Gostaria de compartilhar com vocês, queridos leitores, as regras sobre quando é permitido se falar uma inverdade.

Quando nos é permitido mentir? Quando meu filho mais velho, Avraham, tinha 6 anos, seu coleguinha de classe veio em casa e pediu-lhe que fosse brincar em sua casa: “Venha à minha casa. Vou lhe dar leite e biscoitos!” Meu filho ficou muito chateado – não porque não gostasse do incentivo, mas porque seu amigo já havia usado a tática do ‘leite com biscoito’ antes, mas não cumprira sua promessa.
Então ele disse ao amiguinho: “Jorge, você é um mentiroso! Você sempre promete e nunca cumpre. Vou chamar a polícia por causa de suas mentiras e eles vão colocá-lo na cadeia!” Ele então discou para a polícia e perguntou: “Vocês prendem pessoas que mentem?” Depois o ouvi dizendo: “Aha, aha, tá bom, obrigado, tchau”.
Enquanto isto, Jorge tremia de medo. “Eles estão vindo para me prender? Será que vão me por na cadeia?” Meu filho respondeu: “Não. O policial disse que é errado mentir e que você não deve fazer isto novamente!”
Aonde, na Torá, reside a proibição de mentir? No livro de Shemót (Êxodus), o Todo-Poderoso nos diz: “Mantenha-se distante das palavras mentirosas (23:7)”. O Talmud, no Tratado Sanedrin (92a), explica que mentir é extremamente grave, algo comparado pela Torá à idolatria. A idolatria se define como alguém pensar que qualquer outra coisa ou entidade além de D’us tem o poder de efetuar ou dirigir os fatos do mundo (tanto os acontecimentos grandes, como os pequenos). Colocar fé em suas próprias mentiras é comparável à idolatria. Em outro Tratado Talmúdico, Sotá (42a), os mentirosos são listados entre aqueles que não desfrutarão da Presença Divina no Mundo Vindouro. Isto se baseia no Salmo 101:7: “Aquele que espalha falsidades não permanecerá perante Meus olhos”.
Porém, vemos que há vezes em que não apenas é permitido enganar, como também é algo louvável. Na história dos espiões, Calev tenta sufocar a crescente revolta do Povo contra sua entrada na Terra de Israel, fingindo estar do lado dos espiões que estavam instigando a multidão. De acordo com o Talmud (Sotá 35a), Calev gritou: “Isto é tudo que o filho de Amram (uma maneira depreciativa de se referir a Moshe) fez conosco?” A multidão se calou para ouvir as esperadas calúnias contra Moshe, mas Calev então tentou dissuadi-los de seus sentimentos negativos falando: “Ele nos tirou do Egito, abriu o mar, trouxe-nos o Maná e a carne. Ele sempre nos ajudou!”
Meu amigo, o Rabino Zelig Pliskin, fez uma bela compilação das leis básicas sobre a mentira em seu livro Love Your Neighbor (disponível em http://www.judaism.com/display.asp?etn=DABAB). Gostaria de compartilhar com vocês, queridos leitores, as regras sobre quando é permitido se falar uma inverdade:
1. É permitido dizer uma mentira para fazer as pazes entre duas pessoas que estão tendo uma discussão, ou para salvar alguém de um prejuízo. Por exemplo: podemos dizer a alguém que aquela pessoa com quem ele(a) brigou está arrependida de seu comportamento, mesmo que não seja verdade, visando criar um bom sentimento entre elas, para que se reconciliem. Porém nossas palavras devem permanecer o mais próximo da verdade que for possível.
2. Se seu anfitrião foi muito hospitaleiro, você não deve contar a uma pessoa inescrupulosa sobre a hospitalidade que lhe foi estendida, uma vez que ele pode querer obter vantagens do anfitrião.
3. Podemos falar uma mentira por humildade, para não chamar atenção sobre nós.
4. Podemos enganar alguém que está tentando nos enganar, para nos protegermos de algum ‘golpe’. Entretanto, não podemos enganar alguém para nos vingarmos de algo que ele(a) cometeu contra nós no passado.
5. Podemos louvar algo que alguém comprou, apesar de esta coisa não merecer nosso elogio. Por exemplo: se alguém comprou uma camisa de uma cor que nunca usaríamos, podemos lhe dizer que ela é muito bonita, para que ele se sinta bem com esta camisa, apesar do fato de que nunca usaríamos uma cor como aquela.
6. Podemos mentir para salvar a vida de alguém.
7. Não é considerada mentira se fizermos uma afirmação que todos sabem que é exagerada. Por exemplo: “Eu já lhe falei 1.000 vezes sobre isto!”
8. Um professor pode fazer uma afirmação incorreta para ver se seus alunos estão prestando atenção ou se lembram da matéria.
9. Quando alguém nos pede uma informação e ao respondermos a verdade isto constitui rehilut (fofoca – desnecessariamente dizer a alguém o que outra pessoa falou ou fez contra ele), então devemos mentir e não relatar a informação.
A propósito, a ligação do meu filho para a polícia a respeito de seu amigo, funcionou. Eu encontrei o rapaz 20 anos depois e ele tornou-se um jovem muito fino e educado!
Shalom!

Pensamento:
Uma palavra descuidada pode iniciar discussões;
Uma palavra cruel pode destruir uma vida;
Uma palavra dura pode instilar odiar;
Uma palavra brutal pode ferir e matar;
Uma palavra gentil pode suavizar o caminho;
Uma palavra alegre pode iluminar o dia;
Uma palavra na hora certa pode diminuir o estresse;
Uma palavra de amor pode curar e abençoar!

RABINO KALMAN PACKOUZ – Do Aish Hatorá, é o criador do Meór Hashabat, boletim semanal com prédicas
Coisas Judaicas

Coisas Judaicas

Blog Judaico - Tudo sobre Israel, judaísmo, cultura e o mundo judaico

Deixe seu comentário:

0 comments:

Deixe sua opinião