática. Pouco antes, o casal tinha brigado durante uma viagem de férias à ilha de Baltrum, atormentado por problemas financeiros. Goebbels se considerava "um destroço num banco de areia": sentia-se "mortalmente enfermo". Vinha de "dias ferozes de bebedeira e desespero".

A situação política e econômica geral contribuía consideravelmente para a depressão do arruinado escritor. Rheydt, sua terra natal, fazia parte da região da margem esquerda do Reno, ocupada por tropas britânicas, belgas e francesas desde o fim da Primeira Guerra Mundial. A resistência passiva ao exército francês, que no início do ano, além de sua zona de ocupação à margem do Reno, invadira o Ruhr, acabava de fracassar. A inflação chegara a um pico absurdo: o dinheiro ganho de manhã já não valia nada à noite. Agrupamentos extremistas de esquerda e de direita se armavam para a guerra civil; na Renânia, os separatistas preparavam a secessão do Reich. Abalada por uma série de crises internas, a república alemã ameaçava se desintegrar. "A política é de rir e chorar", escreveu Goebbels, que ansiava pela crise como uma febre purificadora. "O dólar sobe como um trapezista. Cá dentro, uma alegria secreta. Sim, o caos tem de chegar se for para melhorar as coisas."

Naquela situação pessoal e política extremamente tensa, o diário deve tê-lo ajudado. Meses depois, ele começou a preparar uma biografia breve intitulada "Erinnerungsblätter" [Reminiscências]. Tratava-se de uma apressada confissão biográfica, em parte abreviada, escrita no verão de 1924. É a fonte mais importante de que dispomos dos anos da sua juventude.
A decisão de iniciar um diário e de prestar contas de sua vida numa biografia breve proveio do estado depressivo em que Goebbels se encontrava em 1923-24. No seu desespero, interessava-lhe indagar quem era, como tinha ficado daquele jeito e que metas queria atingir na vida.

Os anos de Rheydt

"Nascido em 29 de outubro de 1897, em Rheydt, na época uma das ambiciosas cidadezinhas industriais no baixo Reno, próxima a Düsseldorf e não muito distante de Colônia", assim começava o relato. Ele nos informa que Fritz Goebbels, o pai nascido em 1862, era um modesto empregado de uma fábrica de velas; em 1892, casou-se com Katharina Odenhausen, sete anos mais nova, empregada numa propriedade rural. Os dois vinham de humildes famílias de trabalhadores braçais.Bons católicos, como se dizia na região do baixo Reno, tiveram seis filhos: Konrad (nascido em 1893), Hans (1895), Maria (falecida em 1896 aos seis meses de idade), Joseph (1897), Elisabeth (1901) e Maria (1910).Em 1900, o pai conseguiu adquirir uma "casinha discreta".
A infância de Joseph foi assolada por doenças. O adulto guardou na memória, entre outras mazelas, uma prolongada enfermidade, pneumonia, com "horríveis delírios febris": "Lembro-me de um domingo em que a família fez um grande passeio a Geistenbeck. No dia seguinte, no sofá, fiquei com minha antiga doença no pé. [...] Uma dor enlouquecedora." Seguiram-se um demorado tratamento e outros exames no hospital da Universidade de Bonn cujo resultado inapelável foi: "Pé definitivamente paralisado." As consequências foram amargas: "Desde então, juventude sem alegria. Um dos acontecimentos decisivos da minha infância. Eu fiquei sozinho. Já não podia participar das brincadeiras dos outros. Tornei-me solitário e excêntrico. Por isso, quem sabe, também o queridinho de todos em casa. Os meus colegas não gostavam de mim." Só um lhe deu apoio, o amigo Richard Flisges.

Quanto à "doença no pé", o relato de Goebbels indica que se tratava de uma deformação de origem neurogênica, uma atrofia que, na criança, resulta principalmente de distúrbios metabólicos. O pé direito ficou voltado para dentro e, em comparação com o esquerdo normal, era mais grosso e mais curto.

Não é menos triste o que ele conta acerca do tempo de escola iniciado em 1904. Lembrou-se do "professor Hennes, um vigarista". Mas também havia o professor Hilgers, "um trapalhão e velhaco que nos maltratava e transformava a vida escolar num inferno [...]. Uma vez, no banho, mamãe achou os vergões de seu bastão nas minhas costas". Goebbels não escondeu que as dificuldades na escola também se deviam a sua atitude: "Na época, eu era bastante voluntarioso e livre-pensador, um garoto precoce de que nenhum professor gostava."

No último ano do curso primário, foi submetido a uma frustrada operação no pé. "Quando mamãe ia voltar para casa, eu me pus a berrar. Sem falar na lembrança terrível da última meia hora antes da anestesia e dos trens que passavam perto do hospital de madrugada, fazendo tudo trepidar." Mas a internação também teve um lado agradável: a sua madrinha, tia Stina, levou-lhe livros de histórias da carochinha, os quais ele "devorou literalmente. Os meus primeiros contos de fada. Em casa, ninguém era de contar histórias. Foram esses livros que despertaram em mim o prazer da leitura. Dali por diante, passei a devorar tudo o que fosse impresso, inclusive jornais e artigos sobre política, mesmo sem entender uma palavra". Assim que teve alta, foi transferido para o ginásio de Rheydt, ocasião em que o pai interferiu para embelezar seu certificado escolar.

Embora tivesse sido "muito preguiçoso e indiferente", segundo a sua própria avaliação, pouco a pouco tornou-se um ótimo aluno, extremamente ambicioso, com talento especial para matérias como religião, grego e história.

A explicação de sua ambição parece óbvia: uma compensação para a deformidade física. Ele próprio arriscou essa interpretação num texto autobiográfico de 1919 intitulado Michael Voormanns Jugendjahre [A juventude de Michael Voormann], uma dramatização literária da sua infância e juventude.

Michael era "um menino estranho. Mesmo sem o conhecer, a gente o via arregalar os olhos grandes, cinzentos, e pousar um olhar interrogativo em quem lhe dirigia a palavra. Havia algo especial naquele olhar, um vasto mundo de perguntas do qual ninguém tinha ideia. Raramente era visto brincando com os outros garotos", e os colegas "não gostavam dele". Então: "Era extremamente duro e grosseiro com eles, e, quando alguém lhe pedia um favor, apenas ria e virava a cara. Só uma pessoa o amava: sua mãe." A seguir, Goebbels descreve a mãe, estilizando-a, a ela e ao pai, como membros do lumpemproletariado: "Não sabia ler nem escrever, pois era uma simples criada até que o pai, um pobre jornaleiro, com ela se casasse. Deu-lhe sete filhos, coisa que a tornou magra e pálida. Michael era o quarto filho. Ninguém sabia a origem de sua mãe, nem mesmo o pai." Quanto a este, era "um homem honesto, sincero, com forte senso do dever", que às vezes se mostrava "duro e rude com a mãe" e do qual Michael herdara certa "característica tirânica".
[...]
*
JOSEPH GOEBBELS: UMA BIOGRAFIA
AUTOR Peter Longerich
EDITORA Objetiva
QUANTO R$ 70,90 (preço promocional*)

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