Coisas Judaicas : Tensão x tranquilidade no serviço Divino
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Tensão x tranquilidade no serviço Divino
09/06/15 Posted by Coisas Judaicas

 Tensão x tranquilidade no serviço Divino

1. Feliz é aquele que teme sempre
Durante a última geração, várias doutrinas originárias do Oriente penetraram no mundo Ocidental. O moderno homem ocidental vive em grande tensão. Sob a influência de ensinamentos orientais, muitos começaram a advogar que se deve buscar uma vida de tranquilidade e meditação. Alguns veem nisto o ideal da redenção – a habilidade de alcançar a tranquilidade interna.
Nutro reservas fundamentais em relação a este ponto de vista. Há, certamente, pessoas que em determinados momentos de sua vida sentem tensão excessiva; precisam de ajuda para reduzir seus níveis de tensão. Mas, transformar a tranquilidade num meio de vida é um desencaminhamento, sob vários sentidos. Antes de tudo, esta forma de encarar a vida é capaz de frear o impulso de uma pessoa que busca avanços e desenvolvimento. Há, certamente, uma contradição entre a aspiração por tranquilidade e a ambição positiva que impele alguém a avançar e se desenvolver. Em segundo lugar, dirigir a vida somente para a busca da tranquilidade interna envolve egoísmo, porque isto, em geral, tem como componente o desprezo pelos problemas e necessidades da sociedade.
Eu me dissocio especialmente deste approach quando é aplicado em relação ao serviço Divino. O Talmud, no Tratado de Kidushin 31a, afirma:
“Mais valor tem aquele a quem é ordenado e cumpre (as mitsvót) do que o que não é ordenado e contudo cumpre (as mitsvót).”
Os Tossafot (ad. loc. “gadol”) explicam:
“Parece que a razão pela qual o que é ordenado a cumprir (mitsvót) é melhor, é que ele se preocupa mais e se aflige mais pensando que talvez vá violar (a mitsvá), do que aquele que não recebeu o mandamento e já tem seu pão em sua cesta, porque se quiser pode abandonar a mitsvá.”
De acordo com os Tossafot, aquele que é obrigado a cumprir a mitsvá é preferível por causa de seu elevado interesse no cumprimento adequado. Aquele que não está obrigado, mas deseja cumpri-la, não experimenta a mesma tensão em relação ao cumprimento. Isto indica que o valor da vida religiosa é acompanhado por uma tensão positiva.
Em outra parte, o Talmud (Tratado de Berachót 60a) afirma:
“Feliz daquele que sempre teme” (Provérbios 28:14) – isto se refere a assuntos de (estudo da) Torá.
Aquele que se engaja no estudo da Torá vive em constante temor de que talvez seu estudo seja inadequado. O Rashi explica que ele tem medo “de que possa esquecer (o que já aprendeu) e por isto revê constantemente (o material estudado)”. Este versículo, porém, não se refere somente ao estudo da Torá, mas serve como um guia geral para a vida. O Talmud, no Tratado de Guitin 55b, dá início à narrativa da história de Camtsa e Bar Camtsa, com o mesmo versículo. O Rashi comenta: “Feliz daquele que sempre teme’ – (se referindo) àquele que se preocupa pensando sobre as consequências, de modo que nenhum percalço venha a acontecer”. Isto é, uma pessoa deve sempre avaliar suas ações, não somente de acordo com seus sentimentos naquele momento específico, mas também levando em conta a previsão de eventos futuros.
Baseado neste princípio, o Rabino Moshe Chaim Luzzatto escreve em seu livro “O Caminho dos Justos” (capítulo 9):
“Entretanto, a pessoa precisa compreender que não foi posta neste mundo para ter sossego, mas sim para labutar e se esforçar. Ela se deve comportar como os operários que trabalham para seus empregadores... e como os soldados numa campanha militar, que comem com pressa, dormem irregularmente e se mantêm sempre prontos para o momento da batalha. A Escritura diz a este respeito: ‘Pois o homem nasceu para labutar’ (Jó 5:7)”
Espera-se que um judeu trabalhe duramente por toda a sua vida; descanso e tranquilidade em nada contribuem para a realização de seus objetivos espirituais. O Talmud afirma (Tratado de Berachót 64a):
“Os estudiosos e sábios da Torá não têm descanso, ‘nem neste mundo nem no Mundo Vindoruo’. Como está escrito nos Salmos (84:8) ‘Eles se fortalecerão continuamente e apresentar-se-ão perante Deus em Tsión’.”
Baseando-se num midrash, o Rashi escreve em seu comentário à Torá (Gênesis 37:2):
“Jacó queria viver tranquilo, mas o drama de José subitamente desabou sobre ele. Quando o justo quer viver tranquilamente, o Santíssimo lhe diz: ‘Os íntegros não se satisfazem com o que está guardado para eles no Mundo Vindouro e querem também viver tranquilamente neste mundo?’“
Sefat Emet explica (Parashat Vaieshev, 56:36):
“Certamente Jacó não queria viver tranquilo antes de alcançar a perfeição... Mas o Eterno deseja que o judeu se empenhe continuamente em ampliar seu serviço Divino, pois para isto não há limite.”
Aspirar por tranquilidade é apropriado somente no Mundo Vindouro ou, então, para alguém que já atingiu total perfeição, como o Patriarca Jacó. Neste mundo, entretanto, tranquilidade e serviço Divino são irreconciliáveis.
O versículo dos Salmos (73:12) afirma: “Eis que os ímpios em tranquilidade acumulam suas riquezas”. Aqueles que estão “sempre tranquilos” são associados aos ímpios, exatamente porque vivem tranquilos, não experimentando qualquer tensão. Um judeu deve sempre aspirar a avançar e a se desenvolver, e aquele a quem falta esta aspiração é considerado um ímpio. Este é o significado da Guemará no Tratado de Berachót 55b: “Se alguém passa sete dias sem um sonho, ele é considerado um malévolo”. O sonho representa as aspirações da pessoa de se desenvolver. Alguém que permite que se passem sete dias sem ter tido tal aspiração é considerado um malévolo.

2. Os que se perderam na Assíria e os dispersos no Egito
Em sua análise do versículo “E nesse dia será tocado um grande Shofar, que atrairá os que se perderam na terra da Assíria e os que foram dispersos pela terra do Egito, e virão adorar o Eterno no sagrado monte de Jerusalém” (Isaías 27:13), o Rabino Tsadoc Hacohen de Lublin (Reisê Laila nº 35) faz uma distinção entre os que se perderam na terra da Assíria e os que foram dispersos na terra do Egito:
“(O versículo) se refere a duas formas pelas quais uma pessoa fica absorta no poder da imaginação (em vez da razão).
A primeira forma (representada pelos que se perderam na terra da Assíria) é aquela na qual uma pessoa se imerge numa constante busca por coisas materiais, como por exemplo, riqueza (ou a satisfação de outros desejos), buscando alcançar posições de autoridade e honra, totalmente envolvida pela competição e pela inveja, ao ponto de seu coração estar tão ansioso que não consegue, de forma alguma, se lembrar do Eterno. Tal pessoa é considerada ‘perdida’, Deus não permita, quando alcança o limite da imersão (nestes assuntos). Esta é a ideia da Assíria, cujo líder, Senaqueribe, queria abarcar o mundo inteiro, dedicando a isto intensos esforços por todos os dias de sua vida, nunca se detendo, como se não pudesse, sequer, perder tempo dormindo.
Embora isto seja tão ruim, a ponto de uma pessoa que assim se comporta ser considerada como totalmente perdida, pode vir a se tornar uma coisa boa desde que ela esteja imersa em labuta e preocupação, e não em sonhos e preguiça... Naquele dia, transformando o seu ‘hoje’, haverá um toque de shofar tão intenso que será ouvido por esta pessoa e a fará despertar. Esta pessoa chegará primeiro porque sua imersão (em assuntos caracterizados como imaginários) se transformará quando for acordada numa labuta em busca do Eterno, e então, por causa do (poder) de sua busca, chegará primeiro.”
Embora enfrente o perigo de perder sua identidade, aquele que busca ganhos mundanos, ainda está num nível mais elevado do que o que está imerso em pura preguiça:
“Virão depois os ‘dispersos’ (nas terras do Egito), aquelas pessoas preguiçosas que estão imersas em futilidade, insignificância e presunção. Esta é a ideia associada ao Egito, que é chamada de ‘a nudez da terra’ (Gênesis 42:12). A terra representa a capacidade de trabalhar, como é dito em relação ao trabalho na terra, ‘A importância da terra se estende a tudo, e mesmo o rei dela depende’ (Eclesiastes 5:8), porque este é o trabalho primário do homem neste mundo... ‘A nudez da terra’ se refere aos jardins, isto é, terra que não necessita de trabalho, porque o Nilo sobe (periodicamente) e a irriga (por sua própria conta). Não é este o caso na terra de Israel, esta ‘É a terra que o Eterno, teu Deus, cuida dela’ (Deuteronômio 11:12) que ‘das chuva dos céus tem água’ (ibid. vers. 11) e que requer trabalho, preces e a confiança no Eterno, e em relação a qual uma pessoa não pode se imergir em tranquilidade. Esta é a essência da santidade da terra, não imergir em tranquilidade imaginária, mas saber que ela exige esforço e que o homem nasceu para trabalhar.”
A única característica da terra do Egito é a indolência, que permite à pessoa viver no ócio e se sustentar sem esforço. O contraste com a terra de Israel é que, por sua natureza, ela educa para o trabalho e o esforço. Um esforço maior é requerido para redimir “os dispersos nas terras do Egito”, precisamente porque eles se acostumaram a uma vida de tranquilidade, isenta de esforços.

3. O poder de Esaú
A Torá nos conta: “E Isaac gostava de Esaú, porque comia de sua caça, e Rebeca amava a Jacob” (Gênesis 25:28). Parece óbvio que o amor de Isaac por Esaú provinha do fato de que reconhecia a força pratica de Esaú, o notável vigor de suas ações e pensava que tal poder seria necessário para fundar o povo de Israel. O Rabino Tsadoc Hacohen (Reisê Laila nº 52; Or Zarua Latsadic, nº 5) cita a opinião do Ari, de que Isaac enxergava a potência latente de Esaú, aquela potência que faria surgir o Rabi Meir, (segundo o Talmud, no Tratado de Guitin 56a, ele era descendente do imperador romano Nero), um dos pilares da Mishnáe da Lei Oral.
De fato, o Rabi Meir era caracterizado pela habilidade de encontrar raízes positivas em todos os fenômenos (Bereshit Rabá,9:5):
“Encontraram escritas na Torá do Rabi Meir as seguintes palavras: E eis que era muito (meod) bom (Genesis 1:31): E eis que a morte (mavet) é boa.”
O Rabi Meir viu os elementos positivos da morte. Outra manifestação de sua atitude é encontrada num midrash (Bereshit Rabá 20:12):
“’E o Eterno Deus fez para o homem e para sua mulher túnicas de pele (‘or’, com a letra áin) e os fez vestir’ (Gênesis 3:21). Na Torá do Rabi Meir encontraram escrito ‘túnicas de luz’ (‘or’, com a letra alef).”
Peles representam aparências externas, mas o Rabi Meir nelas viu a luz interna. Esta era também a forma pela qual se comportava o Rabi Meir em seus estudos. Quando estudava sob a orientação de Elisha ben Abuia, que se tornou um herege, conta-se que (Tratado de Chaguigá 15b):
“O Rabi Meir encontrou uma romã. Comeu a parte interna e jogou fora a casca.”
A grandeza do Rabi Meir se expressava em sua habilidade de encontrar pontos positivos em todas as coisas. Da mesma forma, o patriarca Isaac sabia como encontrar o aspecto positivo de Esaú – sua força e suas atividades práticas – que levaram o Rabi Meir a desempenhar um papel central na transmissão da Lei Oral.

4. O cuidado necessário para com o excesso de tensão
Apesar da importância da tensão na vida, a pessoa deve se guardar da tensão excessiva e da ansiedade em seu serviço Divino. (Em relação ao perigo do extremismo, na direção oposta, ver o Capítulo 1). Assim como em qualquer outro aspecto da vida, também na observância de mitsvót, o exagero é encarado como algo anormal. Isto contrasta com o ponto de vista prevalente que compara meticulosidade excessiva com o temor aos Céus. O Rambam, em sua obra Shemoná Perakim (capítulo 4), observa que a pessoa deveria procurar alcançar o nível em que poderia com facilidade adotar a regra de ouro em todos os aspectos de seu caráter, em vez de precisar lutar constantemente com suas inclinações básicas. A ansiedade excessiva e a suspeita contínua podem conduzir a uma paralisação total. Também aqui a pessoa deve procurar o equilíbrio adequado.

Extraído do livro Valores Judaicos no Mundo em Transição, de Yehuda Amital.

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