Coisas Judaicas : Dr. Pereira de Boston
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Dr. Pereira de Boston
14/04/15 Posted by Coisas Judaicas

 

Por Nissan Mindel
   
Don José Pereira estava entre o punhado de judeus sefaraditas que fugiram do Brasil quando o longo braço da Inquisição tornou insuportável a vida dos refugiados espanhóis e portugueses, até no Novo Mundo.

Em 1654 eles chegaram a Nova Amsterdã, como Nova York era chamada pelos holandeses na época. Porém suas esperanças de terem paz e uma oportunidade foram rudemente afastadas pela atitude mesquinha do governador holandês. Apesar das ordens recebidas da Holanda, ele recusou-se a tratar os judeus com justiça e não lhes deu o direito de praticarem suas profissões. José Pereira era um abastado ourives, cuja habilidade o tinha ajudado a estabelecer-se onde quer que fosse morar com sua grande família. Ele e sua família ficaram bastante desapontados quando, após esperarem várias semanas, ele não recebeu permissão de praticar seu ofício.

Pereira então decidiu viajar mais para o norte, onde ouvira dizer que havia mais liberdade. Porém, quando chegou a hora de embarcar num pequeno navio cargueiro que zarpava para Boston, sua esposa Rachel adoeceu, e José Pereira foi forçado a ficar, juntamente com seus filhos mais jovens. O filho mais velho, Isaac, que tinha aprendido a arte do pai e já era um mestre em trabalhos de prata, foi na frente com a esposa para tentar a sorte. Em pouco tempo, José Pereira estava estabelecido, sendo um dos membros fundadores da congregação sefaradita em Nova York, apenas um ano após ter deixado o Brasil.

Isaac Pereira muitas vezes desejou ter ficado com seu pai, cuja fama como artesão começou a se espalhar logo depois que, finalmente, teve permissão de abrir uma loja. Isaac, por outro lado, lutava para ganhar a vida e sustentar três filhos pequenos, nascidos nos primeiros três anos depois que ele se estabeleceu numa casa pequena nas redondezas de Boston. Não havia muita procura por objetos de prata fina entre os operários, artesãos e comerciantes entre os quais ele morava. Os ricos funcionários ingleses e os empresários bem-sucedidos importavam a prataria da Inglaterra. Então a sorte lhe sorriu.

A esposa do major inglês Hamilton passou por acaso pela sua loja enquanto se dirigia para sua casa em Hill. Seus olhos argutos descobriram algo na pequena vitrine da loja, um objeto que ela estava procurando há muito tempo, um par de graciosos castiçais. Ela fez o cocheiro dar meia volta e dirigiu-se à pequena loja. Para sua grande surpresa, o artesão judeu recusou-se a vender os candelabros a ela. "Eu os fiz para minha esposa, em homenagem ao nascimento de nosso primeiro filho, Jacob. No aniversário dele, os castiçais são colocados no lugar de honra lá em cima, e não há dinheiro no mundo que possa comprá-los, embora, para falar a verdade, um dinheirinho viria bem a calhar, agora. O que posso fazer é fundir um par ainda mais bonito para a senhora, e entregar em sua casa em duas semanas."

A princípio, Lady Hamilton ficou furiosa com esta firme recusa do artesão judeu de separar-se de seus castiçais. Porém seus modos educados, e acima de tudo a beleza do seu trabalho, fizeram-na mudar de ideia. "Voltarei exatamente em duas semanas. Veremos então, se não está apenas se gabando."

O produto do trabalho febril de Isaac Pereira foi ainda mais belo que Lady Hamilton tinha imaginado. Nenhum objeto que ela tivesse podia rivalizar com a graça e beleza dos candelabros, apesar da simplicidade de suas linhas. Pagou de bom grado o preço pedido pelo artesão pela sua obra. Dentro de poucas semanas muitos dos seus amigos ingleses, e membros ricos do governo, foram até a pequena loja de Isaac Pereira. Desde então, as taças, enfeites e bugigangas do artista sefaradita passaram a vender depressa e a bons preços, portanto Isaac Pereira logo pôde mudar-se para uma casa maior; empregou diversos aprendizes para ajudá-lo com o trabalho básico, e abriu uma grande loja no piso térreo.

Com o passar dos anos Isaac Pereira, agora um comerciante de sucesso, tornou-se respeitado e honrado pelo crescente número de judeus que tinham se estabelecido em Boston e seus subúrbios. Ele queria que seu filho Jacob fosse treinado cedo na profissão que tinha estado na família durante muitas gerações. Porém o jovem Yaacov não demonstrou interesse pelo trabalho com prata. Estava muito mais interessado no estudo dos livros hebraicos e nos textos médicos emprestados a ele por um vizinho que gostava do inteligente rapaz. Para tristeza de Isaac Pereira, seu filho mal prestava atenção aos detalhes da confecção de artigos em prata da loja. Com o passar dos meses, como a situação permanecesse a mesma. Isaac aceitou o fato de que o futuro de Jacob estava num campo diferente do seu. Na verdade, o rapaz queria estudar na Universidade de Salerno, e ao mesmo tempo ter a oportunidade de adquirir uma educação judaica completa.

No Novo Mundo, havia pouca chance para isso, apesar dos esforços de alguns judeus mais velhos para fundar uma escola, ou Cheder, para seus filhos. Jacob era muito inteligente e dedicado para se satisfazer com os esforços dos professores particulares que ensinavam aos filhos dos novos colonos os fundamentos do Judaísmo, hebraico e literatura hebraica.

Jacob Pereira passou quase dez anos em Salerno, onde estudou sob a orientação de um médico judeu que era também um famoso erudito, Quando Jacob estava pronto para voltar ao Novo Mundo, ele já tinha sido treinado em todas as fases do estudo médico e na pesquisa talmúdica. Sua alma jovem era inspirada pelos nobres ideais que o velho erudito nela tinha instilado.

Quando Jacob Pereira chegou ao porto de Nova York, sendo recebido por seus primos, netos de Don José Pereira, todos ourives e joalheiros, soube da luta pela liberdade que tinha começado, pois os britânicos se recusavam a fazer qualquer acordo que fosse favorável aos colonos. Jacob viu o rumo de sua vida mudar. Juntou-se imediatamente às forças esfarrapadas que tinham se reunido fora de Nova York, no estágio inicial da revolução, ao lado de seu primo José Pereira, um jovem e inflamado combatente. Havia poucos judeus entre os revolucionários, mas o jovem doutor foi bem recebido, porque havia poucos médicos treinados à disposição. José Pereira era especialista em balística. E assim os dois primos logo conquistaram o respeito dos soldados mal treinados e mal equipados de Nova York.

Quando George Washington mudou a defesa de Nova York em 1776, e lutou a batalha contra o exército de Howe, mais bem equipado e muito mais numeroso, o conhecimento que José Pereira tinha sobre todas as partes de Nova York provaram ser muito úteis. Assim que George Washington dividiu suas tropas e colocou a parte maior do outro lado do Rio East, em Brooklyn Heights, dois jovens oficiais pediram permissão para vê-lo no quartel general.

Como estava muito atarefado planejando sua difícil campanha contra o exército do General Howe, e preocupado pela ameaça da frota de Lord Howe, Washington a princípio recusou-se a recebê-los. Porém, com a recomendação do Major Schuyler, ele finalmente os atendeu. "Estes dois jovens judeus estão entre meus melhores ajudantes. Se eles desejam vê-lo, devem ter um bom motivo."

Assim José e Dr. Jacob Pereira apareceram perante Washington numa noite quente de agosto, quando o líder do exército americano estava sentado à sua mesa, curvado sobre grandes mapas da Ilha de Manhattan.

"Excelência" – disse o jovem José – "perdoe-me, mas creio que suas táticas podem levar a um desastre. Conheço bem o território nos dois lados do Rio East, e ouso dizer que embora nossas tropas tenham coragem e uma boa estratégia, são mal treinadas e mal equipadas. Portanto, não têm uma chance de derrotarem Howe que, segundo eu soube, está neste momento avançando diretamente para nossos homens." Vendo surgir a surpresa e a ira no rosto do general, Dr. Jacob Pereira deu um passo para trás.

"Sua Excelência, eu lhe peço, perdoe a crueza do meu primo, e não se volte contra ele. Em sua alma jovem e ansiosa existe um grande amor pelo seu novo país, que deu à nossa família um porto seguro e um refúgio, após termos sido caçados e perseguidos de um país a outro. É o temor pelas nossos soldados que o faz falar com tamanha audácia. Sua intenção é boa, e se me permite dizê-lo, ele sabe muito bem o que fala. Por favor, Senhor, escute o que ele diz e não dê atenção ao seu tom exaltado."

Os olhos cansados de Washington olharam de um para o outro dos rapazes. Sua ira diminuiu. "Se não fosse a sua juventude, e a boa recomendação do seu comandante, eu levaria os dois à corte marcial. É bom que me apresentem algum motivo sólido para suas palavras, caso contrário…"

Alguns minutos de discussão sobre os mapas com José Pereira convenceram o general de que o jovem tinha um entendimento da situação melhor até que seus conselheiros e oficiais. Com o coração apreensivo ele ouviu os argumentos dos jovens judeus contra a divisão de suas tropas. Porém já era muito tarde para revogar as ordens. Enquanto eles conversavam, chegaram os mensageiros com notícias da chegada das tropas de Howe, vindas de todos os lados de Long Island na direção de Brooklyn Heights.

"Venham comigo" – ordenou Washington aos dois jovens da família Pereira. "Eu gostaria que tivessem vindo aqui antes."

Poucas horas depois, tudo estava terminado. Como José Pereira tinha previsto, o General Howe não teve dificuldades para atacar os soldados da milícia americana e abalar sua posição, a tal ponto que mais um pequeno esforço teria quebrado toda a resistência do exército de Washington em Nova York. Se não fosse o conselho de José,. para se moverem até uma posição mais protegida à direita do Rio East, as coisas teriam sido ainda piores. Os soldados do General Howe não aproveitaram sua vantagem momentânea, e na noite seguinte os bons serviços de José Pereira foram valorizados por Washington, pois ele seguiu a sugestão do jovem para um movimento rápido das tropas para o outro lado do rio durante a noite de 29 de agosto. Ele hesitou um pouco. Então, quando surgiu uma flotilha de centenas de barcos manejados por amigos de José, prontos a atacar, Washington logo concordou. À frente de sua companhia que abrangia um arco cobrindo todo um lado do Brooklyn, José enganou os britânicos mantendo fogo cruzado e mudando constantemente os ataques e retiradas, atraindo os ingleses para longe da travessia, na noite escura de 29 de agosto. Porém José perdeu a vida, enquanto comandava a operação de camuflagem. Aconteceu dessa maneira:

O último contingente dos infortunados soldados de Washington, alguns milhares de homens, tinham esperado para serem transportados de balsa ao outro lado do rio, quando as tropas britânicas pareciam se aproximar, vindas dos três lados. O soldados, duramente pressionados, retrocederam até o rio, Porém o espaço na margem ainda aberto estava diminuindo a cada minuto. Foi então que a coragem de José impediu o ataque dos britânicos por um tempo suficiente para das aos homens de Washington uma chance de fugirem até o outro lado do Rio East. À medida que os soldados avançavam, tinham de passar pela fazenda dos Holling, na qual, sem que eles soubessem, estava o maior poder de fogo das tropas de Washington no Brooklyn, colocada em barracões e celeiros.

Enquanto os homens dessa companhia lutavam desesperadamente, José Pereira tinha tirado o uniforme e, vestindo macacão de fazendeiro, abriu caminho na escuridão, passando de volta pelo inimigo. Meia hora depois que ele deixara o local, ocorreu uma explosão. Os britânicos pararam de avançar e fugiram. Outra explosão abriu uma cratera no chão, onde as baterias tinham sido colocadas. Um terceira e uma quarta explosão barraram o ataque dos ingleses temporariamente, pois os soldados não podiam saber o que estava acontecendo na retaguarda. José Pereira não voltou para contar como conseguiu sozinho realizar esta façanha.

Enquanto isso Dr. Pereira, que tinha conseguido impressionar Washington pela sua dedicação e inteligência, foi convidado pelo general a integrar sua equipe. Foram dias difíceis de lutar na retaguarda, na retirada de Nova York, subindo o Rio Harlem na direção de White Plains. Foi ali que nas noites escuras das semanas seguintes, enquanto Washington lutava em New Jersey e Delaware, que Jacob Pereira exerceu uma forte influência sobre a estratégia do general durante as freqüentes conversas e discussões que eles travavam. Os anos de estudo de Jacob na Itália, seu idealismo e rapidez de raciocínio, sua compreensão dos problemas que aguardavam a jovem nação, e seu entendimento sobre o papel histórico que caberia à América, ajudaram a moldar as ideias que o General Washington logo traduziria em ação, e na formulação da orgulhosa herança das crenças e políticas deste país. Na escuridão da noite, após dias de tocaia, lutas, ações de defesa e ataques súbitos, antes que a sorte mudasse, estas discussões com o médico judeu eram os únicos momentos de relaxamento e inspiração para o General Washington. Poucos dentre seus companheiros podiam igualar a inteligência e amor ardente de Jacob Pereira pelo jovem país. Com o médico judeu Washington conseguia clarear seu próprio raciocínio, e livrar-se de muitos dos preconceitos que trouxera consigo, herança de uma vida de fazendeiro e pesquisador, cujo verdadeiro contato com o mundo tinha sido limitado, apesar de ser um ávido leitor.

O súbito ataque em Trenton, e a grave derrota dos britânicos em Princeton naquela noite de janeiro de 1777, transformaram o desespero em esperança, após atingirem um ponto muito baixo naquele inverno.

Quando o General Washington abandonou seu quartel general em Morristown, Nova Jersey, naquele inverno para completar o trabalho, ele com relutância deu permissão a Jacob Pereira para deixá-lo e para voltar à sua cidade, Boston. Ali, o jovem estabeleceu-se como médico, sendo também um erudito de renome. Sua intimidade com as pesquisas bíblicas e talmúdicas eram tão valorizadas pela sua própria comunidade judaica quanto pelos eruditos da Universidade de Harvard, que o consultavam com freqüência. Suas lembranças mais queridas, no entanto, eram os poucos meses que tinha passado na companhia do General Washington, e as longas horas de discussão que dariam bons frutos para o país como um todo, moldando a política que fez da América um porto de refúgio para o povo judeu, e todas as outras raças oprimidas e perseguidas do mundo.

Fonte: http://www.chabad.org.br/

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