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O Kotel Ha'MaaraviO Zohar ensina que a Presença Divina jamais abandonará o Kotel ha'Maaravi e, portanto, este nunca será destruído. Principal ruína do Segundo Templo de Jerusalém, o Muro Ocidental se tornou seu símbolo, expressão da dolorosa saudade do Povo Judeu por seu Santuário. É o local onde a história de nosso povo está viva, sendo suas pedras impregnadas dos anseios e das preces judaicas através dos séculos.


O Kotel Ha'Maaravi não era, como muitos acreditam, um dos muros do Segundo Templo, propriamente dito. Era a muralha ocidental dentre as quatro que serviam de arrimo à plataforma construída por Herodes, ao redor do Monte do Templo, o chamado Monte Moriá, em cujo topo se erguia, majestoso, o Grande Templo de Jerusalém. Este muro, uma imponente estrutura de 488m de comprimento, 40m de altura e 4,6 m de profundidade, era o setor que ficava mais próximo ao Kodesh ha-Kodashim, o Sagrado dos Sagrados, local mais recôndito do Templo, recinto cuja santidade era tal que somente o Cohen Gadol tinha permissão de lá entrar, uma única vez durante o ano, em Yom Kipur.

Enquanto o Beit Hamikdash ainda estava de pé, três vezes por ano os judeus faziam peregrinação à cidade do Rei David. Mas, após sua destruição pelos exércitos romanos em 70 E.C., orações passaram a substituir as oferendas. Dispersos pelos quatro cantos do mundo, os judeus rezavam três vezes ao dia na direção de Jerusalém e, mais especificamente, do Muro Ocidental, chamado em hebraico simplesmente de Ha'Kotel, o Muro. Isto porque, segundo nossa tradição mística, as orações de todas as partes do mundo dirigem-se a Jerusalém, especificamente ao local onde se erguia o Templo Sagrado - centro do universo espiritual, ponto onde se encontram o Infinito e o finito - e de lá ascendem aos Céus.

No decorrer dos 19 séculos em que Jerusalém esteve sob dominação estrangeira, a face da cidade se transformou. O cristianismo e o islamismo, religiões também monoteístas, declararam-na "santa" e reivindicaram seu direito de posse. Mudou também o Monte do Templo, sobre o qual os muçulmanos construíram mesquitas.

O Kotel, considerado lugar sagrado apenas para os judeus, também sofreu transformações. Desde a destruição do Segundo Templo, ficou abandonado, suas pedras contando triste história de devastação e ruína. Por longos períodos foi proibido aos judeus se aproximar do Monte do Templo e do Kotel; e, quando isso lhes era permitido, eram-lhes impostas inúmeras restrições. A partir do século 15, o Muro começou a afundar cada vez mais para dentro da terra, diminuindo assim a parte visível. Era um enclave escondido entre casas e pátios; um muro de magníficas pedras grandes, em uma ruela estreita. Era assim que aparecia em desenhos e gravuras nos lares judaicos. Local sagrado de orações sem igual, o Kotel tornara-se o símbolo do Grande Templo.

Durante todos esses séculos de dominação estrangeira, nosso povo nunca abandonou seu Templo destruído. Rezava por sua reconstrução e milhares de judeus, quaisquer fossem os perigos, iam até Jerusalém - fosse apenas para olhar o Muro de longe ou, quem sabe, tocar suas pedras e abrir sua alma e coração nas preces que ali invocavam a D'us. Banhando-o com suas lágrimas, imploravam pela redenção do povo judeu. Por causa das lágrimas derramadas, o Kotel ficou conhecido como "Muro das Lamentações". Sua grandiosidade ficou escondida e sua estatura reduzida até 1967, quando o Exército de Israel reconquistou a cidade e reunificou Yerushalaim.

O Monte do Templo e o povo judeu

Remonta ao início dos tempos a ligação entre o Povo Judeu e Jerusalém, a cidade que abriga o Monte Moriá, "o local escolhido por D'us para Sua Morada".

É no topo do Monte Moriá que está localizada uma saliência rochosa chamada Pedra Fundamental, Even Shetiyá. Segundo o Talmud, é assim chamada por ser o alicerce de todo o Universo, o ponto a partir do qual D'us iniciou o ato de Criação. Sobre esta pedra nosso patriarca Abraão amarrou seu tão amado filho, Isaac; e Jacob sonhou com a escada que o levaria aos céus. E quando o Templo Sagrado foi construído sobre o Monte, que passou a ser chamado de Monte do Templo, em hebraico Har Habayit - o "Monte da Casa", era sobre essa exata saliência rochosa, a Even Shetiyá, que ficava a Arca da Aliança.

Duas vezes construído, o Beit Hamikdash duas vezes foi destruído. O Grande Templo, construído no ano de 1000 a.E.C pelo rei Salomão, foi arrasado no dia 9 de Av de 586 antes desta Era, pelos exércitos de Nabucodonosor, rei da Babilônia. Após um exílio de 70 anos, liderados por Ezra e Nehemias, os judeus voltaram a Eretz Israel e reconstruíram seu Santuário. Passaram-se 350 anos até que o local foi outra vez profanado pelo rei selêucida, Antíoco IV. Após longos anos de lutas sangrentas, os hasmoneus o retomaram e, como relembramos a cada ano em Chanucá, purificaram-no e o reinauguraram.

Governantes hasmoneus o ampliaram, mas foi o rei Herodes (que reinou de 37 até 4 a.E.C.) que transformou o Segundo Grande Templo numa das mais magníficas construções da época. Tamanha era sua beleza e imponência que, dizia-se então, que nunca se vira tal magnificência. O grande construtor de Jerusalém ampliou ainda mais a área do complexo do Templo - que passou a englobar as colinas de Antonia - e podia acolher, segundo o historiador Flávio Josefo, 300 mil pessoas. Quatro imponentes muros de arrimo circundavam a grandiosa plataforma sobre a qual assomava, majestoso, o Segundo Grande Templo. Uma ponte sobre o vale, que separava a Cidade Alta de Jerusalém do Monte do Templo, era a única forma de acesso ao mesmo para os que viviam nessa parte da cidade. Em sua obra, Flávio Josefo chama o vale de Tyropoeon.

Exatamente na mesma data, 9 de Av, do ano de 70 desta Era, após sufocar a Grande Revolta judaica, legiões romanas tomaram Jerusalém, sob o comando de Tito, incendiando e destruindo o Templo e suas muralhas. Tentaram derrubar o Muro Ocidental, mas só conseguiram destruir a parte superior, permanecendo intacto o restante em toda a sua extensão.

Como ensina nossa tradição mística, o Muro Ocidental jamais será destruído. Conta o Midrash que durante a construção do Templo do rei Salomão, o trabalho foi dividido entre todos os Filhos de Israel, dele participando toda a população. A construção do Kotel coube aos mais pobres, que deram tudo de si ao trabalho com grande amor e afinco. Como não podiam contratar trabalhadores, colocaram as pedras, uma a uma, com as próprias mãos. Quando os inimigos estavam prestes a destruir o Templo, Anjos desceram das Alturas e, abrindo suas asas sobre o Muro, proclamaram: "Este Muro, fruto do suor dos pobres, nunca há de ser destruído".

No ano 135 de nossa Era, os romanos sufocaram a revolta de Bar Kochba e seus seguidores. Jerusalém foi devastada e, os judeus, dispersos pelo mundo. O imperador romano Adriano reconstrói Jerusalém como cidade pagã, que passa a se chamar Aelia Capitolina. Proíbe os judeus de lá viverem, proibição que oficialmente perdurará por cinco séculos, até a chegada dos muçulmanos.

Quando, no século 4, o cristianismo se torna a religião oficial do Império Romano, a situação dos judeus se torna mais precária. Os imperadores de Bizâncio, Império Romano do Oriente, que governaram a região de 330 da E.C. até a invasão muçulmana, declararam Jerusalém "sagrada para todos os cristãos". O Monte do Templo, considerado local sagrado par excellence dos judeus, deliberadamente desprezado e abandonado durante todo o período bizantino, continuaria em ruínas por outros três séculos mais.

No ano de 638 é a vez de seguidores de outra religião monoteísta, o islamismo, tomarem Jerusalém. Os judeus obtêm permissão para voltar a viver na cidade, mas continuam banidos do Monte do Templo, que, dessa vez, desperta a atenção e o respeito dos invasores muçulmanos. As muralhas que sustentavam a plataforma erguida por Herodes são reconstruídas e, em 691, o Domo da Rocha é erguido no exato lugar onde ficava o Templo, onde está a Pedra Fundamental. Vinte anos mais tarde, na extremidade sul do monte, é construída a Mesquita Al-Aqsa. Os governantes, no entanto, permitiram aos judeus orar no local onde, à época do Segundo Templo, erguia-se um dos portões que davam acesso ao Monte do Templo. Localizado próximo ao eixo do Kodesh Hakodashim, o "Sagrado dos Sagrado", o local foi transformado em uma sinagoga chamada Ha Me'ará, A Gruta,usada por mais de 450 anos.

Nos séculos após a conquista árabe, Jerusalém passa por grandes turbulências e inúmeras transformações. O mundo cristão quer Jerusalém de volta e, em 1099, a cidade é conquistada pelos cruzados. As mesquitas do Monte são transformadas em igrejas e os judeus são novamente banidos.

É Saladino, sultão do Egito e Síria, quem, em 1187 expulsa os cruzados de Jerusalém e os muçulmanos voltam a dominar a cidade. Somente durante um breve período (1229-1244), os cruzados conseguem retomar a cidade - mas não o Monte do Templo. Jerusalém fica, assim, dividida: os cristãos governavam-na praticamente toda, enquanto os muçulmanos ficam com o controle do Monte do Templo. A divisão era possível porque o vale de Tyropoeon fisicamente separava a Cidade Alta do Monte do Templo. Quando, em 1249, os mamelucos, dinastia islâmica, tomam a cidade, seus chefes decidem, por motivos estratégicos, executar grandes modificações urbanísticas nos arredores do Monte. As medidas coincidiam com a ambição religiosa de fazer de Jerusalém uma fortaleza do Islã, transformando o Monte do Templo em um local sagrado para o mundo muçulmano.

Usando como fundações as pedras das fileiras mais baixas do Muro, os mamelucos ergueram imensas sub-estruturas, ao longo do Muro Ocidental e da Grande Ponte perpendicular ao mesmo, e, sobre estas, fazem crescer um bairro muçulmano, até hoje existente. Tudo que havia abaixo do novo nível desapareceu, soterrado. Conseqüentemente, ficam ocultas as magníficas pedras do Muro Ocidental. Durante séculos os muçulmanos continuaram a construir edifícios religiosos e casas, conseguindo uma unidade topográfica entre o Monte e a Cidade Alta de Jerusalém.

Os mamelucos dominaram Jerusalém até 1517, quando a cidade foi conquistada pelos turcos otomanos que a governaram durante 400 anos. No século 19, vários judeus procuram, em vão, obter o controle do Muro. Na década de 1850, tentam comprá-lo e Sir Moses Montefiori busca todas as maneiras de obter, ao menos, permissão de colocar bancos ao longo do Muro. Nenhuma das iniciativas teve sucesso. Se os judeus colocavam uma mesa para ler a Torá ou qualquer outro símbolo religioso judaico perto do Muro, as autoridades religiosas islâmicas exigiam do governo turco sua imediata remoção. E o conseguiam, apesar do fato de que o Muro não tinha valor religioso algum para os muçulmanos.

Em 1917 inicia-se o Mandato Britânico sobre a então Palestina. Nos 30 anos seguintes, os conflitos entre judeus e muçulmanos se tornam cada vez mais violentos, principalmente no tocante ao Muro - que as autoridades islâmicas viam como símbolo do anseio nacionalista judaico. A oposição sobre a presença dos judeus no Kotel intensificava-se, a cada dia.

Para denegrir o local, o Mufti de Jerusalém converte a rua em uma passagem para animais. Consegue convencer as autoridades britânicas a proibir o uso de objetos sagrados judaicos diante do Kotel. Passa, também, a incitar a população árabe, afirmando que os sionistas pretendiam controlar o Muro. Em agosto de 1929 a violência explode; uma multidão enfurecida ataca os judeus que rezavam no Kotel, destruindo os objetos sagrados que encontra. Tal explosão de violência repete-se em uma série de confrontos, dias depois.

A questão se torna "internacional" e, para resolver "o problema do Muro", instituem-se duas comissões - uma britânica e outra da Liga das Nações. No verão de 1930 do Hemisfério Norte é realizado o chamado "Julgamento do Muro". Segundo deliberação das comissões, os muçulmanos eram "por direito" os únicos "proprietários" do Muro. Mas as comissões deram aos judeus a permissão de lá rezar e de colocar assentos na rua. Era proibido, porém, tocar o Shofar nas proximidades do Muro.

Apesar de todas as concessões, os árabes não ficaram satisfeitos. Os judeus, por sua vez, aceitaram a deliberação, com exceção do último ponto. E, a cada ano, ao término do Yom Kipur, apesar de saber que policiais britânicos interviriam, jovens judeus tocavam o Shofar, como manda nossa tradição milenar.

Nem mesmo em 1948, com o renascimento de Israel, Estado judeu soberano após 1900 anos de dispersão, os judeus conseguiram reaver "seu Muro". Teriam, contudo, que esperar mais 19 anos para voltar a tocar as pedras do tão amado Kotel. Na guerra que as nações árabes lançaram sobre Israel logo após ter declarada a sua independência, os combatentes judeus não conseguiram manter a Cidade Velha de Jerusalém. E, enquanto durou a ocupação árabe dessa parte da cidade, apesar dos acordos internacionais de cessar-fogo que, supostamente, garantiriam livre acesso aos lugares sagrados, foi vedado aos judeus aproximar-se do Muro.

Nem à distância podiam olhá-lo - até o dia 7 de junho de 1967, quando pára-quedistas das Forças de Defesa de Israel reconquistaram o Muro Ocidental, sonho de todo um povo. Ao som do Shofar, a Rádio de Israel anunciou: "Har Habait Beiadeinu" - o Monte do Templo está em nossas mãos!"

Jerusalém foi, enfim, reunificada. A exposição do Muro se tornou marco da soberania de Israel e de todo o povo judeu. Coube ao Ministério para Assuntos Religiosos a responsabilidade pelo local. Após abrir e limpar toda a área adjacente, foi criada a Esplanada do Muro Ocidental. No primeiro dia de Shavuot daquele mesmo ano, 250 mil judeus foram rezar no local. Mas, ainda não era suficiente. Israel queria expor o Muro em toda a sua extensão e imponência. Escavações minuciosas removeram cuidadosamente 19 séculos de terra e entulho, revelando as magníficas estruturas há milênios soterradas. Atualmente, após décadas de intensos trabalhos arqueológicos, um incrível labirinto de túneis, arcos e passagens, que permaneceram intocados durante séculos, finalmente descortinava-se ao mundo.

Bibliografia:
Bahat, Dan, The Western Wall Tunnels - Touching the Stones of our Heritage, ed. The Western Wall Heritage Foundation, 2002
Safdie, Michal Ronnen, The Western Wall, Hugh Lauter Levi Associates, Inc, 1997

Da Revista Morashá – Edição 55 - dezembro de 2006
www.morasha.com.br
Por Zevi Ghivelder

Depois da Segunda Guerra Mundial, o judeu alemão Hanns Alexander, que escapou do nazismo e serviu no exército britânico, incumbiu-se da missão de capturar Rudolf Hoess, o comandante do campo de concentração de Auschwitz. Seu empenho solitário e incansável teve um final dramático.
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Hanns Hermann Alexander nasceu em Berlim no dia 6 de maio de 1917, quinze minutos antes de Paul, irmão gêmeo. Seu pai, o Dr. Alfred Alexander, era um dos mais proeminentes médicos clínicos da cidade.

Por ocasião do nascimento dos dois filhos, ele estava servindo num hospital militar alemão na Alsácia, para onde levou a família. Em 1918, ao fim da 1ª Guerra Mundial, alsacianos franceses, vitoriosos, ameaçaram depredar o hospital. O Dr. Alexander conseguiu resgatar a tempo todos os pacientes e junto com os feridos, a mulher e os filhos, embarcou no último trem rumo a Berlim. Voltou a seu belo apartamento na Rua Kaiser. A residência da família, onde dois dos cômodos serviam de consultório, ocupava todo o segundo andar do número 219 daquela rua, um dos endereços mais sofisticados de Berlim. Assim como seus pais, irmão e duas irmãs menores, Hanns não cresceu num ambiente particularmente religioso. Os Alexanders se diziam "judeus de três dias", ou seja, iam à sinagoga nos dois dias de Rosh Hashaná (ano novo judaico) e Yom Kipur (Dia do Perdão). De vez em quando compareciam ao templo nas manhãs do Shabat (sábado).

No decorrer dos anos, o médico prosperou e abriu sua própria clínica, um prédio de quatro andares, já dotada de uma grande novidade naquela época, um equipamento de raios-X. A fama do Dr. Alexander fez com que ele cada vez mais se identificasse com a sociedade germânica, recebendo para festas e jantares consagrados cientistas, artistas e intelectuais, que o respeitavam e admiravam.

Em janeiro de 1933, quatro meses antes de Hanns e Paul completarem 16 anos de idade, Adolf Hitler assumiu o cargo de Chanceler da Alemanha, com poderes para legislar sem a aprovação do Parlamento. Num dia de abril, a família Alexander avistou uma tropa da SA, primeiro braço armado do nazismo, desfilando pela rua. A turba parou bem em frente ao seu prédio e começou a gritar: "Não comprem dos judeus!"; "Boicotem os judeus!"; "Os judeus são nossa desgraça!".

Os manifestantes bloquearam a entrada do edifício até que, por sorte, foram abordados por um coronel chamado Otto Meyer. Este lhes disse que o Dr. Alfred Alexander era um fiel cidadão da Alemanha, que havia lutado pelo país na guerra e que, inclusive, havia recebido a alta condecoração da Cruz de Ferro. Os SA deram meia volta.

À noite, a família se reuniu em estado de choque. O que fazer? Os boicotes aconteceriam de fato? Ir embora para a Suíça? O médico argumentou que era melhor permanecerem onde tão bem estavam porque, sem dúvida, aquela violência duraria pouco tempo e o povo alemão, culto e inteligente, decerto não aceitaria aquele estado de coisas. Entretanto, as leis restritivas aos judeus foram sendo intensificadas. Certa ocasião, Hanns e Paul foram assistir a um jogo de patins no gelo, mas se depararam na porta com um cartaz que dizia "Proibida a entrada de judeus". Mesmo assim, foram até a bilheteria, compraram ingressos e entraram. Era um sintoma de que, apesar das adversidades crescentes, a família pretendia levar a vida da forma mais normal possível.

Na semana seguinte, um conhecido membro do Partido Nazista foi ao encontro do Dr. Alexander para lhe dizer que ele seria denunciado criminalmente por ter praticado um aborto ilegal em sua irmã. Indignado com a mentira e pressentindo o perigo, o médico foi a um Distrito Policial para apresentar queixa como vítima de difamação.

Ali lhe disseram que, como ele não era membro do Partido Nazista, nada poderia ser feito a seu favor. Mais uma vez a família reavaliou a situação, mas o Dr. Alexander ainda hesitava em deixar Berlim. Em janeiro de 1936, o médico viajou para Londres para visitar uma de suas filhas, Bella, que se casara com um inglês. Na ausência do marido, Henny, a matriarca da família, recebeu um telefonema daquele mesmo coronel Otto Meyer: "Diga a Alfred para sumir imediatamente. Ele é o primeiro de uma lista de judeus que vão ser presos pela Gestapo". Sabendo de sua estada na Inglaterra, foi incisivo: "Diga a ele para não voltar sob hipótese alguma". Em Londres, apesar de deprimido por não poder trabalhar, o Dr. Alexander começou a tomar providências para tentar trazer Henny e Hanns ao seu encontro. Enquanto isso, Paul estava na Suíça e Elsie, a outra filha, também casada, na Holanda.

Em Berlim, Hanns, que trabalhava num banco, tratou de obter uma permissão para deixar a Alemanha. Para sua surpresa, não foi difícil, porque, àquela altura, a política nazista era no sentido de se livrar do maior número de judeus. A dificuldade foi obter um visto para entrar na Inglaterra que relutava em aceitar um grande fluxo de refugiados judeus. O fato de seu pai e duas irmãs já estarem residindo em Londres não adiantou.

Com a proximidade dos Jogos Olímpicos de 1936, a serem realizados em Berlim, as ações antissemitas foram abrandadas para enganar o mundo, ao mesmo tempo em que os cartazes proibindo os judeus disso ou daquilo sumiram dos prédios e das ruas. Em maio, Hanns pediu a seu chefe no banco que escrevesse uma carta de recomendação para um banco na Inglaterra, no que foi atendido. Dirigiu-se à representação britânica, onde uma fila quilométrica se formara na seção de vistos. Conseguiu ser recebido pelo primeiro-secretário da embaixada, que havia sido paciente de seu pai. Quinze minutos depois estava com o visto nas mãos. Surgiu, contudo, outra dificuldade. Pela passagem que conseguira comprar, era preciso atravessar a França e os franceses lhe negaram o visto, embora de trânsito. A seu socorro veio Paul, que lhe facilitou os meios para viajar até a Suíça, de onde poderia prosseguir para Londres. Somente Henny permaneceu em Berlim para se desfazer dos bens da família.

No dia 2 de junho de 1936, Hanns desembarcou no aeroporto de Croydon, no sul de Londres. Tinha no bolso uma cédula de dez marcos, tudo que os alemães permitiram que levasse. O funcionário da imigração britânica carimbou seu passaporte com os seguintes dizeres: "O viajante deve registrar-se de imediato na polícia e não permanecer mais do que seis meses no Reino Unido". Henny foi obrigada a vender o apartamento da Rua Kaiser e também a clínica por quantias irrisórias, mas que lhe permitiram pagar o exorbitante imposto de saída exigido pelo Reich. No Rosh Hashaná daquele ano, aguardados por Bella, Henny chegou à Inglaterra, Elsie chegou via Amsterdã e Paul via Suíça. A família Alexander estava novamente reunida.

No dia 4 de setembro de 1939, tendo a Alemanha invadido a Polônia, Hanns e Paul seguiram para o posto de recrutamento da Royal Air Force (Real Força Aérea), em Acton, Londres. Ambos passaram por exames médicos, compareceram a entrevistas com oficiais que checaram todos os pormenores de suas vidas pregressas e foram mandados de volta. Receberiam ordens posteriores. Os ingleses relutavam em acolher em suas forças militares refugiados alemães por medo de ações de sabotagem ou de espionagem, mas em dezembro daquele ano aceitaram Hanns e Paul.

Os dois irmãos foram encaminhados para o Corpo Auxiliar de Militares Pioneiros e levados para treinamento no campo Kitchener. Dali, Hanns escreveu para o pai: "Estou vivendo o momento mais feliz da minha vida". Nos dois anos seguintes, os gêmeos se prestaram apenas para serviços pequenos ou burocráticos. Concluíram, então, que para serem tratados com respeito pelo exército britânico teriam que cumprir o curso de oficiais. Depois de muito peticionar, acabaram sendo transferidos para a Unidade de Treinamento de Oficiais em Lincolnshire, aonde chegaram no dia 3 de maio de 1943.

Graduados dois meses mais tarde, tiveram que ser separados por conta do regulamento militar que estipulava que parentes próximos não poderiam servir na mesma unidade. Paul foi para o Comando Regional Norte e Hanns para a Companhia 239 do Comando Regional Sul. Ele só viu a guerra de perto em julho de 1944, quando foi mandado para a França, já depois da invasão do dia-D, no mês anterior. Enquanto os aliados descarregavam sem cessar toneladas de suprimentos, equipamentos e munições nas praias da Normandia, a Companhia de Hanns foi incumbida de supervisionar um grupo de oficiais alemães que havia sido feito prisioneiro. Anos depois ele comentou: "Foi muito estranho, mas também gratificante, oprimir aqueles que me tinham oprimido".

No ano anterior, Roosevelt, Churchill e Stalin tinham emitido um comunicado segundo o qual, após o fim das hostilidades, todos aqueles que, desde 1933, haviam cometido atrocidades ou crimes de guerra deveriam ser levados a julgamento. Foi, então, criada uma lista que recebeu o nome de Central Registry of War Criminals and Security Suspects, sigla Crowcass.
A primeira lista continha cerca de cem mil pessoas, homens e mulheres, sem seus delitos especificados. Em seguida, foi feita outra Crowcass, prioritária, com 165 nomes, assinalando Hitler em primeiro lugar, Goering em segundo, Goebbels em terceiro, Martin Borman em quarto, seguindo-se os mais importantes chefes do Terceiro Reich, já com os registros detalhados de suas ações criminosas.

O nome de Rudolf Hoess estava nesta lista, mas grafado como Hess, o que, de imediato, dificultou sua identificação porque oralmente era um homônimo de Rudolf Hess, o líder nazista que, em 1942, num gesto impulsivo e até hoje polêmico, saltara de pára-quedas sobre a Inglaterra para propor um rejeitado acordo de paz em separado com a Alemanha. Entretanto, a descrição física do criminoso era a seguinte: "Louro claro, 1m80m, 78 quilos". Só podia ser Hoess, o comandante do campo de concentração de Auschwitz.

Rudolf Franz Ferdinand Hoess nasceu num subúrbio de Baden-Baden, perto da fronteira da França, no dia 25 de novembro de 1901. Pouco antes de completar quinze anos, saiu de casa, mentiu sobre a idade e se alistou no exército. Em agosto de 1916, foi admitido no Regimento de Dragões de Baden, o mesmo no qual seu pai e o avô haviam servido. No ano seguinte, foi mandado com seu regimento para a Palestina, onde os alemães lutavam ao lado dos turcos na Primeira Guerra Mundial. Numa batalha nas cercanias de Jerusalém,
Hoess foi ferido e levado para um hospital em Jaffa. Após o armistício de 1918, voltou à Alemanha e se engajou no Freikorps, um grupo paramilitar que lutou contra os bolcheviques russos na Letônia e onde perpetrou terríveis massacres. Foi o seu aprendizado na crueldade e na violência.

Enquanto isso, era instituída na Alemanha a República de Weimar, que extinguiu o Freikorps. Hoess foi para Munique e ali fez amizade com um jovem político chamado Adolf Hitler, tornando-se um dos fundadores do Partido Nacional Socialista, o futuro Partido Nazista. Em 1929, casou-se com Hedwig Hensel, de 21 anos. Segundo os historiadores, o casamento só aconteceu porque a moça havia engravidado. Quando Hitler chegou ao poder, Heirich Himmler, amigo de Hoess desde os tempos do Freikorps, foi nomeado comandante da polícia política da Bavária e depois se tornou o chefe supremo das forças SS, poderoso órgão militar do Partido Nazista, no qual Hoess se alistou.
Em dezembro de 1934, foi mandado para a cidade de Dachau, perto de Munique, onde a dez quilômetros de distância fora criado o primeiro campo de concentração destinado a internar os chamados inimigos do Reich. Hoess passou a servir como adjunto do comandante do campo e foi morar ali perto, junto com Hedwig e três filhos. Quatro anos mais tarde, enviaram-no para o campo de Sachsenhausen, perto de Berlim, de novo atuando como adjunto do comandante. Chamou a atenção de seus superiores por saber acatar quaisquer ordens sem questionamentos e por executá-las com afinco e dedicação. Ali o promoveram a chefe do Amtsgruppe D1, primeira inspetoria geral dos campos de concentração.

Durante seu interrogatório no Tribunal Militar de Nuremberg, após a guerra, Hoess declarou que fora chamado a Berlim por Himmler, de quem recebia ordens diretas: "Não me lembro das exatas palavras de Himmler, mas ele me revelou que estava em curso uma solução final para a questão judaica. Disse que se nós, das SS, não destruíssemos os judeus, eles destruiriam a Alemanha. Escolhemos instalar para este fim um grande campo de concentração em Auschwitz porque era uma área livre e de fácil acesso".

Em maio de 1944, Hoess foi transferido para o campo de extermínio de sua própria escolha, com o posto de comandante e ali chegou no dia 8 daquele mês. Uma semana depois, começaram a chegar os primeiros trens, transportando judeus oriundos da Hungria que, até julho, somaram 437 mil seres humanos. A seleção dos prisioneiros, aptos ou inaptos para o trabalho, era conduzida por dois médicos do campo, Josef Mengele e Fritz Klein. Os inaptos, vindos de diferentes pontos da Europa, foram executados e, em razão de sua eficiência nas tarefas assassinas, Hoess foi à localidade de Solahutte, nas imediações de Auschwitz, para receber uma festiva homenagem de seus superiores. Ele conseguiu abandonar Auschwitz às pressas, pouco antes de o campo ser libertado pelo exército soviético, no dia 27 de janeiro de 1945. Pressentindo a próxima derrota final da Alemanha nazista, escondeu-se junto com a mulher e os cinco filhos.

No dia seguinte ao da vitória definitiva dos aliados, Hanns recebeu ordens para se apresentar ao comando britânico, em Bruxelas. No caminho, parou no campo de concentração de Belsen. Escreveu para o irmão: "O campo está lacrado para impedir que uma epidemia de tifo se espalhe por toda a Alemanha. Não há mais guardas das SS, mas deparei-me com húngaros que não foram melhores do que os nazistas. Presenciei o mais terrível dos cenários, com cadáveres por todas as partes". Junto com outros soldados, Hanns começou a recolher os mortos e enterrá-los numa vala comum. Findo o funeral, um rabino-capelão inglês ali recitou o kadish (prece pelos falecidos).

No dia 16 de maio, o tenente-coronel britânico Leon Genn (que já era um ator consagrado no teatro e fez bela carreira no cinema inglês e em Hollywood), recebeu em Belsen um telegrama de Londres com instruções para que assumisse o comando de uma equipe de investigadores e intérpretes intitulada Number I War Crimes Investigation, sigla WCIT, na qual Hanns se engajou. A missão de Genn e seus comandados consistia em reunir provas que servissem ao julgamento de criminosos de guerra em Belsen e arredores. Para isso seria criado um tribunal militar presidido por juízes ingleses e com o concurso de promotores e advogados também ingleses. Os culpados receberiam as sentenças cabíveis, incluindo condenações à forca ou fuzilamento.

Hanns foi designado para atuar como intérprete junto ao capitão Alfred James Fox que, no transcurso de três semanas, já havia procedido a uma série de interrogatórios de prisioneiros e sobreviventes. Hanns e Fox se instalaram num escritório na pequena cidade de Celle, na Saxônia alemã.

Um dos primeiros investigados foi o responsável pela intendência de Auschwitz, um soldado chamado Franz Hossler. Este lhes revelou: "O comandante do campo era Rudolf Hoess. Muitas vezes lhe disse que me sentia mal vendo aquela gente sendo levada para as câmaras de gás e ele respondia que o assunto não era da minha conta". Interrogaram também uma mulher chamada Irma Grese, a chefe da guarda feminina em Auschwitz. Ela era conhecida como "a bela besta" por sua alta estatura e bonitos cabelos louros. Grese negou tudo, porém mesmo assim foi levada a julgamento. Em seguida foi a vez de uma de suas subordinadas, Elisabeth, que declarou: "O responsável pelo que aconteceu em Auschwitz foi Rudolf Hoess. Claro que as ordens vinham de Himmler, mas ele supervisionava tudo". Ao cabo dos interrogatórios, Hanns dirigiu-se a Leo Genn e pediu permissão para procurar Hoess.

O coronel Genn recusou, dizendo que Hanns não tinha experiência suficiente para a captura daquele criminoso e que ainda precisava dele em Belsen. Em princípio, Hanns concordou. De fato, faltava-lhe experiência como detetive policial e, àquela altura, não possuía a menor pista sobre o paradeiro de Hoess. Entretanto, estava solidamente decidido a cumprir a missão da qual se incumbira.

Sensibilizado por novas insistências de Hanns, o coronel Genn deu-lhe um carro com motorista para poder se deslocar com facilidade e sugeriu-lhe que começasse a busca pela análise da lista prioritária da Crowcass. Poderia, portanto, ir para onde quisesse e mais ainda: promovido ao posto de capitão, tinha autoridade para efetuar prisões.

Enquanto isso, Hoess deixou a mulher e os filhos sob os cuidados do irmão dela, que os abrigou num prédio restante de uma antiga indústria de açúcar, na cidade de St. Michaelisdonn, perto do Mar do Norte, e junto com o filho Klaus, então com quinze anos de idade, rumou para a localidade de Flensburg, onde um grupo de nazistas fanáticos, comandados por Himmler, pretendia se organizar para ainda enfrentar os aliados vitoriosos. No entanto, essa fantasiosa tentativa logo desmoronou. Himmler rendeu-se a uma unidade britânica e horas depois de ser preso suicidou-se ingerindo uma cápsula de cianureto. Desorientado, Hoess chegou à cidade de Gottrupel, junto à fronteira da Dinamarca. Com a ajuda de antigos companheiros foi abrigado numa rústica casa de pedras, com um só aposento.

A par do empenho para encontrar Hoess, o capitão Hanns empreendeu uma viagem a Luxemburgo, à procura do gauleiter (governador designado pelos nazistas) Gustav Simon, responsável pela deportação dos judeus daquele país. Depois de exaustivos e pacientes interrogatórios com toda a família Simon e com dezenas de habitantes de Luxemburgo, acabou encontrando e prendendo o gauleiter. Dali regressou a Belsen e obteve uma licença para viajar a Londres, onde se casou com Ann Graetz, uma jovem morena judia pela qual se havia apaixonado desde a chegada na Inglaterra e com a qual mantivera contato antes, durante e depois da guerra.

Hanns Alexander regressou à Alemanha e foi para Berlim, levando a lista da Crowcass. Na arrasada capital do Reich apresentou-se ao capitão William Victor Cross, do serviço britânico de inteligência, no destacamento Field Security Section 92, encarregado de capturar criminosos de guerra. Este lhe disse que ignorava aonde Hoess se encontrava e que provavelmente possuía alguma falsa identidade.

Entretanto, há um bom tempo seus homens vinham monitorando a mulher e os filhos de Hoess e sabiam que a família do comandante de Auschwitz vivia no que sobrara uma antiga fábrica de açúcar em St. Michaelisdonn. Além disso, haviam interceptado uma carta de Hoess para a mulher, sem o endereço do remetente, mas era óbvio que Hedwig conhecia o esconderijo do marido. Ela estava detida para interrogatório na pequena cidade de Lunden, às margens do rio Eider. Na prisão local, Hanns começou o questionamento daquela mulher de cara redonda que, apesar de mal vestida e mal nutrida, conservava uma pose arrogante. Como era esperado, a mulher de Hoess respondeu que não sabia do marido.

No dia seguinte, Hanns e quatro militares da Field Security seguiram para St. Michaelisdonn. Na velha fábrica, Hanns subiu um lance de escada e num aposento frio e escuro, com alguns colchões, uma mesa e poucas cadeiras, encontrou quatro filhos do fugitivo. Dirigiu o foco para Klaus que disse nada saber. Voltou-se para Hideraud, a filha mais velha, e ameaçou que se ela não revelasse a verdade, levaria Klaus preso, o que de fato cumpriu. Levou o rapaz para Lunden e o colocou na mesma cela da mãe. O jovem e a mãe se disseram em greve de fome, mas a certa altura o jovem pareceu disposto a falar. Ele disse que tinha visto o pai depois da guerra, que na realidade estivera com ele em Flensburg, mas há meses deixara de ter qualquer notícia sobre sua condição. Hanns insistiu com Hedwig: "Onde está seu marido?" Resposta: "Ele morreu". Depois de esgotar todos os métodos de interrogação, Hanns concluiu que deveria fazer algo drástico. No entardecer do dia 11 de março de 1946, ouviu o ruído da passagem de um trem atrás do prédio da prisão. Teve um estalo. Entrou na cela da mulher e disse que se ela não revelasse a verdade, aquele trem levaria Klaus para a Sibéria. Deixou nas mãos dela um lápis e uma folha de papel. Voltou após uma hora e encontrou o seguinte escrito: "Fazenda de Hans Peter Hansen, em Gottrupel. Nome: Franz Lang".

Imediatamente reuniu-se com o capitão Cross e começaram a elaborar um plano de captura. A operação deveria ser feita nas primeiras horas da manhã e era indispensável levar farto armamento e munição porque Hoess, certamente, resistiria. Convocaram uma patrulha de vinte homens da Field Security à qual estavam integrados alguns judeus alemães do exército inglês, cujas famílias tinham sido mortas em Auschwitz.

O comboio tomou o rumo de Gottrupel. Em frente à casa de pedras da fazenda, acompanhado por um médico e um motorista, Hanns bateu na porta, logo aberta por Hoess, e emitiu a primeira ordem: "Vejam se ele tem alguma cápsula na boca". Calmo, o carrasco mostrou seus documentos em nome de Franz Lang e negou qualquer vínculo com o campo de concentração de Auschwitz. Durante a guerra tinha sido apenas um soldado raso. Hanns ordenou-lhe: "Tire a sua aliança!" Hoess respondeu que o anel estava apertado demais e era impossível tirá-lo. Hanns arrematou: "Então, vou cortar seu dedo". Hoess acabou tirando o anel em cujo interior havia uma gravação: "Rudolf e Hedwig".

O carrasco estava identificado. Antes que algum dos militares tivesse um impulso agressivo, Hanns ordenou: "Coloquem ele são e salvo no meu carro". No percurso para a prisão da cidade de Heide, Hanns fez o interrogatório inicial do prisioneiro. Qual o seu nome completo? Qual era seu grau nas SS? Qual foi sua atuação durante a guerra? Qual foi sua atuação nos campos de concentração?

Rudolf Hoess foi julgado pelo Tribunal Militar de Nuremberg e condenado à morte. Ergueram um cadafalso no próprio campo de Auschwitz onde ele foi enforcado às 10 horas e 8 minutos da manhã do dia 16 de abril de 1947.

Bibliografia:
"Hanns and Rudolf", de Thomas Harding, editora Simon&Schuster, EUA, 2013.
Zevi Ghivelder é escritor e jornalista

Da Revista Morashá - Edição 82 - dezembro de 2013


Ecos de um passado presente – A Argentina de Uki Goñi

*Sheila Sacks

Mantido em segredo por 67 anos, somente em 2005 o governo argentino revogou o documento que negava a entrada de judeus perseguidos pelo regime nazista

“Como um argentino crescendo nos Estados Unidos e na Irlanda, eu era hostilizado pelos colegas de escola. – É onde todos os nazistas estão, diziam referindo-se à Argentina”. Quem conta essa passagem de sua adolescência, em recente entrevista ao “Boston Review”, é o jornalista e pesquisador Uki Goñi, 61 anos, correspondente do jornal britânico The Guardian e autor do best-seller “A Verdadeira Odessa – o contrabando de nazistas para a Argentina de Perón”.

Lançado em 2002 (The Real Odessa, em inglês), o livro demandou seis anos de pesquisas e levou o autor a cidades como Bruxelas, Berna, Berlim, Londres, Maryland (EUA), além da própria Buenos Aires. Vasculhando arquivos oficiais como os da Cruz Vermelha Internacional, consultando documentos confidenciais, inclusive informes da CIA (central de inteligência americana), e buscando testemunhos que comprovassem a existência de uma organização de resgate de nazistas, Goñi se deparou com o que ele definiu de a “verdadeira” Odessa, em alusão ao romance “O dossiê Odessa”, do escritor inglês Frederick Forsyth, publicado há mais de 30 anos.

Guardando semelhanças com a ficção (Forsyth foi correspondente da agência Reuters e a suposta Odessa seria a sigla de ‘Organisation der ehemaligen SS- Angehörigen’ – Organização de Antigos Membros da SS), o jornalista argentino descobriu uma estrutura bem planejada que não somente abrigava homens da SS (Schutzstaffel – a tropa nazista de Hitler), mas criminosos de guerra da língua francesa e fascistas croatas. Uma rede operativa que contou com o beneplácito da ditadura peronista (1946-1955) e se relacionava com setores do Vaticano, agências de inteligência dos Aliados e grupos secretos argentinos.

Isolamento e dificuldades

Se o início das pesquisas - que redundou em 22 mil páginas de documentos e 260 entrevistas (uma delas com Wilfred van Oven, secretário particular de Joseph Goebbels, ministro de propaganda de Hitler) devidamente digitalizadas pelo Museu do Holocausto de Washington (USHMM) e disponíveis para consulta pública desde 2012 – se deu em função de uma reportagem, em 1996, para “The Sunday Times” de Londres (sobre a história de um passaporte encontrado na Patagônia que teria sido usado por Martim Bormann, o segundo homem mais importante do III Reich, depois de Hitler, em sua fuga para a América do Sul), em 2014, passada mais de uma década da primeira edição do livro, o silêncio de seus compatriotas incomoda o jornalista que vive em Buenos Aires desde 1975.

“O livro me fez ficar sem amigos na Argentina. Absolutamente sem amigos. Para se ter uma ideia, sou constantemente procurado por acadêmicos e estudiosos dos Estados Unidos e da Europa. Falei em universidades americanas, na Alemanha, em Manchester (Inglaterra) e Salzburgo (Áustria). Mas aqui...nada. Eu nunca fui convidado para falar a estudantes de história em qualquer lugar do país e nenhuma universidade ou pesquisador da Argentina se aproximaram de mim.  E isso é meio chocante”, desabafa Goñi na reportagem (“Political Hatred in Argentina” – Ódio político na Argentina, em tradução livre/17.02.2014).

O jornalista acredita que a obra produziu uma espécie de isolamento público apesar das pessoas estarem conscientes da importância de seu trabalho. Goñi ressalta ainda que os acessos aos arquivos na Argentina “foram difíceis” (as pastas com dados sobre imigração, por exemplo, foram queimadas em 1996), diferente das condições existentes nos outros países consultados.

Segredo de estado

Com edições em inglês, espanhol, alemão, italiano, esloveno e português, o livro serviu de base aos documentários “Rise of the Fourth Reich” (Ascensão do IV Reich), do “History Channel” (2009), e “Elusive Justice: The Search for Nazi War Criminals” (Justiça enganosa: A busca por criminosos de guerra nazistas, em tradução livre), de 2011, provocando reações na Itália, Holanda e na própria Argentina, a partir de registros envolvendo a arquidiocese de Gênova, a companhia aérea KLM e a Casa Rosada, entre outras instituições e órgãos governamentais, na preparação e operacionalidade das rotas de fuga dos nazistas para a Argentina.

Suspeita-se que centenas de colaboradores nazistas de várias nacionalidades fugiram da Europa para a Argentina entre 1945 a 1955 (entre 6 a 8 mil ‘refugiados’, de acordo com alguns historiadores), dentre eles 180 criminosos de guerra (30 alemães, 50 croatas e 100 franceses), segundo um informe da Ceana (Comisión para el Esclarecimiento de las Actividades del Nazismo en Argentina), que funcionou de 1997 a 1999 sob os auspícios do governo argentino. Goñi, porém, contesta a cifra e afirma que suas investigações identificaram 300 criminosos de guerra (incluindo austríacos, belgas, romenos, húngaros, noruegueses), muitos deles já condenados que se abrigaram no país.

Sabe-se que tanto Josef Mengele, conhecido como o “anjo da morte” por transformar prisioneiros em cobaias humanas nos campos de concentração, como Adolf Eichmann, o responsável pela “solução final” que implicaria na eliminação dos judeus da Europa, ambos entraram na Argentina com passaportes expedidos pela Cruz Vermelha Internacional, o primeiro em 1949, e o segundo em 1950.

Por outro lado, uma circular instituída pela chancelaria argentina, em 12 de julho de 1938, e enviada a todos os seus consulados e embaixadas proibindo a entrada de judeus no país, funcionou como um decreto de morte para 200 mil judeus que ficaram a mercê de Hitler depois da anexação da Áustria pela Alemanha. Também 100 judeus de cidadania argentina foram impedidos de retornar à Argentina. O documento que levava o carimbo de “estritamente confidencial” foi descoberto nos arquivos da embaixada argentina em Estocolmo, em 1998, pela historiadora Beatriz Gurevich, que fez parte da Ceana.

Porém, em virtude de desentendimentos com a comissão, a pesquisadora demitiu-se e o documento considerado “segredo de estado” só veio a público quatro anos depois com o livro de Goñi, a quem Gurevich enviou uma cópia. Mas, o infame memorando só foi revogado em 8 de junho de 2005 - após 67 anos de vigência secreta - em cerimônia na Casa Rosada presidida por Néstor Kirchner, atendendo petição encabeçada pelo jornalista.

Netos da Guerra

Recentemente, Goñi passou algum tempo na Alemanha recolhendo material para documentários e conversou bastante com estudantes cujos avós vivenciaram a era nazista, encontrando semelhanças com o que tem observado na Argentina. “Eu ouvia muitas crianças dizendo: Por que devemos nos preocupar? São meus avós, por que você está falando sobre isso? Por que deveríamos estar pagando esse dinheiro aos judeus por algo que aconteceu 60 anos atrás? E o que isso tem a ver comigo?”

Mas, de acordo com o jornalista, se ele encontrou uma geração de netos que não quer saber o que os avós disseram e fizeram (‘Isso não tem nada a ver comigo; por que estão sempre atacando a Alemanha?’), há também aqueles que realmente se mostram interessados em conhecer o passado e puderam conversar com seus avós. “Existe uma ligação especial entre um neto e um avô o que permite uma maior franqueza”, avalia Goñi que protagonizou um drama familiar ao revelar a existência de um documento secreto conhecido como a Diretiva 11.

Neto do embaixador Santos Goñi - que no início da década de 1940 servia no consulado da Bolívia -, o pesquisador revela no livro que durante os anos em que seu avô ficou em La Paz, de 1939 a 1944, o diplomata teve de lidar com um grande número de pedidos de judeus da Europa que queriam entrar na Argentina pela Bolívia, em razão das dificuldades para a obtenção de vistos na Alemanha. Contudo, em razão desse documento que vedava a entrada de judeus no país, o embaixador negou os vistos a todos os fugitivos em obediência às ordens da chancelaria argentina. Estes, desesperados, tentavam atravessar a fronteira da Argentina clandestinamente, a pé, e muitos foram roubados, assassinados ou abandonados pelos guias que contratavam para a travessia.

Uma das situações que impressionou o avô foi o caso de uma bela jovem que após oferecer as suas jóias e implorar pelo visto, tirou a roupa e ficou nua frente a ele. Esta e outras histórias aflitivas contadas por seu avô – que morreu em 1955 - sobre os judeus que se lançavam à aventura temerária de atravessar a fronteira, a partir da Bolívia, foram confirmadas pelo escritor ao encontrar documentos a respeito no subsolo do Ministério do Interior em Buenos Aires. Goñi reconhece que houve um fator muito pessoal no seu pedido de revogação da Diretiva 11 porque seu avô foi um dos muitos diplomatas de carreira que aplicaram a ordem, “imbuído de um senso de obediência à moda antiga”.

“Fechar os olhos”

Na conclusão de seu livro, Goñi afirma que decidiu escrever “A Verdadeira Odessa” por estar “exasperado” pela falta de justiça contra os crimes cometidos pela ditadura (1976-1983), quando “20 mil pessoas desapareceram nos campos de morte da Argentina” (no período, ele trabalhou no ‘Buenos Aires Herald’, de língua inglesa), e também “pelos fatais atentados a bomba contra a embaixada de Israel (1992) e o centro judaico AMIA, em Buenos Aires, em 1994 – o ataque mais mortal contra um alvo judeu desde o Holocausto, matando 86 pessoas”. Em 1998, o autor já tinha se iniciado no tema ao publicar “Perón y los alemanes” que não provocou o debate que ele esperava. “Vi-me obrigado a cavoucar o passado para traçar um gráfico do longo aprendizado dos argentinos no ato de fechar os olhos diante do mal.”

Com uma sinceridade que chega a ser constrangedora, Goñi não poupa nem a si mesmo. Logo após a publicação do livro, em entrevista à correspondente Noga Tarnopolsky para “The International Raoul Wallenberg Foundation” – organização não governamental que promove os valores humanos de coragem e solidariedade que marcaram os salvadores do Holocausto – ele confessou: “É difícil dizer e difícil de as pessoas aceitarem, mas devo dizer que eu mesmo sou antissemita por causa da educação que tive e também porque isso faz parte da sociedade onde tenho vivido.” Para o jornalista, se antes ele negava que existia qualquer tipo de antissemitismo na Argentina porque assim acreditava, depois da extensa pesquisa realizada sua opinião é que a sociedade argentina precisa lidar com o problema do antissemitismo, que é disseminado, se quiser se tornar um corpo social democrático e transparente.

Atualmente vivem 187 mil judeus na Argentina. Uma redução expressiva, considerando-se que em 1950 o número registrado era de 310 mil, conforme dados da Agência Judaica (The Jewish Agency).

Sheila Sacks é jornalista


                       
                      
                                
CIDADE DO VATICANO, 24 Abr (Reuters) - Os falecidos papas João 23 e João Paulo 2º, que serão canonizados no domingo, fizeram tanto para por fim a dois milênios de antissemitismo católico que um grupo judeu de direitos humanos os chama de "heróis do povo judeu".
Os dois pontífices marcaram a maior igreja do mundo de maneiras tão variadas que a maioria dos católicos provavelmente listaria o respeito pioneiro pelos judeus, que João Paulo 2º chamou de "nossos amados irmãos mais velhos", depois de seus outros feitos.
Mas, para uma fé minoritária que sofreu séculos de perseguições, vida em guetos e depois os horrores do Holocausto, a mudança que eles operaram nas relações católico-judaicas pode contar como mais um milagre a seu crédito.
João 23 é lembrado em especial por convocar o Segundo Concílio Vaticano (1962-1965), cuja declaração "Nostra Aetate" (Em nossos tempos) marcou época ao repudiar o conceito, nutrido por dois mil anos, de que os judeus tinham culpa coletiva pela morte de Jesus.
"O Nostra Aetate abriu caminho para mudanças esplêndidas nas relações católico-judaicas em todo o mundo, ainda que o grau no qual isso foi absorvido dependesse do quanto católicos e judeus vivessem lado a lado", disse o rabino David Rosen, Diretor Internacional de Assuntos Interreligiosos do Comitê Judaico Norte-americano.
Durante seu longo papado, entre 1978 e 2005, João Paulo 2º se tornou o primeiro pontífice desde os tempos antigos a visitar uma sinagoga.
Em visita ao Muro das Lamentações, em Jerusalém, ele deixou um bilhete dizendo estar "profundamente entristecido pelo comportamento daqueles que, ao longo da história, causaram sofrimento a estas suas crianças".
"Foi um gesto que nunca será esquecido", afirmou o rabino Abraham Cooper, diácono associado do Centro Simon Wiesenthal, o grupo que saudou os dois novos santos como heróis. 
Durante a Segunda Guerra Mundial, o silêncio público do papa Pio 23 sobre o Holocausto levou a alegações - ainda vivas hoje - de que ele fez vista grossa à agonia dos judeus. Seus defensores dizem que Pio fez tudo que pôde nos bastidores para ajudá-los.
Ao mesmo tempo, na época da guerra o arcebispo Angelo Roncalli usava seu cargo como embaixador do Vaticano em Istambul para organizar uma rede de freiras, diplomatas e outras pessoas para emitir vistos e certificados de batismo e imigração para judeus nos Bálcãs para levá-los à Turquia, e de lá para a Palestina, então sob mandato britânico.
Eleito como papa João 23 em 1958, ele retirou a frase ofensiva "judeus pérfidos" de uma oração litúrgica da Sexta-feira Santa, dia no qual os cristãos lembram a morte de Jesus.
"Durante o Holocausto, o então arcebispo Angelo Roncalli foi essencial para salvar as vidas de um grande número de judeus búlgaros, húngaros e outros", afirmou Menachem Rosensaft, professor de direito do genocídio nas universidades norte-americanas Columbia e Cornell e filho de dois sobreviventes do Holocausto.
Karol Wojtyla, que se tornou João Paulo 2º em 1978, cresceu na Polônia com amigos judeus e, na juventude, testemunhou o cerco nazista a judeus em sua terra natal.

O papa Francisco teve boas relações com os judeus argentinos quando era o arcebispo Jorge Bergoglio em Buenos Aires, e até escreveu um livro com o principal rabino da cidade, Abraham Skorka.