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Israel um paraíso científico
21/09/15 Posted by Coisas Judaicas

Israel um paraíso científico
Israel, um paraíso científico em situação excepcional.

É preciso falar alto com Aaron Ciechanover. O cientista israelense conta que ficou meio surdo por causa de uma intensa explosão durante a guerra do Yom Kippur, em 1973. 
Quando o Egito e a Síria atacaram seu país, ele prestava o serviço militar como médico de campanha do Exército de Israel e, com apenas 25 anos e sob circunstâncias imprevisíveis, assumiu a responsabilidade de tratar os colegas feridos. Admite que viu pouco sangue, mas aprendeu muito. Passou os três anos seguintes desenvolvendo equipamentos médicos para atender soldados no campo de batalha, e considera que seu tempo nas Forças de Defesa de Israel foi a melhor escola para a aplicação da ciência na vida real. Não só isso. Segundo o Nobel de Química de 2004, aquela experiência lhe serviu para “conhecer o melhor da sociedade israelense”. “Lá você entra em contato com cidadãos que vêm de todos os lugares e de todas as condições e aprende a trabalhar em equipe, a ser solidário e a pensar no seu vizinho”, prossegue.
O louvor de Ciechanover às Forças Armadas e ao papel que desempenharam na sua formação e carreira poderia chamar a atenção nos âmbitos acadêmicos fora de Israel, mas são habituais neste país. Aliás, isso é visto como parte da receita do sucesso para uma nação de oito milhões de habitantes e uma capacidade científico-tecnológica muito superior ao seu tamanho. Nos últimos sete anos, Israel obteve mais ajuda do Conselho de Europeu de Pesquisas para projetos competitivos do que Itália, Espanha e Suécia, e a Universidade Hebraica de Jerusalém (UHJ) pode se gabar de ter oito prêmios Nobel e um medalhista Fields de Matemática. Israel é, além disso, o país do mundo com mais companhias emergentes de alta tecnologia per capita.
Israel um paraíso científico
Aaron Ciechanover, prêmio Nobel de Química de 2004. / TECHNION
Na semana passada, a Conferência Mundial de Ciências de Israel, promovida pela UHJ, serviu para mostrar ao mundo o sucesso do país e sua paixão pela ciência. O evento reuniu 15 prêmios Nobel, colocando-os em contato com jovens estudantes destacados de diversos países. Durante a abertura da conferência, o ex-presidente israelense Shimon Peres afirmou que “a ciência é mais importante que a política”, uma declaração que qualquer político poderia fazer, mas que soa menos vazia num país que investe quase 4% de seu PIB em pesquisa e desenvolvimento (a Espanha, para efeito de comparação, investe 1,3%). Durante uma semana, jornalistas de meio mundo (inclusive do EL PAÍS) foram convidados a participar de um intenso programa de visitas a centros de pesquisa e a empresas tecnológicas.
Empreendedores destacam a importância do serviço militar obrigatório
Em Beerseba, no deserto do Neguev, fica um dos polos tecnológicos do país, a Universidade Ben-Gurion, que leva o nome do primeiro-ministro que a concebeu com a intenção de fomentar o desenvolvimento no sul de Israel. De lá saem 50% dos engenheiros do país. Neste lugar, onde o calor de agosto golpeia como um porrete, estão surgindo algumas das empresas que prometem as soluções mais inovadoras para os problemas de segurança digital do mundo. Na sede da JVP Cyber Labs, uma incubadora com apoio estatal que se dedica a identificar e apoiar esse tipo de empresa em seus primeiros passos, fica a SCADAfence. Yoni Shohet, que dirige a empresa, comenta os riscos do mundo ultraconectado para as grandes indústrias. Cita como exemplo o ataque a uma usina metalúrgica na Alemanha, no final de 2014. Naquela ocasião, os hackers conseguiram invadir os sistemas de controle da instalação e provocaram uma falha num alto forno, causando graves danos. Outro caso clássico citado por Shohet é o ataque do vírus Stuxnet, que foi concebido para infectar sistemas de controle industriais e destruiu até 20% das centrífugas iranianas de enriquecimento de urânio. Antes de chegar à SCADAfence, o atual diretor foi capitão de uma unidade tecnológica de elite do Exército israelense, cujo nome ele não pode revelar. Pessoas como Edward Snowden atribuem a unidades desse tipo a elaboração do código que o Stuxnet executou. Shohet assegura que sua companhia se dedica apenas a proteger contra ataques cibernéticos, não a criá-los.
A experiência no Exército é crucial para muitos empreendedores israelenses. O serviço militar, que é obrigatório e dura três anos para homens e dois para mulheres, é parte fundamental da vida de grande parte dos jovens do país. Como relatam Dan Senor e Saul Singer no livro Start-Up Nation, que busca explicar as bases do sucesso israelense, o Exército tem o poder de escolher os mais capacitados para determinadas habilidades técnicas, destinando-os a unidades de inteligência como a que Shohet liderou. Lá, os militares recebem uma formação específica e se deparam com um ambiente de conflito no qual devem aplicar seus conhecimentos para produzir soluções sob grande estresse, às vezes em situações de vida ou morte. O Exército assim se transforma em um lugar radical de aprendizagem, onde, além do mais, os israelenses forjam fortes vínculos para toda a vida. Esses vínculos depois são transformados numa vasta e estreita rede de contatos em que os futuros empreendedores se apoiam.
O nível de pobreza no país, de 21%, é o maior do mundo desenvolvido, segundo a OCDE
Apesar desses feitos, o nível de pobreza no país é de 21%, o maior entre os países desenvolvidos, segundo a OCDE. Esses pobres são, em grande parte, os cidadãos que não são convocados para o serviço militar, principalmente os árabes israelenses e os judeus ultraortodoxos. Apesar de alguns árabes obterem diplomas de engenharia, poucos conseguem encontrar trabalhos compatíveis com a sua formação, segundo Senor e Singer.

Aprender é importante

Os israelenses se gabam da sua capacidade de se sobrepor às dificuldades. O terreno conquistado no deserto, a capacidade de desperdiçar menos água do que qualquer outro povo no mundo e a fábrica de microchips da Intel em Tel Aviv incrementando sua produção sob os mísseis de Sadam Hussein durante a Guerra do Golfo são exemplos de vitórias contra a adversidade. Na ciência pura, os judeus também consideram que seus feitos decorrem em parte das penúrias vividas como povo. Ada Yonath, Nobel de Química de 2009, que também participou do encontro de Jerusalém, buscava explicar numa entrevista por que quase 30% de todos os prêmios Nobel da história são judeus. “Havia muitas profissões proibidas para eles, uma das poucas que lhes restavam era a ciência, e assim estudaram para serem médicos, músicos ou cientistas. A ideia de que aprender é importante, de que está na raiz, continua vigente”.
Israel um paraíso científico
O acelerador de partículas do Instituto Weizmann, em Rehovot, Israel. / DAVID SHANKBONE
Yonath trabalha no Instituto Weizmann, em Rehovot, 20 quilômetros ao sul de Tel Aviv. Em seu campus funcionam 250 grupos de pesquisa, e a instituição recebe o equivalente a 1,4 bilhão de reais por ano “para pensar com liberdade e sem nenhum objetivo prático”, segundo seu reitor, o físico Daniel Zajfman. Num mundo onde cada vez mais se enfatiza a necessidade de transformar o conhecimento científico em aplicações práticas, Zajfman é um herege. “Nosso trabalho é transformar o dinheiro em conhecimento e formar os melhores cientistas de Israel para o futuro”, afirma. “Não acredito que a indústria e a academia devam se misturar, porque, se isso acontece, no final ficam os acadêmicos a serviço da indústria e perde-se a visão de longo prazo”, prossegue. Essa liberdade, que os pesquisadores também devem a um Governo que valoriza a ciência, lhes permite ter planos de 30 anos que afinal dão resultados. “As licenças de conhecimento transferido do Instituto Weizmann já geraram 30 bilhões de dólares (107 bilhões de reais)”, informa ele, ressalvando que “isso é bom, mas não é nosso objetivo”.
Quase 30% de todos os ganhadores do Nobel são de origem judaica
O Instituto Weizmann revela uma peculiaridade que pode ter algo a ver com o sucesso científico do país e dos judeus em geral. Diferentemente de instituições científicas de primeiro nível em outros países, os cientistas do centro de pesquisas de Rehovot são fundamentalmente israelenses e judeus. “Não é fácil atrair talento internacional para Israel”, admite Zajfman. Entretanto, o país se beneficiou de sucessivas ondas migratórias que compuseram uma sociedade com uma identidade forte, mas que ao mesmo tempo inclui mais de 70 nacionalidades que a enriquecem com sua diversidade. “Para a ciência, é muito importante olhar para o mesmo problema de pontos de vista diferentes”, afirma o reitor do Weizmann.
A chegada mais proveitosa de imigrantes para a ciência e a tecnologia do país foi a de mais de 1,5 milhão de judeus russos que ali chegaram depois da queda do muro de Berlim, em 1989. Com uma alta porcentagem de engenheiros, médicos e cientistas, esses imigrantes trouxeram um importante impulso para a ciência e a tecnologia israelenses. Considerando a relevância adquirida por esse multiculturalismo para a ciência, Zajfman, que nasceu em Bruxelas (Bélgica), mostra preocupação com o futuro: "Vamos perder esse valor nos próximos anos, pois seremos todos apenas israelenses”, lamenta.
Um grande polo tecnológico foi construído em Beerseba, no deserto do Neguev
Pouco depois de deixar o reitor do Weizmann, no novo centro de medicina personalizada do instituto, sua diretora, Berta Strulovici, deu um exemplo de outro valor judaico e israelense que pode explicar os seus feitos. Depois de desdenhar a aparente ausência de preocupação por parte de Zajfman quanto à aplicação dos conhecimentos do centro de pesquisas que preside, Strulovici afirmou que muitos cientistas do Weizmann criaram suas próprias empresas, ganhando muito dinheiro com elas. O centro dirigido por ela tem como uma clara vocação a de transmitir os seus avanços aos pacientes, contando com um departamento dedicado a pesquisar novos medicamentos. A naturalidade com que ela expôs a um jornalista a sua divergência com seu diretor é parte daquilo que muitos consideram como uma das características judaicas. Hanoch Gutfreund, diretor do Centro Einstein da UHJ, onde se preserva o legado intelectual do físico alemão, acredita que esse fator foi determinante para o descobrimento da Teoria da Relatividade. Albert Einstein, um dos fundadores da Universidade Hebraica de Jerusalém, revolucionou a ciência moderna graças à sua ousadia em se contrapor aos grandes físicos de sua época, para os quais a contribuição de sua ciência já estava praticamente finalizada. EmStart-Up Nation, Shimon Peres afirma que “a maior contribuição do povo judeu para a história é a insatisfação”. “Isso é ruim para a política, mas bom para a ciência”, conclui.
Essa queda para a insatisfação não se mostrou tão evidente na conferência científica de Jerusalém, mas foi expressa por representantes importantes do meio acadêmico e empresarial de Israel. Alguns grandes empreendedores israelenses fizeram pressão favorável à busca de uma solução para o conflito com os palestinos. Yossi Vardi, o guru das empresas de tecnologia, reivindicou que se encontre uma saída para os enfrentamentos e que se efetive um esforço no sentido de uma melhor integração das comunidades carentes. Depois disso, poderão ser estudados outros caminhos para que os jovens israelenses continuem a aprimorar suas habilidades e sua solidariedade sem ter de ferir seus vizinhos nem se expor aos perigos que levaram Ciechanover a ter comprometida boa parte de sua audição.

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