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27/03/2017

A jornalista Guila Flint morreu neste domingo aos 62 anos

A jornalista Guila Flint morreu neste domingo aos 62 anos
Correspondente Guila Flint em uma de suas últimas viagens ao Brasil


Guila Flint (*) | Tel Aviv - 28/03/2014 - 15h31

Correspondente de Opera Mundi conta como sua história foi alterada pela ditadura civil.
Expatriada para Israel aos 14 anos depois do AI-5.

A jornalista Guila Flint morreu neste domingo (26/03/17), aos 62 anos. No texto abaixo, ela conta como a ditadura brasileira afetou sua vida aos 14 anos:
Em fevereiro de 1969, meus pais me levaram ao porto de Santos e me colocaram no navio Theodor Herzl, para Israel.
Eles sempre me disseram que a razão dessa decisão drástica, de enviar uma menina de 14 anos para o Oriente Médio, foi o medo de que algo de ruim me acontecesse, por causa da ditadura.

Tive a sorte de fazer o ginásio no Colégio de Aplicação, em São Paulo. Entrei na escola em 1965 e saí no fim de 1968, logo depois do AI-5, quando o nome da instituição mudou para Fidelino de Figueiredo e vários professores foram exilados.
O Aplicação liderava, em São Paulo, o movimento dos estudantes secundários contra a ditadura. Diretamente ligado à USP (a escola tinha um nome muito longo que sabíamos de cor – Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo), o colégio era dirigido por pedagogos de esquerda com uma visão crítica da sociedade.
Alunos e professores da nossa escola participaram das manifestações estudantis durante o ano de 1968.
Eu, que na época tinha 13 anos, também participei, tanto de manifestações como de algumas assembleias na Rua Maria Antônia, apesar das advertências de meus pais.
Acho que uma daquelas manifestações foi a gota d'água que os levou a decidir me enviar para Israel. Lembro-me de estar junto com um grupo da escola na Avenida São João. Lembro-me de policiais a cavalo, de bombas de gás lacrimogêneo, das palavras de ordem gritadas pela multidão – "o povo unido jamais será vencido".

E, de repente, me perdi dos meus amigos e fiquei sozinha, correndo em meio a uma nuvem de gás lacrimogêneo.

Ouvi a voz de uma mulher me chamando – "menina, vem pra cá!". Era a dona de uma loja de calcinhas em uma das esquinas, perto do Banespa. Me arrastei no chão, com a blusa branca e a saia azul marinho da escola, embaixo da porta de ferro, pois minha protetora já estava quase fechando a loja quando me viu correndo.

Aquela senhora não me deixou sair da loja até bem tarde. Disse :"você não sai enquanto não estiver tudo tranquilo lá fora". Já estava escuro quando ela finalmente abriu a porta e me deixou sair.

Fui até o Anhangabaú e tomei um ônibus para o Bom Retiro. Toquei a campainha e meu pai abriu a porta de casa.

"Onde você estava?!", perguntou gritando.

Menti que tinha ido visitar uma amiga.

Minha camisa branca da escola que estava preta depois que me arrastei no chão da loja de calcinhas e meus olhos vermelhos do gás lacrimogêneo desmascaravam a ridícula mentira.
Meus pais estavam histéricos. Tinham me procurado em todos os lugares e suspeitavam que eu havia desobedecido a ordem explicita deles de não ir à manifestação.

Poucos meses depois eu estava no navio.

Em 1974, quando já tinha 19 anos, decidi voltar para o Brasil.

Tive, então, minha segunda experiência de expatriação. Fui ao consulado brasileiro em Tel Aviv para renovar o passaporte. Lá alguém me advertiu: "Nem pense em voltar para o Brasil, teu nome está em uma das listas aqui".
Leia mais: Castello Branco rompeu relação com Cuba após perder queda de braço em conselho de ministros

Naquela época muitos dos que lutavam contra a ditadura estavam sendo presos, torturados, assassinados.

Pode ser que aquela pessoa da embaixada, que me alertou para não voltar, tenha me poupado de muito sofrimento.
Não voltei até 1979, quando comecei a fazer visitas esporádicas ao país.
Nesses 45 anos que se passaram desde que eu fui embora, mantive vínculos muito fortes com o Brasil.

Vale lembrar que, nos anos 1970, vivíamos em outra era – ainda não existia Skype, nem internet, nem TV a cabo. Uma carta de São Paulo a Tel Aviv demorava duas semanas para chegar e um telefonema internacional podia custar um salário mensal. Nessas circunstâncias, meu contato com a língua portuguesa foi muito afetado.

No fim dos anos 1980 comecei a trabalhar em tradução e, por intermédio do trabalho, consegui recuperar o português.

Durante os anos 1990 passei a trabalhar em jornalismo, no início escrevendo sobre o Brasil no jornal israelense Davar, que não existe mais.
Depois inverti a direção do meu trabalho e passei a escrever sobre o Oriente Médio para veículos de comunicação brasileiros.

A tradução e o jornalismo me ajudaram a estabelecer pontes com o Brasil e, assim, parcialmente, consegui reparar a sensação de expatriação.

(*) Guila Flint cobriu o Oriente Médio para a imprensa brasileira há 20 anos e é autora do livro 'Miragem de Paz', da editora Civilização Brasileira.

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