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22/12/2016

Um Êxodo Judaico para uma Nova Terra

Um Êxodo Judaico para uma Nova Terra
Rimonim em prata E portraits da família Levy-Franks, da exposição "Os primeiros judeus americanos",na New-York Historical Society. (Mark Kauzlarich, para o The New York Times)
por Joseph Berger
Se é que se pode dizer que um evento de tal magnitude teve um lado positivo, a Inquisição o teve para os judeus da Espanha e Portugal: o fato de empurrá-los para as Américas, onde, de modo geral, encontraram tolerância e oportunidades que lhes tinham sido negadas na Europa.
A história dos judeus refugiados estabelecidos no Novo Mundo é o foco de uma exposição inaugurada em 28 de outubro de 2016 na New-York Historical Society.

Com manuscritos raros, Bíblias, livros de oração, pinturas, mapas e objetos do culto, a mostra “Os Primeiros Judeus Americanos: Liberdade e Cultura no Novo Mundo” registra como os judeus, expulsos da Espanha e de Portugal após serem expelidos, em séculos anteriores, da Inglaterra e França, fundaram comunidades prósperas em Nova York, Filadélfia, Charleston, Newport e, ainda mais cedo, nas ilhas do Caribe e na América do Sul. Nos Estados Unidos, eles, como seus compatriotas americanos, foram atirados nas correntes históricas, encontrando-se nos dois lados durante a Revolução Americana, o movimento para abolir a escravidão e a Guerra Civil. E sua aceitação foi, por vezes, efêmera ou ilusória.

O objeto mais impressionante da exposição é um livro de oração e de memórias muito gasto, de 180 páginas, de 10 cm x 7,5 cm, totalmente manuscrito por Luís de Carvajal, o Jovem, no México Colonial, em 1595, até onde a Inquisição havia estendido suas sinistras garras de tortura e execução.
De Carvajal era um converso, forçado a adotar o Catolicismo, mas suspeito de prática clandestina dos rituais judaicos. Durante seu julgamento, foi pressionado a denunciar 120 judeus que secretamente seguiam sua fé, até mesmo seus parentes. A seguir, foi queimado na fogueira.
“Eles o dobraram”, diz Debra Schmidt Bach, uma das curadoras da exposição.
O livrinho de Luís de Carvajal desapareceu misteriosamente do Arquivo Nacional do México na década de 1930. No entanto, há pouco tempo, Leonard L. Milberg, um empresário americano, dono de uma importante coleção de Judaica, tomou conhecimento de que a tal maravilha estava à venda na casa de leilões Swann Auction Galleries, em Manhattan, e conseguiu fazer com que fosse devolvido ao México. No momento, está emprestado para a exposição.
A exposição apresenta documentos que narram excentricidades dos primeiros assentamentos judaicos: um édito expulsando os judeus das colônias americanas da França; um documento rabínico atestando a Casherut de alimentos enviados a Barbados; um serviço do século 18 para a circuncisão de escravos, obrigatória pela Bíblia, e uma lista de oficiantes de circuncisão em Curaçao e no Suriname; e uma pesquisa de um missionário cristão especulando se os Índios americanos eram as Tribos Perdidas de Israel. Há duas pinturas nostálgicas de cenas caribenhas feitas por Camille Pissarro, pintor francês impressionista nascido em St. Thomas de mãe judia. Setenta e dois dentre os 170 itens expostos pertencem à coleção do Sr. Milberg.
Apesar de a colônia holandesa de Nova Amsterdã, hoje Nova York, se ter tornado um refúgio importante, sua aceitação de judeus foi limitada. O cruel governador do posto avançado, Peter Stuyvesant, recuou quando 23 refugiados do Brasil, governado por portugueses, chegaram em 1654. Mas a Companhia das Índias Ocidentais Holandesas disse a Stuyvesant que business era business e os judeus deveriam lá permanecer desde que pudessem contribuir para o bem-estar comercial do posto avançado.
Aqueles judeus fundaram a primeira congregação da América do Norte, Shearith Israel – Remanescentes de Israel – e construíram uma sinagoga em 1730 onde é hoje a South William Street, em Lower Manhattan. A congregação segue atuante no Central Park West, para onde se mudou em 1897.
A Congregação Shearith Israel emprestou à exposição um rolo de Torá queimada, resgatado de um incêndio provocado pelos soldados britânicos, em 1776, e um par de rimonim ricamente trabalhados em prata – ornamentos com pequenos sinos para a Torá – criação do conceituado prateiro Myer Myers. Há também uma ketubá – um contrato de casamento – ilustrado com uma noiva e um noivo sob a chupá, o pálio nupcial.
Abigaill Levy Franks, destacada senhora da Nova York àquela época, é saudada com um portrait. Suas cartas, segundo informa o texto dos murais, transmitem seu descontentamento com o casamento de sua filha com um cristão, Oliver Delancey. Interessante notar que o rapaz era descendente da família que deu nome à Delancey Street – a rua que mais tarde se tornaria a espinha dorsal da parte judaica do Lower East Side.
Como outros colonos, os judeus tinham sentimentos ambivalentes acerca do fim do domínio britânico. Haym Salomon, imigrante polonês, ajudou a financiar a Revolução. Mas Abraham Gomez e outros 15 judeus estavam entre os 932 signatários da lealdade ao Rei George III.
Outros documentos relatam a difícil disputa sobre a escravidão. Livros de contabilidade registram a compra de cinco escravos por Matthias Lopez em 1787, ao passo que Jacob Levy Jr. é mencionado em documentos de uma sociedade abolicionista como tendo libertado quatro escravos em 1817.
Há, também, partes da exposição dedicadas às comunidades judaicas na Filadélfia; Nova Orleans; Charleston, S.C.; e Newport, R.I. A mostra não traz a famosa carta de George Washington à congregação de Newport expressando a esperança de que todos “sentem-se em segurança sob sua videira e sua figueira”. Mas exibe cartas de congregação em Newport e Savannah, Ga., agradecendo ao novo Presidente por ser tão hospitaleiro.
Alexander Hamilton, o celebrado fundador da atual Broadway, também aparece. A exposição conta que sua mãe tinha esposado um judeu e que, por isso, ele era fluente em hebraico e tinha vínculos profissionais muito próximos com judeus.
Vários documentos comprovam que foi na Congregação Kahal Kadosh Beth Elohim, em Charleston, que a versão americana do Judaísmo Reformista teve suas raízes, em 1824, através de jovens dissidentes que “queriam modernizar o judaísmo para que não morresse”, disse Dale Rosengarten, diretora do Centro Sulista de Cultura Judaica no College of Charleston. A Sra. Rosengarten foi curadora dessa exposição em Princeton.
“Não surgiu de nossa imaginação, mas brotou em nosso solo nativo”, disse.
Os judeus fizeram importantes contribuições às ciências e cultura no século 19, bem como a outros campos; mas, como ensina a exposição, “apesar do ostensivo comprometimento da nação com a tolerância religiosa, os estereótipos dos judeus persistiam na cena americana. “Uma galeria tem um retrato e a espada e bainha do Comodoro Uriah Phillips Levy, herói naval da Guerra de of 1812, e quadros pintados por Solomon Nunes Carvalho, que acompanhou John C. Frémont, o explorador, em uma expedição cross-country”.
Inevitavelmente, segundo Louise Mirrer, presidente da New-York Historical Society, a história dos judeus do Novo Mundo tem ressonância para os imigrantes, refugiados e minorias, atualmente. “As sementes foram plantadas, há muito tempo, em um lugar onde cada um pudesse praticar sua religião, livremente”, disse a Sra. Mirrer, explicando por que o Novo Mundo atraiu europeus – como os puritanos – em busca de liberdade religiosa.
Mas, às vezes, houve anomalias, Mirrer continuou: “Na exposição, vemos o tipo de fervor religioso que promove um tipo de violência contra certos grupos”.
Joseph Berger é escritor de vários livros e editor do New York Times
O artigo traduzido por Lilia Wachsmann foi publicado no The New York Times em 27 de outubro de 2016

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