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25/03/2017

O dia em que Israel invadiu a Jordânia

O dia em que Israel invadiu a Jordânia
Foto da época - Jordânia Vale do Jequetinhonha










Em dezembro de 2009, na Rede Minas de TV, emissora então presidida pelo são-joanense José Eduardo Gonçalves, foi exibido o documentário “A Hora do Primeiro Tiro”, de Gustavo Jardim. 
A história começava mais ou menos assim: “em junho de 1967, Israel declara guerra e anuncia a invasão da Jordânia com dezenas de tanques e milhares de soldados. Assustados, os habitantes de uma pequena cidade do Vale do Jequitinhonha mobilizam-se para preparar a defesa…”.
Há quem jure que o caso apresentado no documentário foi pura verdade. Em 1967, coincidindo com o estopim da “Guerra dos Seis Dias”, um conflito armado que opôs Israel a uma frente de países árabes, governava estas “muitas Minas” o Dr. Israel Pinheiro, um mineiro de Caeté que também foi parceiro de Juscelino Kubitscheck na construção de Brasília. Como fator complicador, quase na fronteira de Minas Gerais com a Bahia, existia (e ainda existe!) a cidade de Jordânia. Àquela época, o prefeito de lá não se alinhava politicamente com o governador Israel Pinheiro. Naquela localidade, como acontecia em muitos “grotões de Minas”, os meios de comunicação eram precários. Certo dia, habitantes da cidade ouviram esta notícia pela Rádio Guarani AM ou pelo Repórter Esso: “Israel invadirá a Jordânia com 16 tanques blindados e 1600 homens”. Um morador, interpretando o que ouvira como certeira “declaração de guerra”, saiu em desandada correria para anunciar o fato ao prefeito; assustado, o alcaide pediu para que o seu ajudante de ordens sintonizasse um velho rádio de válvulas que, de fato, entre chiados e assovios repetiu a maldita notícia da invasão da Jordânia por Israel. Durante algum tempo reinou silêncio, só quebrado pelo prefeito que, jogando mil pragas contra o governador, desferiu violento murro sobre a mesa e gritou: “avisa já pro delegado e pros praças que nóis vamos encarar o f.d.p. do governador”.

Depois, encarapitado na carroceria d’um velho caminhão, o alcaide saiu pelas ruas a conclamar voluntários para que defendessem a cidade. Pediu para os munícipes retirar as carabinas de armários, amolar foices, machados e facas, carregar as garruchas e armar os capiaus com facões, foices, machados, enxadas e até porretes. Para as mulheres, a recomendação foi a de esconder as crianças, reforçar as trancas das casas e estocar mantimentos e água suficientes para suportar dias de batalha.
Entrincheirados e sob seu comando, os voluntários esperariam pelo ataque das forças militares do governador. A notícia se espalhou e o povo foi ficando como que endoidecido contra o dr. Israel Pinheiro; comentava-se à boca miúda que o governador, em represália por ter perdido a eleição no município, mandaria um exército invadir a cidade e acabar com o seu povo. Até uma quitandeira desesperou-se ao ouvir o barulho de um avião de carreira: achou que já era o ataque e não querendo padecer nas mãos das tropas de Israel, jogou-se lá para dentro do forno a lenha que estava aceso, onde acabou morrendo tostada.
Na surdina, emissários da pequena Jordânia foram enviados às cidades de Almenara e Governador Valadares para cooptar mais voluntários e armamentos para defesa da cidade. Em Valadares, o prefeito local desconfiou daquela movimentação; sentiu-se encurralado com a solicitação de socorro e pediu ao emissário um tempinho para estudar o complicadíssimo caso. Trancafiou-se numa sala com seu “staff” e, algum tempo depois, já com ares de grande coronel napoleônico do Jequitinhonha, saiu para informar ao emissário de Jordânia ter descoberto que aquilo tudo foi mero equívoco, que a invasão irradiada realmente acontecia, mas era bem longe dali, numa tal de “Terra Santa”. Assim, orientou para que o emissário regressasse com a urgente comunicação ao colega jordaniano de que ataque algum de Israel (Pinheiro) aconteceria naqueles confins do nordeste mineiro.
Ainda assim, foi dureza convencer a jagunçada entrincheirada de que a invasão se tratava de um alarme falso, pois estavam convictos de que Israel Pinheiro era como uma reencarnação do diabo e já estavam sedentos pelo sangue da tropa dele. A confusão começou a ser desfeita lentamente, e até mesmo um helicóptero teve que ser alugado para, sobrevoando a altura segura para não ser alvejado, jogar panfletos informando a população sobre o mal-entendido. Alguns valentes jordanianos não se convenceram prontamente, achando tratar-se a notícia de estratégica “mentira de guerra”; desconfiadíssimos, continuaram entrincheirados e de tocaia por vários dias ou meses.
Tadeu Martins, escritor, cordelista e amigo do violeiro são-joanense Chico Lobo, escreveu num de seus versos que depois de saber do equívoco, o valente prefeito do Município de Jordânia estufava bem o peito e gabava-se publicamente “que se o dr. Israel viesse mesmo, ele ia voltar desmoralizado, porque nóis arrasava o exército dele!”. Caso tenha sabido deste caso, como é quase certo, Israel Pinheiro da Silva (1896-1973) deve ter dado sonoras gargalhadas em seu gabinete no Palácio da Liberdade, local de onde governou o Estado de Minas Gerais entre os anos de 1965 e 1971.
Membro efetivo da Academia 
de Letras de São João del-Rei – MG

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