Bike nas ruas de Jaffa (Atlantide Phototravel/Getty Images)


“O mais importante é você seguir o seu próprio caminho, ser generosa, mas não se abrir demais aos outros, se doar, mas também se proteger”, disse Samir, olhando fixamente em meus olhos. Do lado de fora, a balbúrdia segue sua toada. Passa freira, passa judeu ortodoxo em passos sempre mais rápidos do que a perna, o menino do suco de romã conversa, aos berros, com o vendedor de ícones e água benta, que é muçulmano. Samir não é clérigo, rabino ou vidente, mas sim o beduíno da loja de pedras semipreciosas que me chamou para entrar, tomar um chá, mas logo esqueceu do chá (e dos conselhos) ao ver que eu não compraria a pedra. Eu poderia até levar a coisa toda como um quase golpe, mas na Cidade Velha de Jerusalém parece que mesmo tentativas de extorsão vêm com mensagens mais profundas.
A mulher observa o Muro das Lamentações (Adam Kuylenstierna/Getty Images)
Uma viagem espiritual por Israel tem de começar por Jerusalém, a cidade de 3 000 anos, sagrada para as três principais religiões monoteístas, disputada a ferro e fogo ao longo desse tempo e até agora. E, mais precisamente, tem de começar em seu centro nevrálgico, o emaranhado de ruelas no interior das muralhas erguidas pelo sultão Suleiman no século 16. É ali, num espaço de cerca de 1 quilômetro quadrado, dividido em bairros – Muçulmano, Cristão, Armênio e Judeu -, que está concentrada a maior parte dos lugares santos.
Via Dolorosa, com suas estações, incluindo a Igreja do Santo Sepulcro, onde, segundo a tradição, Cristo teria sido crucificado e sepultado (aliás, recentemente um projeto arqueológico retirou a laje que cobriu nos últimos 500 anos a pedra em que deitaram seu corpo), e os vários monastérios e igrejas erguidos em lugares que testemunharam milagres realizados por ele compõem um pacote completo para causar uma doença catalogada pela psiquiatria, a Síndrome de Jerusalém. Não raro alguém acredita ser Jesus Cristo ou Maria Madalena nesse labirinto de pedra carregado de história e religiosidade.
Para os judeus, o epicentro da fé é o Muro das Lamentações, parte ocidental do paredão de contenção que segurava a esplanada sobre o bíblico Monte Moriá, onde foi erguido e derrubado o Templo de Salomão e, séculos depois, o Segundo Templo, pelo rei Herodes, também destruído, desta vez pelos romanos, no ano 70. No alto da esplanada hoje estão as mesquitas de El Aqsa e do Domo da Rocha, com sua cúpula dourada, ambas construídas no século 7 e que representam o terceiro lugar mais sagrado para o islamismo, depois de Meca e Medina.
Esplanada das Mesquitas, Jerusalém, Israel
Muçulmanas na Esplanada das Mesquitas, em Jeruaslém (Cindy Wilk)
Mar da Galileia, Israel
No Mar da Galileia, o barco leva turistas (Godong/Getty Images)
Ruelas, Cidade Velha de Jerusalém, Israel
Cenas das ruelas da Cidade Velha de Jerusalém (Cindy Wilk)
Doces no Mahane Yehuda, Jerusalém, Israel
Doces no Mahane Yehuda (Cindy Wilk)
Rio Jordão, Israel
Cristãos em Qasr Al Yahud, no Rio Jordão, o local de batismo de Jesus (Anton Petrus/Getty Images)

Fé nervosa

Andar por estas ruelas é uma experiência intensa – se por um lado se sente o ar carregado de espiritualidade, por outro parece que é preciso enfrentar um calvário para respirá-lo. Quem espera anjinhos tocando harpas depara com hordas de gente de diferentes credos andando para todos os lados em meio a mercados barulhentos, soldados armados e vendedores insistentes – e cheios de método como Samir. O garoto passa com a caixa de pizza na frente de onde Verônica limpou o suor da face de Jesus (a própria Via Dolorosa fica bem no meio do Souq, o mercado árabe), e há filas para tocar o que teria sido a pedra na qual Jesus se apoiou na quinta estação.
No Muro das Lamentações, um olhar nem tão clínico assim pode reconhecer dezenas de diferentes linhas da fé judaica, em distintos graus de ortodoxia, rezando alto em entonações dissonantes, sons estes que em algum momento se misturam aos das preces que escapam dos alto-falantes das mesquitas da Esplanada. Até a Igreja do Santo Sepulcro tem suas disputas veladas. Propriedade de várias igrejas – a católica romana, a grega ortodoxa e as ortodoxas orientais -, decidiu-se que o mais seguro era confiar a pesada chave de cerca de 500 anos de idade a uma família muçulmana, que tem a incumbência de abrir e fechar a igreja todo dia desde o Império Otomano.
O Santo Sepulcro, aliás, nem é um consenso entre os cristãos. “Os evangélicos e protestantes consideram um outro local para a crucificação, a morte e o sepultamento de Jesus, o Jardim do Túmulo”, diz Moshico Garcia, brasileiro que emigrou para Israel em 1999, trabalhava com tecnologia da informação e, dez anos depois, largou tudo para fazer o dificílimo curso de guia (o índice de reprovação é de 45%). Desde então ele já levou para passear mais de 80 grupos religiosos brasileiros, mas nunca presenciou uma Síndrome de Jerusalém. “Apenas glossolalia”, afirma. Trata-se de uma experiência mística que ocorre especialmente entre evangélicos neopentecostais e na qual a pessoa começa a falar em uma língua estranha que se supõe ser umamensagem divina.
O Jardim do Túmulo fica próximo à muralha da cidade, mas do lado de fora do Portão de Damasco, já Jerusalém Leste, parte habitada por árabes israelenses. Ali dentro, em bom inglês britânico, Bob Lillyman apresenta os motivos que levaram, em meados do século 19, um oficial inglês, o general Charles Gordon, a apostar todas as suas fichas na crença de que o lugar é o jardim de José de Arimatéia, no qual Jesus foi sepultado. E que o monte ao lado, que realmente tem semelhança com uma caveira (“gólgota”, em aramaico, e “calvário”, em latim), teria sido o local da crucificação. Segundo a Bíblia, Jesus foi levado ao “lugar da caveira”. Hoje ao lado de um ponto de ônibus que leva às cidades palestinas da Cisjordânia.
O tour pelo jardim acaba na tumba encontrada por Gordon que os evangélicos acreditam ser a ocupada por Jesus antes da ressurreição. “Quem quer entrar para checar se ela realmente está vazia?”, provoca Lillyman.
A Cidade Velha de Jerusalém vista do Monte das Oliveiras: a muralha foi construída apenas no século 16 (Neil Farrin/Getty Images)

Padres-arqueólogos

“Aqui em Jerusalém, para cada fato bíblico há pelo menos duas opiniões de onde isso poderia ter acontecido”, diz o bem-humorado padre italiano Eugenio Alliata, que está há 37 anos na cidade. Seu “escritório” é o Mosteiro da Flagelação, segunda estação da Via Dolorosa e que compreende duas importantes igrejas – a da Flagelação, onde Jesus teria sido martirizado, e a da Condenação, onde teria recebido a cruz. Esse monastério franciscano é de 1838, mas a ordem está há mais de 700 anos na Terra Santa, e, em Jerusalém, desde 1558, quando assumiu o Mosteiro de San Salvador, também na Cidade Velha.
Padre Alliata é arqueólogo, professor do Studium Biblicum Franciscanum, faculdade que une estudos bíblicos e arqueologia, fundada ali em 1924. Em 2012 foi inaugurada a fase número 1 do Terra Sancta Museum, uma moderna exibição com projeções que contam a história da Terra Santa em 15 minutos. No final de 2017 ficará pronto o Museu Arqueológico, exposição das centenas de objetos encontrados pelos padres-arqueólogos franciscanos na região ao longo de quase 100 anos. “Precisamos estudar os lugares religiosos sob um ponto de vista histórico”, diz padre Alliata. “Tradição é muito importante para um local sagrado, mas não é o suficiente.”
O Museu Histórico do complexo será inaugurado em 2019 no Mosteiro de São Salvador e vai incluir também a parte de literatura médica desde o século 15 e de farmácia – os franciscanos eram responsáveis pelo popular Jerusalém Balm, o único remédio exportado de lá para a Europa nos séculos 17 e 18. Quanto à Síndrome de Jerusalém, o mais perto disso que padre Alliata viu é um americano que aparece por ali todo ano, descalço e vestido de branco. “Ele parece um sujeito normal que deve ter um emprego fixo e vem vagar por aqui durante o mês de férias. Nós o chamamos de Jesus.”
Placa da Via Dolorosa (Cindy Wilk)

Fora das muralhas

Quando a loucura da Cidade Velha lhe parecer um pouco demais, há toda um mundo ao redor para se refugiar e que, como a imensa maioria dos hotéis fica fora, é o caminho natural. Não que o restante da cidade seja menos intenso. O futuro até dá as caras, travestido de trens de superfície que mais parecem erro da equipe de direção de arte. E, para entender que a progressista Tel-Aviv está a 1 hora de distância, mas a anos-luz de separação, nem é preciso ir ao extremo de passear nos bairros judeus ultraortodoxos, como Mea Shearim, onde cartazes nas ruas pedem para que as mulheres se vistam “modestamente” para não ofender os moradores. Ou na área árabe de Jerusalém Leste, onde nem é preciso escrever – olhares vão lhe dizer isso. Há também muito que ver do lado de fora. Outras sinagogas, mesquitas, igrejas históricas em lugares bíblicos – no Monte das Oliveiras, com seu Getsêmani, ou em Ein Kerem. Sem falar nos sítios arqueológicos importantíssimos, como a Cidade de David, onde de fato ficava Jerusalém na época do rei judeu, com seu sistema de armazenamento de água cujos túneis podem ser percorridos em um programa bem à la Indiana Jones – com água pelo joelho – e que acabam na bíblica piscina de Siloé, onde Jesus teria curado um cego. Ainda para quem gosta de história há o ótimo Museu de Israel, onde estão os Pergaminhos do Mar Morto, e o obrigatório Yad Vashem, o Museu do Holocausto.
Gourmands e gente curiosa em geral se deliciam no gigantesco Mercado Mahane Yehuda, onde se vende kipá – o solidéu – ao lado de melancias. E, na sexta-feira de manhã, a cidade inteira baixa lá para comprar víveres que garantam a sobrevivência durante o Shabat, quando praticamente tudo fecha, ônibus não circulam e turistas incautos têm de rezar muito para encontrar algum lugar para comer um mísero faláfel.
Sinagoga de Cafarnaum, Galileia, Israel
Sinagoga de Cafarnaum, onde Jesus viveu na Galileia (Cindy Wilk)
Mea Shearim, Jerusalém, Israel
Judeu ortodoxo no bairro Mea Shearim, em Jerusalém (David H. Wells/Getty Images)

Deserto de sal

Não importa se em uma caravana liderada por um pastor, no caso dos evangélicos, em peregrinações com missas diárias, em se tratando de católicos, ou alugando um carro e indo por conta própria achar seu caminho espiritual, no caso de gente como eu, que ouve os conselhos do beduíno Samir: em geral, depois da intensa Jerusalém, o caminho natural é boiar merecidamente nas águas relaxantes do Mar Morto. Os que estão em grupo têm mais facilidade de, no trajeto, passar pelos importantes locais santos que ficam na Cisjordânia – nas cidades de Belém, Jericó e seus arredores. Já para quem está em carro alugado, com placa israelense, não é recomendável sair das estradas controladas por Israel para entrar na Cisjordânia. Melhor combinar com um motorista de táxi ainda em Jerusalém e fazer um bate e volta.
Boiar no Mar Morto não é milagre, mas ciência. A 400 metros abaixo do nível do mar, a concentração de sal na água é tão absurda que se veem até as placas. Já substâncias como bromina, magnésio e iodo funcionam como relaxantes naturais, e, somadas a uma lama que dizem também ter propriedades que fazem bem para a pele, o lugar insalubre no meio do deserto, que era refúgio de quem por algum motivo queria se esconder do mundo, virou a terra prometida para os loucos por spa. Não é força de expressão. Foi na Fortaleza de Masada que os judeus revoltosos contra a dominação romana foram se esconder – e resistiram a anos de cerco por parte das legiões romanas. Foi em Qumran que os essênios se isolaram para passar os dias produzindo os Pergaminhos do Mar Morto.
Um pouco mais ao norte, antes de o Rio Jordão desaguar no Mar Morto, está o exato ponto em que Jesus teria sido batizado por João Batista. Zona de fronteira com a Jordânia cercada por campos minados, quem fosse a Qasr al Yahud de 1948 a 1994 levava chumbo. Por esse motivo se criou um lugar alternativo – Yardenit – bem mais ao norte, já colado no Mar da Galileia. Com o acordo de paz firmado entre Israel e a Jordânia, Qasr foi reaberto em 2000 com infraestrutura bacana e clima sossegado, apesar dos soldados armados de ambos os lados da fronteira, que nesse ponto é uma corda no meio do rio. “Durante a Epifania, de 14 a 18 de janeiro, cristãos ortodoxos do mundo inteiro vão se batizar ali. Fica tão cheio que se usam tonéis de plástico por falta de espaço”, conta Mochico.
Mar Morto, Israel
Viajantes boiam na praia do Mar Morto (Patrick Syder/Getty Images)
Oliveiras no Getsêmani, Jerusalém, Israel
As oliveiras do Getsêmani: algumas são da época de Jesus (Yadid Levi/Getty Images)
Masada, Israel
No alto de Masada, jovens judeus decidem rezar (Cindy Wilk)
Antiga Jaffa, Tel Aviv, Israel
Bike nas ruas de Jaffa (Atlantide Phototravel/Getty Images)
Mahane Yehuda, Jerusalém, Israel
No Mahane Yehuda, vende-se de kipá a frutas (Cindy Wilk)

Norte cheio de graça

jornada para o norte pode ser pelo lindo litoral banhado pelo Mediterrâneo, passando pela Jaffa das histórias de Jonas ou do sonho de Pedro; por Cesareia, a grande cidade romana da época de Cristo e hoje um dos mais impressionantes sítios arqueológicos de Israel; pelo Monte Carmelo, do duelo espiritual entre o profeta Elias e os profetas de Baal. Em seguida é natural passar pela hoje cidade árabe de Nazaré, onde Jesus foi criado – nem que seja para beber água da Fonte de Maria e dar uma olhada na imensa Basílica da Anunciação, onde há restos arqueológicos da casa dela. Ou ainda fazer um piquenique no Monte do Precipício, de onde, segundo o Novo Testamento, a população de Nazaré teria tentado jogar Cristo. A vista para o Vale do Armageddom, suposto local onde se dará a bíblica Batalha Final, cercado pelos montes Gilboa, Carmelo e Talbor, impressiona.
O destino final é bem claro: o Mar da Galileia, também conhecido como Lago Kineret (afinal, é um lago de água doce), cenário da maior parte dos milagres e pregações registrados no Novo Testamento. Alguns fiéis vão a pé, umaperegrinação que começa em Nazaré e passa por Kfar Kana – conhecida como Caná da Galileia, o lugar do primeiro milagre, que transformou água em vinho durante um casamento. Por isso, na Igreja das Bodas de Caná, é comum que se faça a renovação dos votos matrimoniais. Com boa infraestrutura, o chamado Caminho do Evangelho leva cerca de dois dias e termina em Cafarnaum, a aldeia onde Cristo viveu, às margens do lago, e que hoje é um importante sítio arqueológico.
A capital do Mar da Galileia é a cidade de Tiberíades, onde se escreveu o Talmud de Jerusalém e que concentra túmulos de rabinos ilustres como Maimônides. Para os cristãos é a base para explorar o lago bíblico sobre cujas águas Jesus teria caminhado. Pela manhã, barquinhos que imitam os daquela época levam o pessoal para passear. No mesmo dia dá para visitar uma embarcação real remanescente desse período, encontrada ali, tratada por anos para não virar pó e exposta no Kibbutz Ginosar, outro milagre. Muito próximo de lá está Magdala, a cidade de Maria Madalena, sítio arqueológico em plena atividade descoberto há 20 anos. Ao redor, um enorme complexo ecumênico acaba de ser construído e um hotel está em obras. As igrejas por ali são muitas – da erguida no local da multiplicação dos peixes à bela Tabgha, que quase encosta no lago, passando pelo Mosteiro das Carmelitas, no Monte das Beatitudes.
A porta de entrada para o norte sempre foi o porto de Acre. Era onde, durante a Idade Média, fragatas descarregavam cavaleiros de todas as partes da Europa, os quais desembarcavam em frangalhos depois de uma jornada insana cujo objetivo nesse ponto estava muito próximo: chegar a Jerusalém. Muitos no entanto morriam na praia, ou melhor, no hospital da Fortaleza dos Cruzados, impressionante complexo que ficou intacto, esquecido sob construções otomanas. “Acre fica 100 anos mais velha a cada ano”, brinca Uri Jeremias, um dos únicos hoteleiros e dono de restaurante judeu em meio à cidade de imensa maioria árabe. Ele se refere às descobertas arqueológicas que hoje já atestam que Acre passa de impressionantes 5 000 anos. A casa onde está seu hotel, o The Efendi, é uma colcha de retalhos históricos na qual partes da adega chegam a ter 1 300 anos de idade.
Acre é a cidade mais sagrada para os Baha’i, os adeptos da novíssima religião cujo fundador, Bahá’u’lláh, descansa eternamente no maravilhoso jardim-mausoléu de Haifa, cidade localizada a menos de meia hora dali. Mas não costuma entrar na rota das caravanas ou peregrinações modernas, apesar de dizer muito sobre a história dessas jornadas. A minha chegava ao fim, e eu me despedi caminhando entre mesquitas sufis, ruelas infestadas de gatos, idosos assistindo à TV no meio da rua, mercados cheios de vida real. Provando os melhores baklavas (aqueles doces árabes recheados de pistache) da minha vida. E pensando que espiritualidade é de fato um caminho muito particular. Parece que me disseram isso ali em Jerusalém.
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