A Torá do Holocausto
Dia do Holocausto em Israel

Por Yvette Miller
Com sua barba branca, postura ereta e voz melodiosa, o Sr. Friedman há décadas tem sido um exemplo em nossa sinagoga. Sempre que precisamos de alguém para liderar os serviços, ele vem – e preenche o santuário com melodias antigas que vêm diretamente da Europa pré-guerra. Às vezes – durante os serviços, refeições do Shabat ou kidush – ele canta alto; melodias judaicas que escutei somente em discos antigos, sua melodia pairando brevemente. Lembranças dos sons de sua juventude.

Durante anos, aprendi sobre seu passado somente em pedaços – alguma informação vislumbrada de conversas curtas. “Você sabia que o Sr. Friedman viajou no Êxodus?” perguntou meu marido anos atrás, referindo-se ao navio clandestino que levou centenas de alquebrados sobreviventes do Holocausto àquele que logo se tornaria o Estado de Israel. O navio foi interceptado e atacado pelas forças britânicas, e a alquebrada carga humana de passageiros desesperados foi aprisionada por trás de arame farpado no Chipre.

Olhando para o homem idoso, eu mal podia acreditar naquilo, e perguntei a outro membro idoso da nossa sinagoga que concordou, carrancudo: “Há muito mais sobre o Sr. Friedman do que se possa imaginar.”

A notícia se espalha, e começamos a fazer perguntas ao Sr. Friedman, até que finalmente um dia ele levou fotos e recortes de jornal à sinagoga e contou sua história à congregação fascinada durante o almoço do Shabat.

1947: órfão e sozinho
Em 1947 ele era um adolescente libertado recentemente de um campo de concentração. A Haganá (precursor da ordem militar em Israel) organizou a jornada secreta sobre o Êxodus. O Sr. Friedman era um daqueles autorizados a embarcar no navio, cujo nome foi dado pelos seus esperançosos ocupantes judeus. Ele descreveu as condições de superlotação, o medo que o navio fosse atacado por britânicos, e a alegria de poder dar alguns passos sobre as areias da Terra Santa antes de serem forçados a entrar de volta no navio e aprisionados pelos britânicos.

Depois de se estabelecer em Israel, o Sr. Friedman contou à congregação fascinada, que foi alistado no exército do estado judaico e lutou na guerra da independência de Israel.

“Você é um herói!” alguém gritou, e o Sr. Friedman deu um balançar de cabeça. Explicando que fez muito serviço de guarda, ele deixou de lado os cumprimentos. “Bebi muito café”, disse ele dando de ombros, e encerrou a conversa.

Ele era assim: brusco, deixando o sentimentalismo de lado. “Você é uma menina bonita, mas não posso ver seu rosto com aquele chapéu,” disse-me ele muitas vezes após os serviços do Shabat. Comecei a usar chapéus com abas menores quando ia à sinagoga apenas para agradá-lo.

Ele era irritadiço. Quando eu o convidava para uma refeição festiva, ele insistia em dizer que queria ficar em casa, sozinho. “Com quem vai conversar?” eu perguntava. “Olhe,” disse ele, “vou colocar um espelho na minha frente, e converso comigo mesmo.”

Ele não estivera sempre sozinho. Sua esposa, Lily, era linda e bondosa. Lembro-me de ter sentado perto dela na sinagoga uma vez em Shavuot. Ela estava olhando as flores que decoravam a sinagoga para a festa. “Você deveria ter visto as flores que tínhamos lá na Europa,” ela suspirou. “Enchiam a sinagoga com seu doce perfume!”

Mas Lily tinha falecido há muitos anos, e o Sr. Friedman agora estava sozinho, morando no pequeno apartamento que eles tinham partilhado, toda parede decorada com as vibrantes cópias bordadas de quadros famosos que Lilly gostava de fazer.

Havia muitas coisas que eu sabia sobre o Sr. Friedman, e muitas que eu não sabia. Um fato que eu pensei ter entendido foi que ele sempre fora um homem com poucos meios. Eu tinha visto seu pequeno apartamento, e perguntei a ele sobre sua vida depois que se mudara para Chicago. “Eu trabalhava para uma fábrica de velas,” ele tinha me dito. Certa vez, quando perguntei por que ele não visitava os parentes de Lily em Israel, ele explicou que não podia pagar pela viagem.

Então quando pela primeira vez ouvi falar sobre a Torá do Holocausto, pensei ter entendido mal. “Quem está patrocinando a Torá?” perguntei. Eu tinha participado em muitas campanhas para angariar dinheiro para novos rolos de Torá. Os rolos de Torá são escritos à mão com muito empenho por escribas, usando tinta especial feita à mão e pergaminhos. Geralmente o escriba leva um ano de trabalho integral para completar uma Torá. O custo é muito alto. Rolos novos de Torá podem chegar ao custo de dezenas de milhares de dólares. É costume convidar a todos os participantes da comunidade a contribuir para o custo, e angariar o dinheiro para completar um trabalho desses que pode levar anos.

O Sr. Friedman tinha encomendado um sefer Torá, nosso rabino anunciou – um rolo inteiro – e tinha ele próprio pago pelo trabalho, em memória de seus pais e de sua esposa. O rolo em si era somente do Sr. Friedman. Quando os congregantes pediram para terem permissão de contribuir, ele pediu ao nosso rabino para explicar que isso não era possível. (Por fim, por feito um “acordo”: os congregantes podiam contribuir comprando uma coroa de prata para a Torá, mas o rolo em si era somente do Sr. Friedman.) Na próxima vez em que vi o Sr. Friedman – ocupado como sempre, o cabelo branco muito bem penteado, vestindo o que parecia um terno velho e uma gravata – perguntei a ele sobre o rolo de Torá.

“É em memória de meus pais e minha esposa,” ele explicou. Olhei suas costeletas, seus sapatos velhos e polidos. “Como conseguiu juntar o suficiente para pagar por isso?” perguntei.

O Sr. Friedman deu-me um olhar cortante e respondeu lentamente: “Tenho economizado para esta Torá durante toda a minha vida.”

Pouco tempo após essa conversa, levei uma refeição ao apartamento do Sr. Friedman, e perguntei se ele se incomodaria se eu ficasse e fizesse perguntas sobre seus pais. Ele mostrou-me dois quadros na parede. Mostravam um homem muito jovem com chapéu, e uma moça – ela parecia ainda adolescente – usando uma peruca. “Estes são meus pais,” disse ele. Ele contemplou as pinturas por um instante. “Pergunte o que quiser,” ele disse com um suspiro.

O Sr. Friedman (seu primeiro nome era Mordechai) nasceu em Sarospatak, uma cidade húngara com dois mil habitantes, dos quais um quarto eram judeus. Sua família era chassídica. Ele tinha uma irmã mais velha, Sarah. “Não era costumeiro uma família chassídica ter apenas dois filhos,” reconheceu ele. Ocorreram complicações durante seu nascimento, e sua mãe não tinha conseguido ter mais filhos.

“Havia muito pouco anti-semitismo,” disse o Sr. Friedman. “Reclamei certa vez que um menino que vendia jornais gritou comigo e zombou de mim. Meu pai era um homem musculoso. Era dono de uma loja de ferragens.” O menino foi advertido, e exceto por aquele incidente, havia pouca tensão na sua cidade.

“Como eram seus pais?” perguntei. O Sr. Friedman pensou por um instante, procurando alguma história para contar.

Durante os primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, um alto major alemão foi à loja de seu pai. “Ele estava usando medalhas,” disse o Sr. Friedman, e em sua voz havia um tom grosseiro. “Onde ele tinha conseguido as medalhas? Deve tê-las comprado, porque com certeza não tinha nascido antes da Primeira Guerra Mundial.”

O major chamou o pai do Sr. Friedman de “judeu sujo” e explicou que todos na cidade diziam que a sua era a única loja de ferragens que podia fornecer todos os materiais que ele precisava para construir dois acampamentos militares ali perto, e a um preço razoável. “O major disse estar aborrecido por não poder ir a outro lugar, e continuava dizendo “judeu sujo”,” disse o Sr. Friedman, com uma expressão triste.

“Papai sentou-se e ouviu, e perguntou o que era necessário. Quando o major deu-lhe uma lista, ele disse que não poderia atender e que isso não seria um problema. O major disse que seria melhor não ser um problema, e saiu sem se despedir.

“No Shabat, meu pai estava usando seu shtreimel e kapota (chapéu e casaco especiais para o Shabat) e estava indo à sinagoga. O sargento funcionário do major chegou e disse que eles tinham uma emergência e precisavam de materiais. Meu pai voltou-se para minha mãe e disse: “Dê as chaves para a empregada, e diga a ela para deixar o sargento pegar o que precisa.” Em seguida foi para a sinagoga.

Quando ele voltou para casa, não mencionou novamente o problema. No início do mês meu pai escreveu uma fatura, e minha irmã foi até o comando militar e entregou a fatura. Dois dias depois, o major foi à loja e começou a gritar, dizendo que a fatura não estava certa.” O Sr. Friedman suspirou. Seu pai não tinha cobrado os itens que o sargento levara no Shabat. Enquanto o major gritava e ameaçava sua vida, seu pai relutantemente escreveu uma fatura – sem mencionar os vários itens que o sargento tinha roubado – e apresentou a fatura oficial ao major. Depois que o major pagou a conta, lembrou o Sr. Friedman, seu pai deu o dinheiro diretamente para caridade.

Quando o Sr. Friedman tinha 14 anos, seu pai foi levado para realizar trabalho escravo para um acampamento militar no fronte russo. Eles nunca mais se viram.

“Antes que meu pai partisse,” lembrou o Sr. Friedman, “ele chamou-me de lado e disse: ‘Tenho um trabalho para você, mas precisa jurar que não vai contar a ninguém.’ Então mostrou-me uma lista com meia dúzia de nomes e endereços de parentes, e a quantia que dava a eles para o Shabat toda semana.”

Seu pai nunca costumava fazer o desjejum com a família nas quintas-feiras, e agora finalmente o jovem Mordechai entendia por quê: a manhã das quintas-feiras era quando seu pai ia de porta em porta distribuindo fundos. Quando seu pai foi levado, o Sr. Friedman escondeu a preciosa lista debaixo do colchão. “Na quinta-feira, eu tirava a lista, mas entendi que não sabia aonde ir para conseguir o dinheiro. Contei a história para minha mãe. Ela começou a rir, e perguntei o que era tão engraçado.

Ela disse: Você acha que vivendo com seu pai durante tantos anos, eu não sabia o que ele estava fazendo toda manhã de quinta-feira? Mas ele queria manter isso em segredo, então eu deixava.” Sua mãe dava-lhe o dinheiro, e ele conseguiu continuar a tradição por mais algum tempo.

Os judeus de Sarospatak foram deportados em 1944. O Sr. Friedman conversa com frequência sobre os eventos do ano seguinte. “Fomos ao gueto por uma semana ou duas,” disse ele. A verdade daquilo que estava acontecendo aos judeus europeus despertou então nele, lentamente. “Todos descobriram da mesma maneira. Você podia sentir o cheiro em Auschwitz.” Enviado para Auschwitz, o Sr. Friedman foi designado para uma seção perto de uma pequena área onde judeus - homens, mulheres e crianças viviam em condições quase normais. “Eles tinham roupas normais, e as crianças tinham brinquedos, relembra o Sr. Friedman. Mais tarde ele descobriu que esta era uma área estabelecida para a Cruz Vermelha, para mostrar aos observadores humanitários que tudo estava bem em Auschwitz para que eles pudessem assegurar ao mundo que os judeus eram bem tratados.

De Auschwitz ele foi enviado para ser um trabalhador escravo em Dachau. “Eu trabalhava na fábrica da BMW,” lembrou o Sr. Friedman. “Naquela época eles faziam motores de aviões. Eu trabalhava em enormes abrigos de bomba (para os operários da fábrica), porque os americanos estavam bombardeando dia e noite. Quando víamos um avião americano às vezes nós ficávamos saltando para cima e para baixo, pedindo a eles para nos bombardear e nos tirar daquele sofrimento.”

Com seu humor característico emergindo, a voz do Sr. Friedman tomou um tom irônico. “Um dia eu tive um pequeno prazer, se é que se posso chamar assim. Fui enviado para Munique. Ali estava realmente arruinado, era final da guerra. Um policial disse: ‘Segure uma mangueira para o hidrante de incêndio,’ e as pessoas se alinhavam com garrafas.” O trabalho do Sr. Friedman era segurar a torneira, mas estavam na metade do inverno e muito frio. “Minha mão estava tremendo, então joguei a água sobre os alemães, e criei um pequeno problema para eles,” disse ele com uma risada.

Depois da guerra, e suas experiências lutando para Israel, o Sr. Friedman conheceu sua esposa, Lilly, no início dos anos 1950. Ele a viu numa esquina da cidade israelense de Netanya, e ela era tão linda, ele explicou, que ele tinha de descobrir quem era ela. Tive de concordar. Mesmo avançada em idade, quando eu a conheci, Lilly era adorável, com lindos olhos azuis. Minha recordação sobre Lilly foi quebrada quando o Sr. Friedman continuou a contar-me sobre as horríveis experiências de Lilly no Holocausto. Eu não tinha percebido que ela tinha uma gêmea. Ela e sua irmã se tornaram sujeitas aos horríveis experimentos de Mengele com gêmeos. As irmãs sobreviveram, mas o restante de sua enorme família foi destruída. Lilly morou em Londres após a guerra, e disse ao Sr. Friedman que ele tinha de voltar para casa. “Eu disse que deveríamos casar primeiro,” lembrou ele, e assim fizeram.

Por fim estabelecendo-se em Chicago, o Sr. Friedman e Lilly viviam frugalmente. Ambos trabalhavam muito, e raramente se lembravam dos seus primeiros anos ou das experiências no tempo da guerra. Nunca contaram às pessoas que no decorrer das décadas eles estavam quietamente separando dinheiro para um dia homenagear suas famílias e fazer um memorial para aqueles que tinham perdido.

Finalmente em 21 de dezembro de 2014, o sonho do Sr. Friedman se realizou. A Torá que ele tinha encomendado estava pronta, e num dia frio e nublado, dezenas de amigos se juntaram a ele quando levou a Torá para seu novo lar. Sua amada esposa não viveu para ver este dia, mas o Sr. Friedman assegurou que sua memória fosse homenageada pelo novo rolo, também. Dedicado aos seus pais, Mendel e Raizy, e sua esposa, Lilly, a Torá do Holocausto do Sr. Friedman foi sua resposta a tudo que tinha sido tirado dele.

“Eu não queria pagar por uma placa ou uma pedra, algo que as pessoas nunca olham nem usam,” explicou ele. Durante anos, ele tinha pensado em maneiras de melhor lembrar seus entes queridos. Um rolo de Torá é usado toda semana, ele disse. Parecia uma maneira mais calorosa, mais adequada para se lembrar deles.

O Sr. Friedman insistiu em carregar o rolo por si mesmo, até a entrada da sinagoga e dentro do edifício. Normalmente um homem taciturno e tímido, ele fez um breve discurso à congregação. Mas quando colocou a Torá em seu gabinete, ele chorou. Finalmente, seus amados pais, sua amada esposa, estavam indo para casa.

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