Comentários sobre a Porção Semanal de Toldot
O Fracasso Histórico dos Primogênitos“Certa vez, Yaacov havia cozido um guisado e Esav veio do campo, e ele estava cansado. E Esav disse a Yaacov: ‘Enche minha boca, rogo-te, dessa coisa vermelha, pois estou cansado’… E Yaacov disse: ‘Vende, tão claro como o dia, tua primogenitura para mim’. E Esav disse: ‘Eis que caminho para a morte; de que me servirá a primogenitura’? E Yaacov disse: ‘Então jura-me, de forma clara como o dia’. E jurou-lhe, e vendeu sua primogenitura a Yaacov. E Yaacov deu a Esav pão e o cozido de lentilhas; e ele comeu e bebeu, levantou-se e se foi; e Esav desprezou a primogenitura”.
(Gênesis 25, 29-34)
Esta é uma das poucas parashiot que nos provem de detalhes biográficos acerca de nosso patriarca Itzchak. O livro de Gênesis nos proporciona escassos detalhes sobre sua vida. Não sabemos nada sobre sua infância e sua juventude, exceto a cena em que se dirige junto com seu pai para o sacrifício.
Esta parashá nos relata um dos episódios mais dramáticos da vida de nossos patriarcas. No centro do relato está Itzchak, o velho pai cujos olhos ficaram nublados, fato que origina os dramáticos acontecimentos da luta entre seus dois filhos Yaacov e Esav.
As figuras centrais desta parashá são os famosos gêmeos Esav e Yaacov. Começando com o conflito que se revela entre ambos quando ainda estão no ventre materno, e finalizando com a fuga de Yaacov para Harán com medo da fúria de seu irmão, que havia decidido matá-lo por ter-lhe tirado, mediante uma artimanha, a primogenitura que seu pai lhe prometera.
A história sobre Yaacov e Esav relatada em nossa parashá, constitui uma luta entre a primogenitura e a escolha. O primogênito, que deveria ser o responsável pelo aspecto espiritual, é na realidade um homem do campo, hábil ao caçar, um homem de trabalho que se ocupa do alimento. Já Yaacov, o mais jovem, que deveria ocupar-se justamente dos assuntos materiais, era um homem aprazível, um “morador de tendas”, um homem espiritual.
Um dia quando Esav voltou do campo, solicita de Yaacov que lhe proporcione comida, e está disposto a entregar-lhe, em troca, o direito a primogenitura. Desde então resulta a divisão: Yaacov se encarregará dos assuntos espirituais, enquanto que Esav se preocupará dos assuntos materiais.
Este é o conflito entre primogenitura e escolha. A vantagem do direito de primogenitura está reconhecida pelas leis dos povos e também pela Torá; entretanto é justamente o filho menor o escolhido nos diferentes relatos bíblicos. Talvez possamos afirmar sobre esta base que o primogênito é o possuidor do direito humano e o filho mais novo do direito Divino. Desde o ponto de vista biológico, o filho primogênito é o primeiro, porém por alguma razão a Torá escolhe e prefere o filho mais novo, atribuindo-lhe funções que, na realidade, correspondem ao mais velho.
O começo deste drama está relacionado com a época de Adam (Adão), com o que aconteceu com os primeiros dois irmãos da humanidade: Cain e Abel. Ambos tinham diferentes ocupações: Cain, o mais velho, trabalhava a terra e Abel, o mais jovem, era pastor. Cain é o primeiro a trazer uma oferenda diante de D-us fazendo com que seu irmão ficasse em segundo. Entretanto, D-us aceita a oferenda do irmão menor, Abel. É possível entender deste fato que é D-us quem elege a Abel e rechaça a primogenitura de Cain.
Mais adiante, no livro de Gênesis, Abraham expulsa seu primogênito Ishmael e escolhe Itzchak. Itzchak abençoa a Yaacov em vez de Esav, Yaacov passa a primogenitura de Reuven a Yosef.
Yaacov abençoa a Efraim com sua astúcia, em vez de abençoar a Menashe. Dos irmãos Moshe e Aharon, Moshe, o mais jovem, é escolhido para liberar o povo do Egito. O profeta Shmuel escolhe em missão Divina a David, o mais jovem da família de Ishay para que seja rei de Israel e David elege a Shlomo para que o herda como rei, apesar de não ser o primogênito.
Todas as histórias bíblicas com respeito a maioridade revelam uma certa regularidade em suas leis. Qual é a razão? Por que sempre o primogênito é rechaçado e não consegue cumprir com sua função? Por que o primogênito cumpre apenas com sua função biológica e não consegue exercer, igualmente, sua função espiritual?
Na maioria dos casos, entre os irmãos, o primogênito é o líder que guia aos demais. Do ponto de vista psicológico, pelo fato de ser o mais velho, ajuda na criação de seus irmãos, o que lhe outorga uma certa responsabilidade, originando habitualmente, uma personalidade mais madura e seria.
Entretanto, no Tanach as coisas sucedem de outra maneira, até mesmo, às vezes, de maneira oposta a estas leis naturais e psicológicas. No Tanach não existe o conceito do “Destino”, essa sentença predeterminada que irá ocasionar os sucessos na vida da pessoa, sem que se conheçam as razões para isso. Ao invés, o Tanach nos mostra outro conceito, que se refere a um fenômeno que existe ainda antes do nascimento da pessoa, e que é a função espiritual que certo personagem possui ainda antes de nascer. O primogênito não nasce traçado num destino de primogenitura. O fato de ter nascido primeiro entre seus irmãos não lhe confere um destino privilegiado em comparação com os demais irmãos. A lição que nos quer ensinar o Tanach, quando rechaça o primogênito, nesta parashá como em outras, é que a superioridade de uma pessoa está determinada por suas ações e não pelo momento em que nasce.
Na história da venda da primogenitura temos destacado não apenas o fato de que Yaacov tenha adquirido a primogenitura, senão também, a anulação da primogenitura por Esav. Yaacov representa o ensinamento Divino de que a partir desse momento, o valor de uma pessoa não depende da herança, mas sim, de seu valor pessoal e sua superioridade espiritual.
No mundo pagão existia a crença de que o primogênito era possuidor de uma força Divina relacionada com a fertilidade humana. Os egípcios converteram seus primogênitos em deuses, razão que explica porque D-us os eliminou na última das dez pragas. A Torá anulou a instituição da primogenitura, mantendo para o primogênito apenas um privilégio: receber tudo em dobro.
Esta parashá nos ensina, portanto, sobre a anulação da primogenitura como instituição que proporciona ao filho mais velho uma série de privilégios espirituais. Estes privilégios serão outorgados ao homem, apenas baseando-se em suas boas ações e não no lugar de seu nascimento dentro de sua família.
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