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O judaísmo é ocidental e oriental
08/02/16 Posted by Coisas Judaicas

O judaísmo é ocidental e oriental
Com base no livro “Psicologia da Religião” de Jung e no livro “Conflito de Civilizações” de Samuel Huntington, o judaísmo é uma religião oriental ou ocidental?
O Judaísmo é uma religião abraâmica que surge no oriente, tem como principais livros a Torah e o Talmud (Talmud Babilônico e Talmud da Judéia). É uma religião monoteísta (um único D’us), o que fica claro na declaração de fé do judaísmo chamada de Shemá Israel. Um curiosidade interessante, é que os judeus se referem à D’us através de vários nomes, o mais comum deles é “Eterno”. O judaísmo não tem uma liderança definida, como é o caso do Vaticano para os católicos apostólicos romanos. Pode-se dizer que cerca de metade do judeus no mundo vivem em Israel e a outra metade vive na diáspora, sendo que desses que vivem na diáspora, a maioria vive nos Estados Unidos.
O primeiro problema que surge ao tentar responder essa pergunta consiste no fato de que o judaísmo não é uma religião. Afinal, existe judeus que são ateus ou que não praticam nenhum dos mandamentos da Halacha (mitzvot) e ainda sim são considerados judeus. Isso acontece porque o judaísmo é um modo de vida que envolve cultura, história, religião, uma língua (hebraico), um caráter étnico e um aspecto nacionalista (sionismo).
O judaísmo rabínico inicialmente deu as costas para mundo helênico, mas, mesmo assim, sofreu influência do mesmo. Séculos depois, na diáspora, os judeus se espalharam pelo mundo e caminharam em meio a civilização islâmica, cristã latina e cristã ortodoxa, os judeus receberam influências do meio não judaico no qual viviam. Não existe nenhum modo de vida judaico totalmente hermético, puro ou autêntico, até mesmo a ortodoxia recebeu influências do mundo externo.
As mudanças mais relevantes que influenciaram o judaísmo e moldaram o judaísmo como eu conheço hoje ocorreram no século XIX e no século XX. Foi nesse período que os judeus saíram dos guetos em alguns países da Europa e entraram em contato com o iluminismo, com ideias liberais, foi nesse momento histórico que ocorreu o haskalá (iluminismo judaico), que novas formas de se estudar o judaísmo ganharam força (wissencraft des judentus) e mudaram o mundo judaico para sempre. Foi das grandes mudanças históricas e do choque de ideias nesse período que nasceu o nacionalismo judaico (sionismo).
Pode-se dizer que hoje o mundo judaico está divido entre judeus ortodoxos, judeus conservadores e judeus reformistas. Se você quiser ser mais específico, entre: judeus ultra-ortodoxos (Haredi ou chassidicos), judeus ortodoxos clássicos, judeus ortodoxos modernos (judeus ortodoxos modernos e “open orthodoxy”), judeus conservadores religiosos e não religiosos, judeus reformistas e judeus reconstrucionistas. Ficou confuso? O judaísmo pós-iluminismo, especialmente no mundo ashkenazi, é muito divido e diversificado. No século XX, com indivíduos com identidades pós-modernas, cercados pela radicalização dos extremos, pode-se dizer que o judaísmo, nos Estados Unidos, está divido entre: judeus ultra-ortodoxos e judeus tradicionais de tendência liberal (judeus ortodoxos modernos e judeus conservadores religiosos).
Em Conflito de Civilizações, Samuel Huntington dividiu o mundo pós-guerra fria entre civilizações, entre elas: a civilização ocidental, que tem bastante destaque em seu livro e tem como principal representante os EUA. Existem outras civilizações? Sim, ele discorre também sobre a civilização islâmica e asiática, pois as mesmas se veriam em conflito com o ocidente. Para responder a pergunta se o judaísmo é um modo de vida ocidental ou oriental, é necessário saber o que, para Huntington é a civilização ocidental e o que é oriental.
Para Samuel Huntington, a civilização ocidental não pode ser definida apenas em termos geográficos, sendo necessário ir para o campo das ideias. Esta civilização é marcada por três características elementares: império da lei (rule of law), separação entre Estado e religião, valores liberais e direitos individuais. Na visão de Huntington, o oriente seria tudo o que não é não é ocidental, tudo o que é contrário ou não se encaixa nas características elementares que a civilização ocidental possui.
Com base na obra o Conflito de Civilizações, pode-se afirmar que o judaísmo tem uma face ocidental e outra oriental, principalmente em decorrência das mudanças históricas que o mesmo sofreu durante os séculos XIX e XX. A face oriental do judaísmo, ou seja, a face que não é ocidental é o judaísmo ortodoxo, hoje representado por Israel, pois Israel é onde existe uma grande concentração de judeus ortodoxos e cuja instituição que controle o ciclo de vida judaico da grande maioria dos cidadãos é o Rabinato de Israel (uma instituição ortodoxa, com crescente influência dos judeus Haredi) e a face ocidental do judaísmo é o judaísmo não ortodoxo (judaísmo reformista e conservador), hoje representado pelos EUA (o judaísmo não ortodoxo é forte e tem maior representação nos EUA do que em qualquer outro país da diáspora).
O judaísmo ortodoxo é a face oriental pois carrega no seu modo de vida uma realidade, em grande parte, não ocidental. É um judaísmo cuja vida religiosa é marcada por uma rigorosa observância das leis judaicas, de forma que são judeus que (para tornar tal observância mais fácil) buscam uma vida cercada por outros judeus, possuem uma identidade judaica mais tribal e menos universal. A principal forma de sionismo nos meios ortodoxos religiosos é o sionismo religioso que tem maior tendência a misturar a esfera pública com a privada na relação entre Estado e sociedade. Em suma, é um modo de vida judaico que, em maior ou menos grau, tem um conjunto de ideias e uma realidade não ocidental ou, em certos grupos como o Haredi e Chassidicos, anti-ocidental, podendo ou não produzir indivíduos ocidentalistas.
O judaísmo reformista surge na Europa e o judaísmo conservador surge é moldado nos EUA, portanto, são modos de vida mais condizentes com o arcabouço de ideias e valores do ocidente, de acordo com concepção de civilização ocidental de Samuel Huntington. Ambos os modos de vida judaico tem valores liberais misturados ao judaísmo, são caracterizados por maior maleabilidade e adaptação das mitzvot à uma realidade não judaica e portanto, é muito mais fácil para esses judeus viverem em uma realidade permeada por não judeus. São judeus marcadamente cosmopolitas e com alto grau de educação secular, tendo um estudo de Torah e Talmud influenciados pelo modelo Wissencraft des Judentus. A forma de sionismo mais comum nesse meio é o sionismo liberal.
É importante ter em mente de que o mundo não é feito de caixinhas. Essa divisão que eu fiz entre judeus ortodoxo e judeus liberais não é perfeita, existem judeus ortodoxos que não são estranhos a valores liberais, que votam nos democratas, são cosmopolitas e empregam criticismo bíblico no seu estudo da Torah, apesar de tais judeus não são mainstream ou representam as grandes instituições que lideram o movimento ortodoxo, mas eles demonstram que as realidades de cada vertente do judaísmo se encontram e não tem muros entre si. Além disso, tal divisão, como descrita anteriormente, pode não ser realidade no Brasil, eu tinha em mente, ao pensar na resposta para a pergunta que é título desse texto, a comunidade judaica americana.
Os impactos da divisão no mundo judaico, que pode ser vista ao analisarmos a partir da perspectiva da obra de Huntington, podem ser sentidos em vários aspectos da vida judaica como, por exemplo: casamento, conversão, como pensar Israel etc.
O quadro abaixo ajuda a responder se o judaísmo é um modo de vida ocidental ou oriental com base na obra Psicologia da Religião de Jung. Ele foi feito pela professora Brenda de Castro, que ministra a disciplina de Cultura e Civilização para os alunos de Relações Internacionais da Universidade da Amazônia com base no livro de Jung.
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Na categoria “Espírito”, o judaísmo pode ser tanto ocidental quanto oriental. No judaísmo existe um grande incentivo ao conhecimento tanto secular quanto religioso como uma forma de enriquecer o indivíduo e deixa-lo mais próximo de D’us. Em um comentário, Rashi afirma que uma pessoa é virtuosa quando prática alguns coisas, entre elas: visitar o enfermo, receber bem os estranhos, aprender Torah e ensinar aos seus filhos. O judaísmo pode ou não entrar em conflito com a ciência, depende do quão literal um judeu considere ser a Torah, um exemplo disso pode ser a leitura da criação de tudo no Genesis. Os judeus ultra-ortodoxos sem dúvida tem uma leitura literal da Torah nesse ponto, enquanto judeus reformistas poderiam estar mais propensos a não fazerem uma leitura literal, buscando explicações na ciência, entre elas a Teoria da Evolução. Alguns grupos judaico no meio da caminho entre esses dois extremos poderiam dizer que a leitura da Torah no que diz respeito a criação do mundo não é literal, podendo ser lida como uma metáfora, de forma que você pode pensar na Teoria do Big Bang e na Teoria da Evolução como uma forma complementar de se pensar a formação da existência ou uma outra maneira de explicar o que a Torah também tenta explicar.
        


Na categoria “Homem”. No judaísmo o homem é pequeno perante D’us. Um dos nomes de D’us é Eterno, certamente você e eu, enquanto seres humanos, somos pequenos perante a eternidade. Ao mesmo tempo, no judaísmo, o homem foi criado à imagem e semelhança do Eterno, não em termos físicos, não no sentido de que fomos criados com base na forma física de D’us, porque no judaísmo, D’us não tem forma, fomos criados à forma de D’us no sentido de que temos a capacidade de criar bem como HaShem. Por isso, um judeu deve se ocupar em criar e concertar o mundo (Tikun Olam) ao seu redor. Logo, nessa categoria o judaísmo é certamente ocidental (e apenas talvez oriental?).

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Na categoria “Psique”. Rambam afirmava que tão importante quanto o estudo da torah, era o trabalho, pois aquele que decide apenas estudar a Torah e não trabalhar, vivendo de Tzedakah incorrerá em Hillul HaShem (degrada o nome de D’us e a Torah, e trará mal sobre si mesmo), logo o mundo material é muito importante. E a psique é uma condição importante e que deve ser constantemente desenvolvida no judaísmo, um dos exemplos mais simples disso esta no estudo do Talmud. O Talmud, também chamado de Lei Oral, não é lido, mas sim é debatido entre os estudantes para o melhor entendimento da prática judaica, em tais debates um aluno tenta “ganhar” do argumento do outro e para isso é necessário que um tente arduamente entender como o outro pensar. A Torah afirma que “o homem são as expectativas do coração, mas do Eterno são as repostas da língua”. Nessa categoria o judaísmo é tão ocidental quanto oriental.
Na categoria “Temperamento” e “Eu” são as que mais me chamaram atenção, pois o judaísmo é como uma corda, de um lado puxada pelos anseios, pela história, pelas idiossincrasias e necessidades da comunidade e de outro lado, puxado pelo indivíduo com os sonhos, aspirações, ideias e modo de vida do seu tempo e de suas realidade. É o eterno conflito entre o “eu” e algo além de mim, maior e tanto importante quanto “eu”. É a divisão entre o coletivo, com necessidades e ideias coletivistas, e o indivíduo que aspira viver a sua liberdade individual e ter sua privacidade respeitada. É o desejo da comunidade de casar judeus com judeus de dentro da sua comunidade e a condição doentia e avassaladora a qual todos estamos condicionados, o amor, que não escolhe, apenas nos move nos tortuosos caminhos do desejo.
O judaísmo é ocidental e oriental.

Fonte:http://avigayillobato.com/

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