Coisas Judaicas : Parashá Toledot
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Parashá Toledot
16/06/15 Posted by Coisas Judaicas

Do livro "Reflexões sobre a Torá" do Rabino Moshe Grylak



Gênesis 25:19–28:9

VIRTUDE EM CONTRAPARTIDA À VIRTUDE

O foco deste comentário está na trapaça feita por Jacó, o qual lançou mão de artifícios astuciosos para receber as bênçãos que eram destinadas a Esaú, o filho primogênito.

Vemos que Jacó reluta em participar da trama idealizada por sua mãe Rebeca, apesar da iminente necessidade e da insistência de Isaac em abençoar a Esaú, o qual, embora primogênito, não era merecedor da herança. Jacó se sente desconfortável ao entrar na tenda de seu pai cego, vestindo as roupas de Esaú e cheirando ao campo, para declarar: "Eu sou Esaú, teu primogênito" (Gênesis 27:19). Nossos sábios nos ensinam que Jacó rendeu-se à vontade de sua mãe contra a ordem de sua consciência, executando sua missão "obrigado, submisso e choroso" (Midrash Bereshit Rabá 65:29).

E mesmo assim, Jacó, justo ele, teve de pagar um preço pessoal elevado por este ato. Foi condenado a trabalhar penosamente na casa de Labão, onde foi humilhado e enganado sistematicamente durante longos anos. Mas é justamente nesta evolução na vida de Jacó que está a importante e interessante lição deste comentário. A mensagem aqui presente nos permite entender o conceito bíblico de "virtude em contrapartida à virtude" (midá kenegued midá) – um mesmo critério.

A luta entre Jacó e Esaú iniciou-se antes mesmo de seu nascimento. Ainda durante sua gravidez, Rebeca sentia que nem tudo corria como esperado. Os gêmeos que carregava em seu ventre davam sinais de atividade exagerada: "E lutaram os filhos em seu ventre" (Gênesis 25:22). Como já sabemos, a Bíblia não descreveria problemas de parto ou gravidez desnecessariamente. Está clara a intenção de nos transmitir e realçar a profundidade dos contrastes e contradições entre os irmãos, assim como a impossibilidade da união espiritual entre eles. Este é o abismo que é expresso no seguinte comentário:

"E lutaram: Nossos Sábios disseram que a palavra "Vayitrotsetsu" (e lutaram) origina-se da palavra "ritsá" (corrida). Ou seja, quando passavam na porta da tenda de Shem, (o filho de Noé que ensinava os caminhos de Deus), Jacó corria para tentar sair do ventre. Ao passarem diante da porta da tenda de idólatras, Esaú tentava sair."

Rashi, em nome do Midrash
Rebeca percebeu o significado espiritual do confronto que se desenrolava em seu ventre:
"...e foi consultar o Eterno. E disse-lhe o Eterno: Duas nações há em teu
ventre, e dois reinos de tuas entranhas se dividirão."

Gênesis 25:22-23

Duas nações, duas entidades antagônicas, provenientes de esferas espirituais distintas, que convivem no mesmo ventre. Elas anunciam o nascimento de duas culturas que lutarão eternamente pela primogenitura no mundo. É o conflito entre o mundo proveniente de Jacó, seguidor do caminho de Abraão (simbolizado em seu ápice pelo judaísmo em seu sentido amplo) e o mundo originário de Esaú, o mundo materialista e concreto, simbolizado pela cultura greco-romana e por suas derivações.

O texto bíblico, como se poderia imaginar, simpatiza-se por Jacó, pois ele é digno de herdar a seu pai. Ele carregará honradamente a pira da verdade de Abraão. É ele o merecedor das bênçãos que Isaac herdou de seu pai, e não Esaú, o "perito caçador, homem do campo" (Gênesis 25:27). Pois lá, nos campos onde Esaú vive, reinam outras leis, diferentes das leis herdadas de Abraão.
Apesar de toda esta simpatia; apesar de Isaac — após tomar conhecimento de seu engano — abençoar Jacó conscientemente através das palavras "Também será bendito." (Gênesis 27:33), confirmando assim a atitude de Rebeca, a qual levou Jacó a realizar esta trapaça; apesar de tudo isto, a Bíblia não perdoa Jacó pela trapaça que praticou.
Citemos alguns versículos que permitem que nos aprofundemos nos acontecimentos:

"Eu sou Esaú, teu primogênito"
Gênesis 27:19, Esaú a Isaac
"Por isto é que chamou seu nome Jacó, pois enganou-me"
Gênesis 27:36, Esaú a Isaac
"Por que me enganaste?"
Gênesis 29:26, Jacó a Labão
"E mudou meu preço dez vezes"
Gênesis 3l:7, Jacó a suas esposas, sobre Labão
"E disse: Não, Jacó não será mais teu nome"
Gênesis 32:28, o anjo a Jacó
"Toma, rogo, o meu presente"

Gênesis 33:11, Jacó a Esaú

Cada um dos versículos descreve algum momento da vida de Jacó, aparentemente sem ligações entre si. Mas uma verdade intrínseca os unifica em uma única história com um novo sentido. O conceito de "virtude em contrapartida à virtude" precisa ser esclarecido.

Se tentarmos acompanhar a fuga de Jacó para Padan Aram (tentando escapar da ira de seu irmão), descobriremos que o ato da trapaça, apesar de uma decorrência das circunstâncias, tomou-se um obstáculo para Jacó. Este ato o perseguiu implacavelmente por anos a fio. Estes foram anos que o ensinaram que a justiça Divina não pode desconsiderar uma falta cometida. Mesmo que o objetivo seja importante e justo, se ele exigir que uma injustiça seja cometida contra terceiros, esta injustiça deve ser penitenciada. O conceito de que os fins justificam os meios não é aceito pela Bíblia. Não restam dúvidas de que Jacó era merecedor das bênçãos de seu pai, mas o preço das lágrimas e da dor de Esaú tinha que ser pago. E em se tratando de Jacó, um dos patriarcas cujos atos determinariam a imagem que teriam as gerações vindouras, ele deveria expiar suas falhas até a purificação total, eliminando qualquer mancha que pudesse existir em sua conduta moral. Por causa deste seu papel especial, Jacó deveria passar por uma grande quantidade de tormentos para expiar suas falhas.

E por este motivo que Jacó deveria sentir em sua própria pele o gosto amargo da fraude. Assim, ao perguntar a seu sogro Labão (o qual lhe entregou como esposa sua filha Léa ao invés de Rachel, não respeitando o que havia sido combinado) "porque me enganaste?", Jacó recordou-se do episódio da benção, o qual também continha resíduos de fraude. Também a resposta cínica de Labão: "Não se faz assim em nosso lugar, dar a menor antes da maior" (Gênesis 29:26) fez com que Jacó se recordasse do ocorrido na casa de seu pai, como se Labão quisesse dizer que em outros lugares, na casa de Abraão, por exemplo, o menor antecedia o maior. A esta resposta de Labão, nossos sábios acrescentaram um comentário:

"Mas tu não enganaste a teu pai... e me perguntas por que te enganei? Ora, acaso teu pai não disse: 'veio teu irmão com esperteza'?"

Bereshit Rabá

Neste momento, Jacó experimentou pela primeira vez o gosto amargo da trapaça que havia sentido Esaú, o perverso, quando as bênçãos lhe foram tomadas.
Mas isto não foi o suficiente para a expiação de Jacó, o justo. A trapaça na casa de seu pai havia durado não mais que alguns momentos, mas ele pagou por ela nos vinte anos de sua vida em que permaneceu na casa de Labão, o sogro "honrado" que o trapaceou seguidamente, mudando dez vezes o acerto combinado.
Foram estes anos que prepararam Jacó a enfrentar o anjo misterioso, que o atacou no meio da noite (Gênesis 32:24), e a exigir-lhe:

"Como és o anjo de Esaú, não te largarei até que me perdoes pela bênção que me foi dada por meu pai. Disse-lhe (o anjo): Quem reclamou de ti? E respondeu (Jacó): Pois disse-me Esaú: 'Por isso é que chamou seu nome Jacó, pois enganou-me (em hebraico "iaacvêni", do mesmo radical que "iaacov"— Jacó) duas vezes".

Midrash Agada

Este comentário nos mostra que Jacó acabou por reconhecer que devia pedir o perdão de seu irmão. Não pelas bênçãos que lhe tomou, mas pelo sofrimento que lhe causou. As fraudes das quais fora vítima na casa de Labão fizeram com que seu coração generoso e sensível percebesse toda a intensidade da dor que seu irmão havia sentido quando as bênçãos do pai lhe foram tomadas.
Esta é a característica do conceito bíblico de "virtude em contrapartida à virtude" o qual não almeja castigar, mas educar o homem, esclarecendo-lhe através de sua experiência pessoal as conseqüências de seus ato, colocando o homem em uma situação tal que possa vivenciar a experiência amarga infligida ao seu próximo. Assim, e apenas assim, ele poderá compreender a profundidade da injustiça cometida. Apenas desse modo ele poderá se arrepender sinceramente, mesmo de suas faltas menores.

E Jacó conseguiu ouvir a resposta que ansiava do anjo de Esaú:

"Jacó não mais será teu nome" (Gênesis 32:28) — "Pois não será mais dito que as bênçãos foram dadas a ti por haveres ludibriado e trapaceado."

Rashi, em nome do Midrash

Assim , Jacó ficou sabendo que a sombra que pairava sobre ele se desvanecia e que as bênçãos que obteve eram, a partir daquele momento, límpidas e imaculadas.

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